Veteranos da Frelimo sem dúvidas de que Nyusi será candidato às presidenciais

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Filipe Nyusi, Presidente do partido Frelimo.

O secretário-geral da Associação dos Combatentes da Luta de Libertação Nacional (ACCLN) afirmou hoje não ter dúvidas de que Filipe Nyusi será o candidato do partido no poder em Moçambique nas eleições presidenciais de 2019.

“Não temos dúvidas disso. É o nosso candidato em 2019 para os próximos cinco anos, nós todos depositámos confiança nele”, disse Fernando Faustino, em entrevista ao semanário Savana.

Segundo Fernando Faustino, uma figura influente no partido no poder, além da ACCLN, a Organização da Juventude de Moçambique (OJM) e a Organização da Mulher Moçambicana (OMM), também integradas na Frelimo, vão apoiar a recandidatura do atual chefe de Estado moçambicano e presidente da organização para mais um mandato.

“Não há porquê pensarmos numa outra pessoa neste momento. A única pessoa que neste momento temos para dirigir o país, conforme as regras do nosso partido, é o presidente Nyusi. Não temos dúvidas sobre isso”, enfatizou o secretário-geral da ACCLN.

Referindo-se ao próximo congresso da Frelimo, que vai decorrer de 26 de setembro a 01 de outubro, Fernando Faustino declarou que o encontro será uma plataforma para o presidente do partido dar orientações sobre o rumo que o mesmo deve seguir nos próximos anos.

“O Presidente Nyusi vai dirigir o congresso e vai dar orientações sobre como as coisas devem correr. Há continuidade e há renovação [nos órgãos do partido], ou seja, há camaradas que vão entrar e há camaradas que vão sair”, acrescentou Fernando Faustino.

A ACCLN engloba membros da Frelimo que fizeram parte da luta de libertação nacional do colonialismo português, desde a fundação da organização em 1962 até à independência do país em 1975.

Filipe Nyusi foi eleito Presidente da República em 2014 e investido no cargo em 2015, para um mandato de cinco anos, que termina em 2019.

Caso se candidate e seja eleito em 2019, será o seu último mandato, uma vez que a Constituição da República limita a dois mandatos a função de chefe de Estado.

Fonte: Lusa

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Bancos com capital português contaminados por “dívidas ocultas” de Moçambique

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Banco  Millenium Bim em Maputo

Três bancos moçambicanos com capital português, o Moza Banco, o Millenium Bim e o Banco Comercial e de Investimentos têm uma exposição às chamadas “dívidas ocultas” de Moçambique de 130 milhões de dólares (109 milhões de euros, ao câmbio de sexta-feira, 1 de Setembro).

A notícia é avançada pela África Monitor na sua newsletter de acesso pago, que teve acesso à auditoria que a consultora inglesa Kroll fez às dívidas das empresas públicas Ematum, (empresa moçambicana de atum), Proindicus (segurança marítima) e MAM (reparação marítima), cuja criação esteve na base das chamadas “dívidas ocultas” de mais de 2,2 mil milhões de dólares (1,8 mil milhões de euros), contraídas entre 2012 e 2013, durante o mandado do presidente Armando Guebuza, à revelia do Parlamento e dos doadores internacionais.

O escândalo das “dívidas ocultas” rebentou em Abril de 2016 e levou a que instituições internacionais como o FMI e o Banco Mundial suspendessem a ajuda a Moçambique.

As dívidas das três empresas foram contraídas junto do Credit Suisse e dos russos da VTB que posteriormente as venderam a outras instituições financeiras. E é aqui que, segundo a África Monitor, entram os bancos de capital português.

O Moza Banco, à data detido a 49% pelo Novo Banco, comprou 46 milhões de dólares desta dívida, o Milennium Bim (detido a 66% pelo BCP) ficou com 55 milhões de dólares e o Banco Comercial e de Investimentos (onde a CGD tem 55% e o BPI, agora CaixaBank, 29,55%) adquiriu 37,2 milhões de dólares.

Em Outubro de 2016 o Moza Banco, o quarto maior banco a operar no país, foi intervencionado pelo Banco de Moçambique e já este ano, em Maio, o supervisor escolheu a sociedade Kuhanha para a recapitalização do banco, num processo em que serão injectados 8,170 milhões de meticais (mais de 120 milhões de euros) na instituição bancária.

