Nova taxa de juro em Moçambique reflecte esforços para reatar relação com o FMI – BMI Research

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Nota de 50 Meticais da Série 2017

A consultora BMI Research considerou hoje que a nova Taxa do Mercado Monetário Interbancário de Moçambique terá um impacto limitado na inflação e reflete os esforços do país para reatar a relação com o FMI.

“A introdução de uma nova taxa pelo banco central de Moçambique não deverá ter um impacto significativo na dinâmica da inflação, que será ditada principalmente pela perspetiva mais estável para os preços da comida e dos combustíveis”, considera esta consultora do grupo da Fitch.

Numa nota enviada aos investidores, e a que a Lusa teve acesso, os analistas escrevem que “a nova taxa é um reflexo dos esforços do país para cumprir as linhas-mestras do FMI na esperança de que isso acelere uma nova relação com o Fundo”.

A nova taxa, fixada em 21,75%, visa reforçar o mecanismo de formação das taxas de juro na economia e “torná-lo mais transparente e consentâneo com as boas práticas internacionais”, referiu o governador, Rogério Zandamela, quando apresentou a medida, em abril.

“Acreditamos que a introdução da nova taxa vai acelerar a transmissão da política monetária do banco central para os bancos comerciais”, mas controlar a inflação “vai continuar a ser difícil porque o cabaz de compras dos consumidores continua muito determinado por fatores externos que estão para além do controlo do banco central”, concluem os analistas da BMI.

Fonte: Lusa

Luisa Diogo optimista num reatamento de programa com o FMI

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A antiga primeira-ministra moçambicana, Luísa Diogo, manifestou-se optimista num reatamento do programa do Fundo Monetário Internacional (FMI) com Moçambique, considerando que os moçambicanos devem aprender a confiar nas suas instituições.

“Eu acredito nas instituições moçambicanas e sei que elas vão conseguir encontrar a forma de direcionar este processo da forma mais transparente e aceitável, para que, na base disso, possamos encontrar formas de debater com o FMI para desbloquear o programa”, afirmou a antiga governante.

Luísa Diogo falava à margem de uma conferência organizada pela revista Exame e pelo banco Barclays Moçambique, instituição em que preside ao Conselho de Administração.

O escândalo das dívidas ocultas, contraídas entre 2013 e 2014, agitou a opinião pública moçambicana com organizações da sociedade civil a exigirem a responsabilização dos autores das dívidas e a protestarem contra a inscrição das mesmas na conta-geral do Estado.

Para a antiga primeira-ministra, os moçambicanos precisam de acreditar na Procuradoria-Geral da República, lembrando que foi este órgão que fez o contrato para que auditoria fosse realizada.

“Espero que tudo decorra em tempos e em prazos que possam beneficiar a nossa economia”, acrescentou Luísa Diogo, reiterando o seu otimismo para com o futuro.

“Os investidores sabem muito bem que este país é bom para investir, portanto, é necessário que se organizem para este efeito”, concluiu.

O escândalo das dívidas ocultas rebentou em abril de 2016 – a dívida de 850 milhões de dólares da Ematum era conhecida, mas não os 622 milhões da Proindicus e os 535 da MAM – e atirou Moçambique para uma crise sem precedentes nas últimas décadas.

Os parceiros internacionais suspenderem apoios, a moeda desvalorizou a pique e a inflação subiu até 25% em 2016, agravando a vida naquele que é um dos países mais pobres do mundo.

O reatamento das ajudas internacionais ficou dependente da realização desta auditoria independente às dívidas, cujo sumário executivo foi distribuído pela PGR e sobre o qual se aguardam agora as reações dos parceiros.

Na segunda-feira, o FMI iniciou uma missão a Moçambique para discutir com as autoridades a auditoria às dívidas ocultas do país.

Fonte: Lusa

Sete perguntas e respostas sobre a condenação de Lula da Silva

Ex-Presidente brasileiro foi condenado a nove anos e meio de prisão

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Lula vai ser preso?

