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Clara Soeiro/foto de Edmundo Galiza Matos

À mana Clara,
O louco do Fernando Manuel dizia-me há dias: “Porra, Galiza. Estou na idade de fazer o que quero e me apetece. Até de ‘puxar’ um charro de suruma em pleno banquete presidencial”! Heresia, mais uma, do Fernandinho, conclui. Ontem, lá p’ra cinco da matina, bem desperto, vejo-me no vidro da cristaleira, com o talher perto dos beiços. Estava a almoçar quando os outros saltavam da cama. A almoçar as cinco, madrugada por esta altura do ano. Fia da mãe, queres ver que o Fernandinho tem razão! É que, de há uns anos a esta parte sacudi a poeira das imposições, a começar pela dos horários. Vou para a cama as 11, matabicho as 17, lancho as 21, almoço de madrugada. E a minha Ninfa nem está aí para esta minha nova faceta desregrada, tanto mais que a nossa dose semanal de piruetas, essa, sagrada, tem dia e hora. Asceta só na tumba. Mas no resto, sou, faço e digo o que me dá na boa. Viva a liberdade, livre de chefes ignarros e soturnos, livre de colegas neuróticos e malabaristas. Hoje, nesta minha idade, Eu sou Eu. Porque…
“Perdemos o medo, as inimizades, os rancores
e os ódios.
Perdemos mais tempo a passear, viajar,
conversar com os amigos.
Perdemo-nos nas brincadeiras com os nossos netos.
Perdemos o norte e o sul porque somos o nosso
próprio epicentro.
Perdemos vontade de estar mal com a vida e
com o nosso próximo.
E quando perdemos tudo isso, afinal de contas
estamos a ganhar uma nova forma de estar no
mundo. Esta é a idade da maturidade”
Ena Clara, minha Clara Soeiro, não sabia que havemos perdido tanto! E que perdas my God. Bonitas, só! E quando proclamas “… Perdemos mais tempo a passear, viajar…”, suspiro e digo “Mama mia, acertaste”. Em dezembro, com asas em fogo, pousei na nossa Pemba e na tua IBO…
Finalmente regressei ao ponto de partida.
Nesta viagem circum-imaginada pisei diversos
chãos, atravessei os mares, quase toquei nas
nuvens e mergulhei nos oceanos. Foi uma
espécie de volta ao mundo que me trouxe de
volta ao meu lugar de partida.
Minha terra, Ibo.”
Agora me permita um questionamento: quando desfolhava embevecido este “Entre Prosa e Poesia…” tropecei num poema. Era teu?
Nota: Passam 5 minutos da uma hora da madrugada. Me apetece lanchar.

Por: Edmundo Galiza Matos

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Clara Soeiro autogrando o livro para Luis Loforte e Edmundo Galiza Matos

 

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