A Kuhanha, sociedade gestora do fundo de pensões do Banco de Moçambique, ficou com 80% do Moza Banco e o Novo Banco reduziu a sua posição nesta instituição para 10%.

Fonte: jornaldenegocios.pt

Recenseamento eleitoral piloto vai decorrer em novembro nalgumas províncias de Moçambique

Um recenseamento eleitoral piloto, para teste de equipamento e equipas, vai decorrer entre 06 e 30 de novembro nalgumas províncias de Moçambique, anunciou hoje a Comissão Nacional de Eleições (CNE).

O ensaio antecede o recenseamento definitivo que começa a 01 de março de 2018, para as eleições autárquicas de 10 de outubro e as eleições gerais de 2019.

O teste vai decorrer nas províncias de Maputo (sul do país), Sofala (centro) e Nampula (norte), mobilizando 58 brigadas num processo avaliado em 18 milhões de meticais (246 mil euros).

“No passado nunca tivemos uma oportunidade de ensaiar os nossos instrumentos por causa do curto espaço de tempo entre aprovação da legislação e o início do próprio ciclo eleitoral”, mas desta vez isso vai ser possível, explicou o porta-voz da CNE, Paulo Cuinica, em conferência de imprensa.

Os cadernos resultantes deste ensaio serão divulgados entre 01 e 04 de dezembro para serem verificados pelos próprios eleitores.

O recenseamento experimental visa avaliar o material informático, os programas, bem como a operacionalidade das brigadas e a cadeia de sincronização de dados, até aos centros de processamento provinciais e central.

Fonte: Lusa

Nyusi diz que continuará a falar com a Renamo para chegar a acordo de paz

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Filipe Nyusi e Afonso Dhlakama em fevereiro de 2015/Foto de Ferhat Momad (AIM)

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, disse hoje que o seu executivo continuará a conversar com a Renamo, principal partido de oposição, para o alcance de um acordo definitivo de paz para o país.

“A paz é possível e só será trazida pelos próprios moçambicanos”, declarou o chefe de Estado.

Nyusi falava durante um comício na província da Zambézia, centro de Moçambique, onde efetua uma visita de três dias a vários distritos.

Para o Presidente da República, o facto de as negociações de paz terem sido assumidas pelos líderes das duas partes é um forte indicador de que os moçambicanos têm consciência da sua responsabilidade na resolução deste problema.

“O vizinho sempre acompanha, ajuda e assiste, mas a decisão definitiva é feita por nós”, acrescentou o chefe de Estado moçambicano, garantindo que o seu executivo “continuará a dialogar com todos aqueles que são intervenientes da paz”.

Na quarta-feira, o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, disse em entrevista ao semanário Canal de Moçambique que vai assinar com o Presidente moçambicano um acordo de paz entre outubro e novembro.

Apesar de Governo e Renamo terem assinado em 1992 o Acordo Geral de Paz, e um segundo acordo em 2014 para a cessação das hostilidades militares, Moçambique vive ciclicamente surtos de violência pós-eleitoral, devido à recusa do principal partido da oposição em aceitar os resultados, alegando fraude.

Em maio, o líder da Renamo anunciou uma trégua nos confrontos com as FDS por tempo indeterminado, após contactos com o chefe de Estado moçambicano.

Fonte: Lusa

Banco de Moçambique cede ações no jornal Notícias

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– Vista da cidade de Maputo/Foto EGMatos

O Banco de Moçambique cedeu a sua quota na Sociedade Notícias, que gere o jornal Notícias, o principal diário moçambicano, ao Instituto de Gestão de Participações do Estado (IGEPE), terminando uma ligação que remonta ao tempo colonial.

Segundo noticia hoje a comunicação social moçambicana, a saída do Banco de Moçambique da Sociedade Notícias resulta de uma exigência do atual governador do banco central, Rogério Zandamela.

Zandamela, um tecnocrata do Fundo Monetário Internacional (FMI) que assumiu o Banco de Moçambique em setembro de 2016, defende que o banco central deve focar-se na sua vocação principal, que é a regulação do sistema financeiro nacional, e não na gestão de empresas.