Por enquanto não. O próprio juiz Sergio Moro refere na sentença que “considerando que a prisão cautelar de um ex-presidente da República não deixa de envolver certos traumas, a prudência recomenda que se aguarde o julgamento pela Corte de Apelação”, ou seja, em segunda instância.

Qual o passo seguinte da defesa?

Recorrerá à Corte de Apelação, ou seja, ao Tribunal Regional Federal (TRF) de Porto Alegre, que tem jurisdição sobre Curitiba, onde trabalha Moro. Lá, um grupo de desembargadores decidirá se mantém a pena ou absolve.

Qual o comportamento padrão desse tribunal?

Dos 41 condenados por Moro que recorreram ao TRF, 12 acabaram absolvidos, incluindo na semana passada o tesoureiro do PT Vaccari Neto por falta de provas. Dos outros 29, em 13 casos a pena foi mantida, em cinco reduzida e em 13 aumentada.

Condenado em segunda instância, Lula será então preso?

Em princípio sim. Mas nos últimos tempos o Supremo tem divergido, mandado soltar presos nessas condições.

E condenado em segunda instância, pode concorrer às presidenciais de 2018?

Segundo a Lei da Ficha Limpa, que torna inelegíveis políticos condenados a partir da decisão de um colégio de desembargadores, NÃO. Mas caso a decisão do TRF ocorra já depois de registadas as candidaturas para 2018, Lula pode concorrer, dependendo de apreciação judicial. Se a decisão, finalmente, ocorrer com Lula já eleito, o processo é considerado nulo.

Lula foi condenado sozinho?

Não. Dois executivos da construtora OAS, incluindo Léo Pinheiro, ex-presidente da empresa e amigo pessoal de Lula, também foram.

Moro considerou-o culpado de todos os crimes de que era acusado no processo?

Não: apenas por corrupção ativa e lavagem de dinheiro no caso do tríplex. Havia outro, relativo ao seu acervo presidencial, em que foi absolvido.

Preços ao consumidor recuam 1,2% nas principais cidades de Moçambique – INE

A média dos preços de diferentes produtos nas principais cidades do país caiu 1,2% em junho, de acordo com dados anunciados hoje pelo Instituto Nacional de Estatística da Moçambique (INE).

Os cálculos divulgados através da Agência de Informação de Moçambique (AIM) foram feitos com base em valores obtidos pelo INE na capital, Maputo, e ainda na Beira (centro) e Nampula (norte).

O preço do carvão vegetal desceu 10,5%, o amendoim caiu 17%, o óleo de cozinha registou uma descida de preço de 5.9% e a compra de couves pode ser feita por um valor 16% mais baixo.

Os dados do INE apontam ainda para uma redução de 12,6% no preço de automóveis.

Em sentido contrário, os preços das refeições em restaurantes subiram 2,5%, o peixe está 4,7% mais caro, assim como os telefones móveis (7,2%), os tecidos (capulanas) também subiram 2,5% e o calçado aumentou 7,9%.

Fonte: AIM

Nyusi diz que processo de paz ganhará ímpeto nas próximas semanas

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Filipe Nyusi e Afonso Dhlakama em fevereiro de 2015/Foto de Ferhat Momad (AIM)

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, voltou a apelar à paciência, patriotismo e moçambicanidade, na busca da paz efetiva no país, assegurando que o processo está a decorrer e que, nas próximas semanas, vai ganhar mais ímpeto.

Falando, sábado (8), no distrito de Morrumbene, num encontro com as mulheres de Inhambane, no último dia da visita de trabalho de três dias que efetuou a esta província do Sul de Moçambique, Nyusi disse que para quem está do lado de fora pode pensar que o processo não esteja a andar.

“Nas semanas que se seguem, teremos que acelerar o processo para darmos os passos seguintes”, afirmou. “Algo está a acontecer e não precisamos de fazer corta-matos porque isso pode comprometer o processo”, acrescentou.

Exemplificou que a quando do anúncio da retirada das Forças de Defesa e Segurança (FDS) das posições na serra de Gorongosa, nem toda gente compreendeu o que estava a acontecer, facto agravado pela pressão do outro lado.

