Mulher_macua_pemba

Foto: (Praia da Maringanha) Edmundo Galiza Matos

A esta partiu-se-lhe o coração, coisa de traição certamente. Esta a minha primeira impressão quando, ainda distante, avaliei a silhueta desta jovem, a noite ainda teimava em não desvanecer-se. Foi numa das muitas praias de Pemba, Nanhimbi para ser exacto, irmã do Wimbi. Cabelos desgrenhados, olheiras de uma noite mal dormida, ombros meio-descaidos, inerte e completamente alheiada de tudo à sua volta. E o filho ali ao lado, coleccionando pequenas conchas, “mamã, olha, apanhei uma muito graaande!” e ela, nada de nada. Pé ante pé, fui me aproximando, condoido com aquela imagem. Ciciei um “bom dia” e a única correspondência foi um olhar de esguelha, indiferente. Ajustou a capulana nos ombros, como que a sublinhar que não a incomodasse no seu recolhimento. Retirei-me para uma ponto de onde a podia fotografar, sentindo-me um cara de pau por estar a conpuscar a malfadada vida privada da jovem. A cena foi mais forte que os meus princípios. Bruscamente, ergueu-se, sacudiu a capulana esvoaçante, destapando parte do corpo, de onde vislumbrei um biquini de um vermelho berrante, barato, num corpo mulato, esbelto, sem estragos. E sem dirigir a palavra ao filho, que imediatamente a seguiu, desapareceu entre a pouca vegetação que separa a praia e a estrada que vai até Maringanha. Permaneci ali especado, tentando imaginar o que teria acontecido de tão grave para que aquela jovem mulher tivesse escolhido o mar para compartilhar a dor que lhe ia na Alma. “Coisas de amor, só pode!”, conclui, afastando em direcção ao Kauri. Foram trés canecas de café de uma assentada. Bem precisava. A vida, Caramba!

(Por Edmundo Galiza Matos)

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