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O ano de 2017 fica na história de Moçambique como aquele em que foi tomada a primeira decisão final de investimento num megaprojeto de gás natural com previsão de receitas milionárias, capazes de acabar com a pobreza.

A decisão do consórcio liderado pela petrolífera Eni, de que a portuguesa Galp também faz parte, foi tomada em junho e deu início à contagem decrescente de cinco anos para início da exploração de gás na bacia do Rovuma, em mar alto, no norte do país.

A banca internacional já garantiu financiamento e a Eni prevê que o projeto Coral dê receitas para o Estado moçambicano de 16 mil milhões de dólares (três vezes o Orçamento do Estado para 2018) ao longo de 25 anos.

Este é apenas um de vários projetos no setor que sinalizam confiança do grande capital em Moçambique que vão fazer crescer as receitas.

A Frelimo, partido no poder desde a independência, reuniu-se no 11.º congresso em setembro e consolidou a liderança de Filipe Nyusi, Presidente da República.

Nyusi foi ao refúgio de Afonso Dhlakama, na serra da Gorongosa, e cimentou o diálogo pela paz com um aperto de mão cuja foto correu mundo, ganhando força a ideia de que Governo e Renamo podem estar perto de assinar um novo acordo que sossegue o país.

O braço armado do principal partido da oposição calou as armas no final de 2016, com Dhlakama a anunciar uma trégua sem prazo e a saudar as conversas “com o irmão Nyusi”.

Esta aproximação pode não agradar a quem vive da perpetuação de um conflito armado em Moçambique, alertou Chapane Mutiua, investigador do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em declarações à Lusa, em novembro.

Mutiua aconselha atenção para a possibilidade de tais interesses estarem por detrás de uma onda de tumultos sem precedentes que ocorreu no mês de outubro em vários pontos do país, com ataques à polícia e mortes – entre agentes e habitantes.

O caso mais célebre foi o ataque de um grupo armado a posições da polícia em Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado, vila que ficou sitiada durantes dois dias e fez disparar os alarmes para a facilidade de instrumentalização através da religião – no caso, por alegados extremistas islâmicos de origem local.

O historiador Yussuf Adam vai mais longe e refere que, em Moçambique, há “uma situação de crise social” em que “as populações rurais” de diferentes pontos “estão a responder, a atacar um Estado que elas pensam que não lhes está a servir”.

Quem percorre as ruas ouve em surdina as queixas de uma população que, apesar dos sinais de recuperação económica, ainda sofre com a grave crise de Moçambique.

Passado ano e meio das revelações, a justiça ainda não apurou responsabilidades no escândalo das dívidas ocultas do Estado no valor de dois mil milhões de dólares e que deixaram a macroeconomia do país de rastos.

O ano de 2017 ficou marcado pela auditoria ao caso que aponta indícios criminais no envolvimento de diversas figuras públicas e por pedidos do Fundo Monetário Internacional (FMI) para que haja responsabilização.

Nesse dossiê, Moçambique termina 2017 tal como começou: sem retorno das ajudas diretas de doadores ao Orçamento do Estado.

Uma das recordações mais negras do ano vai ser o assassinato de Mahamudo Amurane, presidente do município de Nampula. Lembrado dentro do país e por parceiros como um promotor do combate à corrupção, foi abatido à queima-roupa à porta de casa a 04 de outubro, data em que se celebra o Dia da Paz em Moçambique.

O crime vai levar a eleições antecipadas em Nampula a 24 de janeiro de 2018.

Algumas personalidades e entidades ouvidas pela Lusa deixaram um apelo às autoridades para que investiguem o caso para não ser mais um homicídio de uma figura pública que fica por resolver.

Fonte: Lusa

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