“Gostaria que as mulheres, como transmissoras de calor de mãe, encorajassem a todos para que juntos, com patriotismo e moçambicanidade, contribuamos positivamente para a paz pois a insegurança é repulsiva ao desenvolvimento”, disse.

Duas comissões de especialidade que integram elementos indicados pelo Governo e pela Renamo, e um grupo de contacto, constituído pelo corpo diplomático acreditado em Maputo, trabalham em assuntos sobre descentralização e militares, no âmbito da busca da paz efectiva no país.

A comissão de descentralização tem mandato para propor projectos de legislação e até emendas constitucionais que se mostrem necessárias para viabilizar os entendimentos sobre a matéria.

Enquanto isso, a comissão para os assuntos militares trabalha nos mecanismos de monitoria da cessação de hostilidades, desmobilização, desarmamento total, reintegração, e verificação do processo no terreno.

Ambas comissões são assessoradas por especialistas internacionais em matérias de descentralização e militares.

Algumas vozes políticas já manifestaram preocupação com a aparente lentidão do processo da paz em Moçambique.

Fonte: AIM

São estas as condições impostas por Ronaldo para ficar no Real Madrid

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Depois de ter confirmado a continuidade no Real Madrid, surgem agora algumas das condições impostas por Ronaldo para permanecer no Santiago Bernabéu.

Cristiano Ronaldo pôs fim à especulação e garantiu que o seu futuro passa pelo Real Madrid. No entanto, à decisão do português vêm aliados alguns custos, e nem todos são monetários.

De acordo com o jornal As, Ronaldo vai passar a estar presente nas reuniões com Florentino Pérez, sendo que terá sempre uma palavra a dizer nas decisões tomadas pelo clube.

Para além disso, o português “aproveita” a saída de Pepe para passar a ser o terceiro capitão do clube, situando-se apenas atrás de Sergio Ramos e Marcelo. Recorde-se que Ronaldo já figurava na lista de capitães “merengues” na última época, mas era apenas quarto na hierarquia.

A estas decisões junta-se, como é expectável, um aumento salarial. Se antes Ronaldo era o jogador mais bem pago do mundo, o português vê-se agora ultrapassado por Lionel Messi, que passará a cobrar 95 milhões de euros por época depois de acertada a renovação com o Barcelona. Agora que Ronaldo já se comprometeu com os “merengues”, não demorará muito até que o capitão da Selecção recupere o primeiro lugar na lista dos atletas mais bem pagos do mundo.

Fonte:ojogo.pt

Cerveja absorve produção de milho no centro de Moçambique

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Trés das principais cervejas moçambicanas: Manica, 2M e Laurentina (Preta)

A província da Zambézia, no centro de Moçambique, prevê escoar este ano 650 mil toneladas de milho para uma nova linha de produção das Cervejas de Moçambique, anunciaram as autoridades provinciais.

“A nossa espectativa é de que não haja excedente”, sendo garantido a venda de toda a produção, explicou Momad Juízo, diretor da Indústria e Comércio na Zambézia, citado hoje pela Rádio Moçambique.

De acordo com aquele responsável, vão ser estabelecidas parcerias com produtores de milho, através de associações agrícolas.

O objetivo consiste em colocar o cereal em quantidades industriais na vizinha província de Nampula, a norte, onde será processada a nova cerveja.

Por outro lado, as autoridades recomendam os produtores a reservar uma parte da produção de milho para sementeira na próxima época agrícola.

Fonte: Lusa

Missão do FMI fica em Maputo até dia 19 para discutir auditoria às dívidas ocultas

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Sede do governo da República de Moçambique/Foto EGMatos

O Fundo Monetário Internacional (FMI) iniciou hoje uma missão a Moçambique, até dia 19, para discutir com as autoridades a auditoria às dívidas ocultas do país, que há um ano fizeram congelar os apoios externos.

Segundo o FMI, “persistem lacunas de informação, em particular no que respeita ao uso dos empréstimos”, no valor de dois mil milhões de dólares, contraídos por empresas públicas detidas pelos Serviços de Informações e Segurança do Estado (SISE) à revelia do parlamento e parceiros internacionais em 2013 e 2014.

