Moamba - Edmundo Galiza Matos e Luis Loforte

O autor do texto, Luis Loforte, e Edmundo Galiza Matos, num rondável do hospital da vila da Moamba.

Fomos esta manhã a Moamba para recordar um irmão, o Guilherme, Gondinho ou “Bocas”, se preferirem. Perfaria hoje, 5 de Dezembro, 60 anos de vida. A sua morte prematura, em 2001, inviabilizou esse desiderato. Rezámos no seu último reduto e depois revisitámos a memória assente numa vila que nos albergou no passado. Em 1955 chegou a nossa mãe a Moamba com o Edmundo Galiza Matos ao colo. Estávamos ambos em Inharrime. Fui a Morrumbene viver com os avós maternos. Mas em 1962 havia de pisar a Moamba para, na prática, conhecer a mãe, eu que nasci em 1952. Ia fazer 10 anos nesse ano longínquo. Reuni-me ao Edmundo e a outros irmãos, dormindo no rondável que se vê na imagem e feito para a eternidade: não racha e não desbota, fazendo pouco de obras que consomem milhões de dólares para durarem apenas o tempo de ir e vir de uma esquina próxima.

Vila da Moamba

Uma das artérias da vila da Moamba.

Percorremos a vila e o reencontro com o passado foi feito de grandes emoções. Parámos na Escola de Artes e Ofícios e lembramo-nos do António Freitas (Guinha-Guinha), no “Mathandela”, no “Nwa Mufoto” (o fotógrafo), onde vivemos lado a lado com o casal Honwana, os pais do escritor Luís Bernardo Honwana, no “Patel”, no “Barbosa” e no “Restaurante Bar Flor da Moamba” (onde vi, pela primeira vez, um reclamo luminoso). No botequim do Cristóvão lembrei-me da Josefina (Tchosofina), perita em seduzir e depois surripiar os proventos acumulados nas minas pelos mamparras magaízas; no Barbosa, vieram-me aos ouvidos os orgulhos gritados de raparigas que, bebendo mistelas de água e açúcar com códeas de pão, atiravam para as menos afortunadas: “Wo ni tcha a semendeni ka Barabosa” (deixa-me gozar a vida no cimento do Barbosa), ou ainda aquelas que saindo das lojas do Bemat Patel gabavam os filhos do proprietário: “Ka Gulamo minô, ka Faruki minô!” (Ai o Gulamo e o Faruk!). Gulamo e Faruk, personagens centrais do “Nós Matámos o Cão Tinhoso”, foram grandes futebolistas da Moamba. Pois é, quem se esconde do seu passado não merece a cidadania de que se veste!

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(*) Texto de autoria de Luís Loforte escrito em dezembro de 2017.

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