O Banco de Moçambique detinha 55% da Sociedade Notícias e as restantes quotas são detidas pelas empresas públicas Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE) e Petróleos de Moçambique.

A saída do Banco de Moçambique da Sociedade Notícias era uma exigência antiga dos gestores de órgãos de comunicação privados do país, que entendiam que essa ligação gerava uma situação de concorrência desleal, uma vez que o regulador é uma entidade pública, que recebe recursos do Estado.

A presença do Banco de Moçambique na Sociedade Notícias é uma circunstância herdada do tempo colonial, uma vez que este grupo era detido pelo Banco Nacional Ultramarino, que exercia as funções do Banco de Portugal na então colónia de Moçambique.

Com a independência de Moçambique em 1975, os ativos do Banco Nacional Ultramarino foram incorporados no Banco de Moçambique.

Além do jornal Notícias, a Sociedade Notícias detém ainda os títulos Desafio, um jornal desportivo, e o Domingo, o semanário mais antigo de Moçambique.

Fonte: Lusa

Auditoria às dívidas de Moçambique recomenda abertura de processo na Suíça

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Sede do governo da República de Moçambique/Foto EGMatos

O relatório completo da auditoria às dívidas ocultas de Moçambique recomenda que a Procuradoria-Geral da República (PGR) inicie um processo na Suíça para ter acesso a documentação até agora mantida em segredo, revelou esta quinta feira uma organização não-governamental.

O documento, elaborado pelo Centro de Integridade Pública (CIP), recomenda também que a PGR solicite intervenção das autoridades do Reino Unido para averiguar a atuação do banco Crédit Suisse (por ter sido contratado através de uma agência britânica).

A organização não-governamental moçambicana anunciou hoje ter tido acesso ao relatório completo da auditoria e aponta estas recomendações como dois dos principais detalhes que acrescem ao sumário executivo divulgado pela PGR a 24 de junho.

O CIP defende que a PGR deve divulgar o documento completo (249 páginas) em vez de o estar “a partilhar seletivamente com algumas entidades nacionais e estrangeiras”, referiu em comunicado.

“A versão final apresenta recomendações técnicas que a PGR, enquanto entidade que encomendou a auditoria, deve tomar para dar seguimento ao caso”, sublinha.

O processo na Suíça é sugerido pela consultora Kroll, que realizou a auditoria, porque o fornecedor Privinvest recusou-se a fornecer documentos que permitam avaliar os serviços e equipamentos fornecidos – apontando a auditoria para uma sobrefaturação de 713 milhões de dólares, ou seja, uma parte da dívida estatal de dois milhões de dólares cujo destino continua por detalhar.

Para o efeito, e nos termos da lei aplicável e da lei de arbitragem, a Kroll recomenda que a PGR contacte a Autoridade Supervisora do Mercado Financeiro da Suíça.

De acordo com o CIP, a Kroll refere ainda que a PGR tem poder para “solicitar a ação das autoridades britânicas através de mecanismos de assistência legal mútua em matéria criminal, disponíveis para os dois países”.

Neste capítulo, a intervenção serviria para averiguar se o banco Crédit Suisse cumpriu as leis britânicas acerca dos procedimentos para saber o destino final do dinheiro emprestado e de diligências adequadas a casos em que há figuras politicamente expostas.

As recomendações incluem ainda pedidos formais da PGR ao Serviço de Informações e Segurança do Estado (SISE) para entrega de documentação que foi recusada à Kroll – o SISE controla as três empresas pública que contraíram a dívida oculta: Ematum, MAM e ProIndicus.

Entre ela estão “todos os documentos classificados relativos à contratação do fornecedor do material adquirido pelo dinheiro dos empréstimos” por forma a “obter evidências que sustentem a existência de eventuais práticas criminosas no estabelecimento dos contratos de fornecimento, bem como apurar responsabilidades entre os gestores das empresas”, refere o CIP.

É ainda sugerido que a PGR questione António do Rosário, funcionário do SISE e administrador-delegado das três firmas públicas, bem como funcionários relevantes do Ministério das Finanças.

Fonte: Lusa

Incumprimento de Moçambique deve levar a perdas consideráveis para credores – Moody`s

O incumprimento do Governo de Moçambique no pagamento de dívida “deve levar a perdas consideráveis para os credores privados”, considerou hoje a agência de classificação de risco de crédito Moody`s.