O FMI e doadores fizeram depender a retoma dos apoios diretos ao Orçamento do Estado dos resultados das averiguações e ainda não se sabe o que irá acontecer.

A consultora Kroll queixou-se de falta de colaboração dos responsáveis pelas empresas para disponibilizar informação sobre o destino dos fundos, ao mesmo tempo que indiciou diversas pessoas, sem referir nomes, por má gestão e violação da lei e classificou os planos das empresas como irrealistas.

A missão do corpo técnico do FMI visa “discutir os resultados da auditoria com as autoridades e possíveis medidas de seguimento”, anunciou a instituição, em comunicado, depois de conhecido o sumário executivo, em junho.

Entre essas medidas está a possibilidade de “trabalhar com as autoridades para abordar preocupações relacionadas com a gestão de recursos públicos”.

A missão deverá também “reavaliar a situação macroeconómica e discutir as prioridades das autoridades relativas ao orçamento de 2018”, anunciou.

A agenda de encontros entre os elementos do FMI e as autoridades moçambicanas permanece reservada e as reuniões vão decorrer à porta fechada, disse fonte do fundo à Lusa.

Fonte: Lusa

Vargas Llosa sobre García Márquez: “Não era um intelectual, funcionava mais como artista”

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Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez, vistos por Fernando Vicente.

Na quinta-feira, 6 de julho, Mario Vargas Llosa (1936) conversou com o ensaísta colombiano Carlos Granés num curso dedicado à obra de Gabriel García Márquez (1927-2014). Durante uma hora, falaram da obra do autor de Cem Anos de Solidão e da amizade que uniu ambos os escritores desde que se conheceram, em 1967, até o rompimento, em 1976. Os trechos a seguir são parte dessa conversa.

Descoberta de um autor

Eu trabalhava em Paris, na Rádio Televisão Francesa; tinha um programa de literatura em que comentava os livros que eram lançados na França e que poderiam ter interesse na América Latina. Em 1966 chegou um livro de um autor colombiano: Pas de Lettre pour le Coronel. Era Ninguém Escreve ao Coronel. Eu gostei muito pelo realismo tão rigoroso, pela descrição tão precisa desse velho coronel que continua pedindo uma aposentadoria que nunca chegará. Impressionou-me muito conhecer esse escritor chamado García Márquez.

Romance a quatro mãos

Alguém nos colocou em contacto, eu não sei se fui eu o primeiro a escrever ou ele, mas tivemos uma correspondência bastante intensa com a qual fomos ficando amigos antes de nos conhecermos pessoalmente. A dado momento surgiu o projecto de escrever um romance a quatro mãos sobre uma guerra que houve entre o Peru e a Colômbia na região amazônica. García Márquez tinha muito mais informação do que eu sobre a guerra, nas suas cartas contava-me muitos detalhes, possivelmente muito exagerados para torná-los mais divertidos e pitorescos, mas esse projecto sobre o qual trocamos correspondência durante um bom tempo desapareceu. Teria sido muito difícil quebrar a intimidade do que cada um escrevia e mostrar isso diante do outro.

Amizade à primeira vista

Quando nos vimos pela primeira vez, no aeroporto de Caracas, em 1967, já nos conhecíamos e já tínhamos lido um ao outro, mas o contacto foi imediato, a simpatia recíproca e acho que ao sair de Caracas já éramos amigos. E quase, quase diria amigos íntimos. Depois estivemos juntos em Lima, onde fiz uma entrevista pública com ele na Universidade de Engenharia, um dos poucos diálogos públicos de García Márquez, que era bastante retraído e relutante em enfrentar o público. Detestava entrevistas públicas porque, no fundo, tinha uma enorme timidez, uma grande reticência a falar de improviso. O oposto do que era na intimidade, um homem extremamente loquaz, divertido, que falava com grande desenvoltura.

Devotos de Faulkner

Acredito que o que mais contribuiu para a nossa amizade foram as leituras: éramos grandes admiradores de Faulkner. Nessa correspondência que trocávamos falávamos muito de Faulkner, a maneira como nos colocou em contacto com a técnica moderna, com uma maneira de contar sem respeitar a cronologia, mudando os pontos de vista… O denominador comum entre nós eram essas leituras. Ele havia tido uma enorme influência de Virginia Woolf. Falava muito dela. Eu, de Sartre, que acho que García Márquez não tinha lido. Ele não tinha grande interesse pelos existencialistas franceses, muito importantes na minha formação. Por Camus acho que sim, mas ele tinha lido mais literatura anglo-saxónica.

Ser latino-americanos

Ao mesmo tempo, nós dois estávamos a descobrir que éramos escritores latino-americanos, mais do que peruanos ou colombianos, que pertenciam a uma pátria comum que até então conhecíamos pouco, com a qual ainda tínhamos pouca identificação. A consciência de que existe hoje uma América Latina como uma unidade cultural praticamente não existia quando éramos jovens. Isso começou a mudar depois da revolução cubana, o facto central que despertou a curiosidade do mundo pela América Latina. Ao mesmo tempo, essa curiosidade fez com que se descobrisse que havia uma literatura inovadora.

Cuba e o ‘caso Padilla’

García Márquez já havia passado por um processo semelhante, só que com muito mais sensatez, de certo desencanto com a revolução cubana. Ele foi a Cuba para trabalhar na agência Prensa Latina, como Plinio Apuleyo Mendoza, seu grande amigo. Trabalharam lá enquanto a Prensa Latina mantinha certa independência em relação ao Partido Comunista. Mas o Partido Comunista, de uma maneira que não chegava à opinião pública, colocou-se como objectivo a captura da Prensa Latina. Quando a capturou, tanto Plinio como ele foram expurgados. Para García Márquez isso foi um choque pessoal e político. Ele manteve uma enorme discrição sobre esse assunto, mas quando o conheci, eu era um grande entusiasta da revolução cubana e ele muito pouco, inclusive adoptava uma posição um pouco zombeteira, como dizendo: “rapazinho, espere, você vai ver!”. Essa era a atitude que ele tinha em privado, não em público. Quando aconteceu o caso Padilla, em 1971, ele já não estava mais em Barcelona, não sei se foi uma saída temporária ou definitiva, não me lembro, mas lembro que quando prenderam Padilla e o levaram preso sob a acusação de ser agente da CIA, fizemos uma reunião na minha casa, em Barcelona, com Juan e Luis Goytisolo, Castellet e Hans Magnus Enzensberger para fazer uma carta de protesto pela captura de Padilla. Nessa carta – assinada por muitos intelectuais – Plinio disse que devíamos colocar o nome de García Márquez e nós dissemos que era preciso consultá-lo. Eu não podia fazer isso porque não sabia onde ele estava naquele momento, mas Plinio decidiu colocar a assinatura assim mesmo. Pelo que soube, García Márquez protestou energicamente com Plínio. Eu não tive mais contacto com ele. Depois de Padilla ter saído do calabouço, depois de acusá-lo e todos os que o tinham defendido de serem agentes da CIA – um absurdo – fizemos uma segunda carta de protesto que ele já não quis assinar. Depois disso a posição de García Márquez contra Cuba mudou totalmente: ele se aproximou muito, começou a ir novamente – não tinha retornado desde que o expurgaram – e a aparecer em fotos com Fidel Castro, a manter essa relação – que continuou até o fim – de grande proximidade com a revolução cubana.