A classificação de Caa3 (a penúltima mais baixa, além de incumprimento total), com perspetiva negativa, reflete essa expetativa, referiu a agência numa análise anual sobre o país, hoje divulgada.

“O Governo de Moçambique não fez pagamentos relativos a diversos instrumentos de dívida desde o início de 2017, pendente de uma reestruturação”, referiu Lucie Villa, vice-presidente da Moody`s e analista sénior, coautora da análise.

“O registo de incumprimentos do Governo indica a sua falta de vontade em dar prioridade aos pagamentos da dívida”, acrescentou.

A Moody`s considera que o Governo pode “tentar impor perdas maiores para os credores privados, o que aumentaria a probabilidade de o FMI estar disposto a prestar apoio financeiro”.

Nos detalhes da avaliação, a agência aponta que “o quadro institucional muito fraco de Moçambique é um desafio fundamental ao crédito, exemplificado pela não divulgação de empréstimos, garantidos pelo Governo, de duas empresas estatais, Moçambique Asset Management (MAM) e Proindicus” – naquele que ficou conhecido como o caso das dívidas ocultas.

A Moody`s alerta ainda para deficiências identificadas nas estruturas nacionais no registo de dados.

Por outro lado, a força fiscal do Governo é avaliada como sendo “Muito Baixa (-)”, refletindo “elevados e crescentes níveis de dívida pública e altos níveis de exposição financeira a riscos monetários”.

“A alta dívida pública – que era 102% do PIB em 2016 – e a falta de acesso ao financiamento, especialmente externo, para cobrir défices fiscais e pagamentos de dívida, impõe restrições ao crédito”, acrescentou a Moody`s na nota hoje publicada.

A força económica de Moçambique é categorizada como “Baixa (+)”, devido a fatores como “pequena dimensão” da economia, “diversificação limitada, fraco desenvolvimento de infraestruturas e baixos rendimentos per capita”.

Ainda assim, a Moody`s considera que o país tem boas perspetivas de crescimento a longo prazo, referindo que a exploração de gás natural liquefeito será um momento de viragem “para o desempenho das exportações de Moçambique, para as receitas do Governo e para a economia em geral”.

A Moody`s prevê que o PIB de Moçambique cresça 4,7% em 2017 a partir de um valor de 3,8% em 2016, números que se encontram abaixo do histórico do país e que resultam do impacto causado pelos baixos preços das matérias-primas e reduzida implementação de projetos no setor mineral, conclui a agência.

Fonte: Lusa

Hidroeléctrica de Cahora Bassa vai modernizar transformadores

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A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), localizada na província de Tete, centro de Moçambique, vai levar a cabo um trabalho de modernização dos seus transformadores durante um período de 39 meses, anunciou em comunicado a Siemens, empresa selecionada para a operação.

Os trabalhos vão consistir no recondicionamento de 15 transformadores conversores, incluindo a substituição dos enrolamentos de quatro unidades e das travessias, e o recondicionamento geral de 11 unidades, refere a nota.

O trabalho irá permitir que as linhas de corrente contínua da HCB, com capacidade de 1.920 megawatts (MW), possam continuar a ser exploradas com elevada fiabilidade e continuidade de serviço.

“O recondicionamento dos transformadores conversores instalados na subestação do Songo garante a extensão do ciclo de vida dos mesmos”, afirmou o diretor-geral da Siemens Moçambique, Rui Marques, citado no comunicado

Além de Moçambique, a HCB fornece energia a vários países vizinhos, nomeadamente África do Sul, Zimbabué, Suazilândia e Zâmbia.

Fonte: Lusa

A arte de manipular multidões

Noticias_falsasA era pós-verdade é na realidade a era do engano e da mentira, mas a novidade associada a esse neologismo consiste na popularização das crenças falsas e na facilidade para fazer com que os boatos prosperem.

A mentira dever ter uma alta porcentagem de verdade para ser mais crível. E terá ainda maior eficácia a mentira composta totalmente por uma verdade. Parece uma contradição, mas não é. Na sequência analisaremos como isso pode acontecer.