Amigo de Fidel Castro

Não sei exactamente o que aconteceu, depois do caso Padilla não tive mais nenhuma conversa com ele. A tese de Plinio é que, apesar de saber que muitas coisas iam mal em Cuba, García Márquez achava que a América Latina deveria ter um futuro socialista e que, de qualquer modo, mesmo que muitas coisas em Cuba não estivessem funcionando como deveriam, Cuba era uma espécie de aríete que estava rompendo o imobilismo histórico da América Latina, que apoiar a revolução cubana era apoiar o futuro socialista da América Latina. Eu sou menos optimista. Acredito que García Márquez tinha um sentido muito prático da vida, que descobriu naquele momento fronteiriço, e percebeu que era melhor para um escritor estar com Cuba do que estar contra Cuba. Livrava-se da surra que recebemos todos os que adoptamos uma postura crítica. Estando do lado de Cuba podia fazer o que quisesse, jamais seria atacado pelo inimigo verdadeiramente perigoso para um escritor, que não é a direita, mas a esquerda. A esquerda é que tem o grande controle da vida cultural em todo lugar e, de certa forma, antagonizar-se com Cuba, criticá-la, significava arranjar um inimigo muito poderoso e passar a ter de se explicar a todo o momento, provando que não era agente da CIA, reaccionário, ou pró-imperialista. Minha impressão é que, de certa forma, a amizade com Cuba, com Fidel Castro, o vacinou contra todas essas contrariedades.

‘Cem Anos de Solidão’

Fiquei fascinado com Cem Anos de Solidão, tinha gostado de ler as suas obras anteriores, mas ler Cem Anos de Solidão foi uma experiência fascinante. Achei o romance magnífico, extraordinário. Assim que terminei de ler, escrevi um artigo com o título “Amadís na América”. Naquela época, eu era um entusiasta dos romances de cavalaria e achei que, enfim, a América Latina tinha encontrado o seu grande romance de cavalaria em que prevalecia o elemento imaginário sem que desaparecesse o substrato real, histórico, social, que tinha essa mistura insólita. Essa minha impressão foi compartilhada por um público muito grande. Entre outras características, Cem Anos de Solidão tinha o abc de poucas obras-primas, a capacidade de ser um livro cheio de atractivos para um leitor refinado, culto e exigente ou para um leitor absolutamente elementar que só acompanha o enredo e não se interessa nem pela língua nem pela estrutura. Não só comecei a escrever comentários sobre a obra de García Márquez, mas também a ensinar García Márquez. O primeiro curso que dei foi de um semestre em Porto Rico. Depois na Inglaterra e finalmente em Barcelona. Dessa maneira, sem que eu me propusesse a isso, com as anotações que fiz nesses cursos foi surgindo o material que terminou no livro História de um Deicídio.

Gabito e o ano perdido

García Márquez leu História de um Deicídio, sim. Disse que o seu exemplar estava cheio de anotações e o enviaria a mim. Nunca enviou. Tenho uma história curiosa com esse livro. Os dados biográficos foram informados por ele e eu acreditei, mas numa viagem em navio para a Europa parei num porto colombiano e ali estava toda a família de García Márquez, entre eles o pai, que me perguntou: “E por que você mudou a idade de Gabito?” “Eu não mudei a idade. É a que ele me disse”, respondi. “Não, você diminuiu um ano, ele nasceu um ano antes”. Quando cheguei a Barcelona contei o que o pai dele me havia dito e se incomodou muito, tanto que mudei de assunto. Não podia ser brincadeira de García Márquez.

Poeta, não intelectual

Era extraordinariamente divertido, um óptimo contador de casos, mas não era um intelectual, funcionava mais como artista, como poeta, não estava em condições de explicar intelectualmente o enorme talento que tinha para escrever. Funcionava à base de intuição, instinto, palpite. Essa disposição tão extraordinária que tinha para acertar tanto com os adjectivos, com os advérbios e sobretudo com a trama e a matéria narrativa não passava pelo conceitual. Naqueles anos em que fomos tão amigos eu tinha a sensação de que muitas vezes ele não era consciente das coisas mágicas, milagrosas que fazia ao compor as suas histórias.

‘O Outono do Patriarca’

Não gostei. Talvez seja um pouco exagerado dizer assim, mas achei uma caricatura de García Márquez, como se estivesse imitando a si mesmo. O personagem não me parece nada verossímil. Os personagens de Cem Anos de Solidão, ao mesmo tempo que são desenfreados e além do possível, são sempre verossímeis, o romance tem a capacidade de torná-los verossímeis dentro do seu exagero. Ao contrário, o personagem do ditador me pareceu muito caricatural, um personagem que era como uma caricatura de García Márquez. Além disso, acho que a prosa não funcionou, que nesse romance ele tentou um tipo de linguagem muito diferente da que tinha utilizado nos romances anteriores e não deu certo. Não era uma prosa que dava verossimilhança e persuasão à história que contava. De todos os romances que ele escreveu acho esse o mais fraco.