A pós-mentira

Hoje em dia tudo é verificável e, portanto, não é fácil mentir. Mas essa dificuldade pode ser superada com dois elementos básicos: a insistência na asseveração falsa, apesar dos desmentidos confiáveis; e a desqualificação de quem a contradiz. E a isso se soma um terceiro factor: milhões de pessoas prescindiram dos intermediários de garantias (previamente desprestigiados pelos enganadores) e não se informam pelos veículos de comunicação rigorosos, mas directamente nas fontes manipuladoras (páginas de Internet relacionadas e determinados perfis nas redes sociais). A era da pós-mentira fica assim configurada.

Dessa forma, milhões de norte-americanos acreditaram numa mentira comprovada como a afirmação de Donald Trump de que Barack Obama é um muçulmano nascido no estrangeiro e milhões de britânicos estavam convencidos de que, com o Brexit,o Serviço Nacional de Saúde teria por semana 350 milhões de libras (1,4 bilhão de reais) adicionais.

A tecnologia permite hoje manipular digitalmente qualquer documento (incluindo as imagens), e isso avaliza que se indique como suspeitos os que reagem com dados certos diante das mentiras, porque as suas provas já não têm valor de facto. E se acrescenta a isso a perda de parte da independência na imprensa com a crise econômica. O número de jornalistas foi reduzido e ela precisou levar em consideração não só os leitores, mas também os proprietários e anunciantes. Em certos casos, utilizam também técnicas sensacionalistas para obter reacções na Rede, o que fez com que perdesse credibilidade.

Com tudo isso, se chegou à paradoxal situação de que as pessoas já não acreditam em nada e ao mesmo tempo são capazes de acreditarem em qualquer coisa.

Muitos jornais dos Estados Unidos verificaram as dezenas de falsidades difundidas pelo presidente Trump (em janeiro já havia dito 99 mentiras segundo o The New York Times), mas isso não as desactivou. E a imprensa britânica, por sua vez, esmiuçou as mentiras dos que pediam a saída da UE, mas isso não desanimou milhões de eleitores.

A pós-verdade

A mentira sempre é arriscada, e requer formas muito potentes para sustentar-se. Por isso as técnicas de silêncio costumam ser mais eficazes: emite-se uma parte comprovável da mensagem, mas se omite outra igualmente verdadeira. Aqui estão alguns exemplos:

A insinuação. Não é preciso usar dados falsos. Basta sugeri-los. Na insinuação, as palavras e imagens expressadas se detêm num ponto, mas as conclusões inevitavelmente extraídas delas vão muito mais além. O emissor, entretanto, poderá se defender afirmando que só disse o que disse, que só mostrou o que mostrou. A principal técnica da insinuação na imprensa parte das justaposições: ou seja, uma ideia situada ao lado de outra sem que se explicite a relação sintática ou semântica entre ambas. Mas a sua contiguidade obriga o leitor a deduzir uma ligação.

Isso aconteceu em 4 de outubro de 2016 quando Iván Cuéllar, guarda-redes do Sporting de Gijón, saía do autocarro da sua equipa para jogar no estádio Riazor. Recebido com vaias pela torcida do La Coruña, Cuéllar parou e olhou fixamente em direcção aos torcedores. A cámara só se focou nele, o que levava à dedução de uma atitude desafiadora diante das vaias. E a situação foi apresentada dessa forma num vídeo de um veículo de comunicação asturiano. Dessa forma, foram mostrados, justapostos, dois factos: a torcida rival que vaiava e o jogador que olhava fixamente em direcção aos torcedores. Não demorou a chegar a acusação de que Cuéllar havia sido um provocador irresponsável.

Ocorreu algo que aquelas imagens não mostraram: entre os torcedores, uma pessoa havia sofrido um ataque epiléptico e isso chamou a atenção do guarda-redes do Sporting, que olhou fixamente nessa direcção para comprovar que o torcedor estava a ser atendido (pelo próprio serviço médico do clube). Ao verificar que o atendimento foi feito, seguiu o seu caminho. Tanto a presença dos torcedores como as suas vaias e o olhar do jogador foram verdadeiros. A mensagem, entretanto, foi alterada – e, portanto, a realidade percebida – ao se justapor os acontecimentos ocultando um facto relevante.

A pressuposição e o subentendido. A pressuposição e o subentendido possuem traços em comum, e se baseiam em dar algo como certo sem questioná-lo. Por exemplo, no conflito catalão se difundiu a pressuposição de que votar é sempre bom. Mas essa afirmação não pode ser universal, uma vez que não se aceitaria que o Governo espanhol colocasse urnas para que a população votasse se deseja ou não a escravidão. Somente o facto de se admitir essa possibilidade já seria inconstitucional, por mais que a resposta esperada fosse negativa. Primeiro seria necessário modificar a Constituição para permitir a escravidão, e depois sim poderia ocorrer uma votação a respeito. Foi criada, portanto, uma pressuposição segundo a qual o facto de votar é sempre bom, quando a validade de uma consulta está ligada à legitimidade e à legalidade democrática do que é colocado em votação.

Por vezes os subentendidos são criados a partir de antecedentes que, – reunindo todos os requisitos de veracidade, se projectam sobre circunstâncias que concordam somente em parte com eles. Por exemplo, nos chamados Panama Papers foram denunciados casos reais de ocultação fiscal. Uma vez expostos os factos reais e criadas as condições para a sua condenação social, foram acrescentados à lista outros nomes sem relação com a ilegalidade; mas o subentendido transformou a oração “tem uma conta no Panamá” em algo delituoso que contribuiu com a criação de um estado geral de opinião falso. Não é crime realizar negócios no Panamá e por conta disso abrir contas nesse país; mas se isso se expressa com essa oração suspeita, o legal se transforma em condenável pela pressuposição.

A falta de contexto. A falta do contexto adequado manipula os factos. Assim aconteceu quando o deputado independentista catalão Lluis Llach recebeu ataques injustos por declarações sobre o Senegal. Em 9 de setembro de 2015, um jornal de Barcelona postava na sua manchete esta frase, colocada na boca do ex-cantor e compositor: “Se a opção do sim à independência não for maioritária, vou para o Senegal”. Daí se poderia deduzir que ir para o Senegal era algo assim como um acto de desespero (e uma ofensa para aquele país africano). Desse modo interpretaram alguns colunistas e centenas de comentários publicados sob a notícia. No entanto, o jornal tinha omitido um contexto importante: Llach criou anos atrás uma fundação humanitária de ajuda ao Senegal e, portanto, longe de expressar desprezo nas suas palavras, ele mostrava o desejo de se voltar para essa actividade se o seu esforço político fracassasse. Nessa falta de dados de contexto se pode incluir a omissão cada vez mais habitual das versões e das opiniões – que deveriam ser recolhidas com neutralidade e honestidade – daquelas pessoas atacadas por uma notícia ou opinião.

Inversão da relevância. Os beneficiários desta era da pós-verdade nem sempre dispõem de factos relevantes pelos quais atacar os seus adversários. Por isso, com frequência recorrem a aspectos muito secundários…. que transformam em relevantes. Os costumes pessoais, a vestimenta, o penteado, o carácter de uma pessoa no seu ambiente particular, um detalhe menor de um livro ou de um artigo ou de uma obra (como naquele caso dos manipuladores de marionetes em Madrid)…adquirem um valor crucial na comunicação pública, em detrimento do conjunto e das actividades de verdadeiro interesse geral ou social. Desse modo, o que for opinião ou subjectividade sobre esses aspectos secundários se apresenta como noticioso e objectivo. E, portanto, relevante.

A pós-censura

Até aqui foram analisadas brevemente (por razões de espaço e de lógica jornalística) as técnicas da pós-mentira e da pós-verdade. Mas os efeitos perniciosos de ambas recebem o impulso da pós-censura, segundo retratou e definiu Juan Soto Ivars em Arden las Redes (Debate, 2017).

Neste novo mundo de pós-censura quem se manifesta à margem da tese dominante recebe uma desqualificação muito ofensiva que serve como aviso para outros navegadores. Assim, a censura já não é exercida nem pelo Governo nem pelo poder econômico, mas por grupos de dezenas de milhares de cidadãos que não toleram uma ideia discrepante, que se realimentam uns com os outros, que são capazes de linchar quem, a seu ver, atenta contra o que eles consideram inquestionável, e que exercem o seu papel de turba mesmo sem saber muito bem o que estão a criticar.