O poder

García Márquez tinha um enorme fascínio pelos homens poderosos. O seu fascínio não só era literário, mas também vital, um homem capaz de mudar as coisas pelo poder que tinha lhe parecia uma figura enormemente atraente, fascinante. Identificava-se muitíssimo com aqueles poderosos que tinham mudado o seu entorno graças ao seu poder, no bom sentido e no mau sentido. Acho que um personagem como Chapo Guzmán teria fascinado García Márquez, tenho certeza de que, para ele, criar um personagem como Chapo Guzmán ou Pablo Escobar seria tão absolutamente fascinante como Fidel Castro ou Torrijos.

O futuro

García Márquez será lembrado somente por Cem Anos de Solidão ou sobreviverão também os seus outros contos e romances? Isso infelizmente não temos como saber, não sabemos o que vai acontecer dentro de 50 anos com os romances dos escritores latino-americanos, é impossível saber, são muitos os factores que intervêm nas modas literárias. Acredito que o que se pode dizer de Cem Anos de Solidão é que vai ficar, pode ser que a obra passe longos períodos esquecida, mas em algum momento ressuscitará e voltará a ter a vida que os leitores dão a um livro literário. Nessa obra há riqueza suficiente para ter essa segurança. Esse é o segredo das obras-primas. Estão aí, podem ficar enterradas, mas só temporariamente porque, a dado momento, algo faz com que essas obras voltem a falar com um público e voltem a enriquecê-lo com aquilo que enriqueceu os seus leitores no passado.

Rompimento

Voltou a ver García Márquez? Não, nunca… Estamos entrando em terrenos perigosos, acredito que é o momento de pôr fim a esta conversa [risadas]. Como recebeu a notícia da morte de García Márquez? Com pena certamente. É uma época que acaba, como com a morte de Cortázar ou a de Carlos Fontes. Eram escritores magníficos, mas também foram grandes amigos, e o foram num momento no qual a América Latina chamou a atenção do mundo inteiro. Como escritores, vivemos um período em que a literatura latino-americana era uma credencial positiva. Descobrir que, de repente, sou o último sobrevivente dessa geração e o último que pode falar em primeira pessoa dessa experiência é algo triste.

Extraido do El Pais/Brasil

EUA pretendem apoiar Moçambique no reforço de segurança nas fronteiras

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Dean Pittman,Embaixador dos Estados Unidos da America em Moçambique/Foto Ferhat Momade

Os Estados Unidos pretendem apoiar Moçambique no reforço de segurança nas fronteiras e no combate ao crime através de um projeto com diversas entidades, anunciou a embaixada norte-americana em Maputo.

“Este programa está a reforçar a capacidade de Moçambique de proteger as suas fronteiras nacionais e combater o crime organizado transnacional”, refere a representação diplomática em comunicado.

A preocupação prende-se com o facto de, “à medida que a economia de Moçambique cresce e se torna mais interligada com a região e o mundo, o fluxo de pessoas e de bens dentro e fora do país aumentar”.

A embaixada dos EUA está a desenvolver ações em conjugação com o Serviço Nacional de Migração Moçambicano (SENAMI) e o escritório da Organização Internacional para as Migrações (IOM), que incluem a entrega de equipamentos de verificação de documentos para os postos de fronteira.

“O projeto global inclui uma avaliação abrangente de capacidades e necessidades na gestão de fronteiras, desenvolvimento de procedimentos operativos padronizados e fornecimento de formação e equipamento”, conclui.

Em abril, o embaixador norte-americano em Maputo, Dean Pittman, disse à Lusa que Moçambique vai estar no topo dos destinos de investimento norte-americano em África graças aos novos projetos de gás natural.

Fonte: Lusa