Soto Ivars detalha alguns casos assustadores. Por exemplo, o espancamento verbal sofrido pelos escritores Hernán Migoya e María Frisa a partir dos respectivos tuítes iniciais de quem confundiu o que expressavam os seus personagens de ficção com o que pensava cada autor, e que foram secundados de imediato por uma multidão endogâmica de seguidores que se apresentaram para o bombardeamento sem comprovação alguma. Fizeram a mesma coisa alguns jornalistas que, para não ficarem de fora da corrente dominante, simplesmente recolheram das redes o manipulado escândalo, branqueando assim a mercadoria avariada.

Esta inquisição popular contribui para formar uma espiral do silêncio (como a definiu Elisabeth Noelle Neumann em 1972) que acaba criando uma aparência de realidade e de maioria cujo fim consiste em expulsar do debate as posições minoritárias. Nesse processo, as pessoas se dão conta logo de que é arriscado sustentar algumas opiniões, e desistem de defendê-las, para maior glória da pós-verdade, da pós-mentira e da pós-censura. Assim, o círculo da manipulação fica fechado.

Por Álex Grijelmo é autor de La Información del Silencio. Cómo se Miente Contando Hechos Verdaderos (A Informação do Silêncio. Como se Mente Contando Fatos Verdadeiros), in elpais.com/Brasil

Moçambique deverá impulsionar carros eléctricos com maior depósito de grafite do mundo

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Imagem da montagem da unidade de exploração do grafite em Balama

Moçambique aprovou na terça-feira o contrato para a exploração do maior depósito de grafite do mundo, em Balama, província de Cabo Delgado, mineral que deverá ser usado em baterias de carros eléctricos, anunciou a empresa concessionária.

As fotografias de desenvolvimento do projecto estão em destaque no portal da empresa mineira australiana Syrah Resources, consultado hoje pela agência Lusa.

A firma explica que a procura por grafite está em alta a nível mundial por ser um componente usado em baterias, numa altura em que o mercado de automóveis movidos a electricidade e outros produtos eléctricos está em expansão.

A Syrah aposta na extracção e processamento para obter “grafite esférica revestida”, um produto processado de “alto valor”, usado para conduzir electricidade em baterias de lítio.

Neste contexto, a mina de Balama será “a principal produtora mundial de grafite de alta pureza”, destaca.

“A produção de Balama é direccionada para fornecer mercados tradicionais de grafite industrial e mercados emergentes de tecnologia”, sendo que a Syrah “concluiu com sucesso um extenso trabalho de teste de certificação com vários produtores de baterias para o uso de grafite esférica de Balama”.

A empresa diz estar agora “focada no avanço das actividades de desenvolvimento do Projecto Balama e intensificou as acções de marketing, com vista a tratar da primeira produção no terceiro trimestre de 2017”, ou seja, até final de setembro.

O Governo moçambicano aprovou na terça-feira os termos do contrato mineiro para a extração de grafite em Balama com a empresa Twigg Exploration and Mining, subsidiária da Syrah, por um prazo de 25 anos renováveis e prevendo-se um investimento mínimo a rondar 88 mil milhões de dólares norte-americanos.

A concessionária adquire o direito de extração, processamento, armazenamento e comercialização dos produtos mineiros.

A existência de valiosos depósitos subterrâneos de grafite na província de Cabo Delgado já tinha motivado também o investimento da multinacional alemã AMG Graphit Kropfmuhl.

A 28 de junho, a empresa iniciou formalmente a produção de grafite na mina de Ancuabe, tendo investido 12 milhões de dólares, empregando 100 trabalhadores, 60 dos quais moçambicanos.

O arranque foi o culminar de cerca de cinco anos de reabilitação da infraestrutura, que estava paralisada na sequência da guerra civil de 16 anos, que terminou em 1992.

Desde o século XIX que a existência de grafite é motivo de realce no norte de Moçambique.

De acordo com o portal da Syrah, o geólogo e engenheiro John Furman, ao serviço da Companhia do Niassa, foi o primeiro a documentar o “grande depósito de grafite” de “alta qualidade” na região de Balama em 1893.

Fonte: Lusa