O escritor Mia Couto esteve em Lisboa para apresentar o terceiro volume da Trilogia Moçambicana, dedicada à memória da ocupação portuguesa da colónia e Gungunhana.

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O fim da trilogia moçambicana As Areias do Imperador dá-se com o livro O Bebedor de Horizontes. A capa é ilustrada com a Praça do Comércio, em Lisboa, onde soldados escoltam o rei prisioneiro Gungunhana – Gungunhana – e algumas das suas trezentas esposas que foram autorizadas a acompanhar o imperador derrotado. Depois da apresentação em Maputo, onde esteve presente o presidente Nyusi, seguiu-se o lançamento em Portugal e daqui a dias no Brasil. Entretanto, Mia Couto assinou contrato para a tradução deste trio na China, versão que não pode controlar mas aprecia a iniciativa: “É como andar no mato e ter medo das cobras, só posso perguntar as credenciais ao tradutor e confiar.”

Este último volume tem um encarte fotográfico que mostra que os cenários da trilogia existiram e suportam a ficção. Ou seja, diz, “sigo em paralelo com a história para o leitor perceber que há uma margem de realidade”. Quanto ao título, resulta de uma experiência pessoal nos Açores, na Terceira: “Olhava o mar infinito que rodeia a ilha e pensei que em vez de dar um sentimento de imensidão acontece o inverso, está-se preso.”

Chega-se ao fim desta trilogia e foram contadas muitas histórias. O que ficou de fora da história?

Foi em muito um trabalho de seleção pois o que há de material escrito sobre este período por parte dos portugueses e memória moçambicana é muito. Não acredito que haja qualquer outra parte da história de Moçambique tão documentada, por isso o meu trabalho foi sobretudo de seleção de episódios, não pela importância histórica mas pelo valor de sugestão.

As fontes principais da trilogia são moçambicanas ou portuguesas?

Ambas. Em Moçambique, são os registos da oralidade. Falei com gente que viveu este período não diretamente, mas que tem a história viva na sua família, moçambicanos que descendem destes personagens. Da parte portuguesa, há um manancial de diferentes registos e até de uma narrativa que vai em contramão como um discurso da grande epopeia por via de personagens reais, como Álvaro Andrea que se rebela contra a intervenção de Mouzinho de Albuquerque por ser aventureira e desrespeitar códigos de honra militares.

Que é bem destacado no romance.

Isso quer dizer que não existia um único Portugal, o que hoje se compreende com mais facilidade.

Foi fácil encontrar “esse” Portugal?

Era um Portugal que estava profundamente dividido pela grande cisão entre monárquicos e republicanos e perspetivas diferentes dos militares. Até 1895 realizava-se uma intervenção hegemónica que era a da aceitação do estado de Gaza [de Gungunhana] e poucos portugueses se apercebem disso – bem como poucos moçambicanos -, por não ser um território homogéneo do ponto de vista da dominação política. Além das terras da Coroa, havia estados com autoridade própria e a relação era de convívio entre nações.

Essa dualidade em Moçambique existe em relação a Gungunhana?

O império de Gaza resulta de uma ocupação imperial de outros povos que conquistam o território a ferro e sangue, daí essas resistências que vemos através da narradora que conta esta história. Há dois colonialismos: um africano feito por africanos e contra africanos, que entrará em confronto com a colonização portuguesa devido a um jogo de interesses imperiais.

O Gungunhana que sai deste livro é o mesmo de quando o iniciou?

Mais ou menos. Quando chego a ele já se percebe que a figura histórica que sobreviveu é contraditória. Trata-se de alguém que tem grande astúcia diplomática, reconhecida por Portugal; afável e cruel; perspicaz na perceção da história e da sua condição face ao poder; sóbrio e ébrio, e um número incontável de mulheres – apesar de só ter tido uma verdadeira paixão, impossível.

Mesmo assim acaba usado como um troféu após a sua captura!

Sim, porque mais do que uma pessoa era um símbolo e era preciso mostrar este rei derrotado para Portugal obter a prova que precisava para mostrar ao resto da Europa que o território de Moçambique tinha as fronteiras proclamadas e evitar ser retalhado e redistribuído por outras potências coloniais.

Coloca numa personagem esta fala: “As pessoas adoram uma boa narrativa. Na guerra não se defrontam apenas exércitos.” Teve isto em conta enquanto escreveu?

Tive e estou animado pelos factos recentes das guerras que foram desencadeadas e que precisaram de uma narrativa em que não importavam quanta verdade existia nela. É o caso da do Iraque, legitimada por uma grande mentira, ou agora desta construção de um grande inimigo civilizacional que é o Islão e o alegado choque de civilizações. Não é verdade, apenas predispõe a combater um inimigo construído.

Cria imagens como a do soldado cego que olha para o lodo e vê a neve da sua terra. Para quê?

A intenção é mostrar que o grande drama é a saudade de outro lugar quando está a combater num que não é seu e tem de ficar cego de alguma maneira. Ensinam o soldado a apurar a sua pontaria, mas só consegue disparar quando já está cego e vítima de uma lavagem cerebral para ver no outro o demónio.

É preciso criar delírios?

Sim, mas tem uma condição particular que é a metáfora de todos os outros. Só assim se percebe que um soldado se disponha a entregar a sua vida longe da sua terra e de quem ama para defender uma causa que não faz sentido.

Essa causa foi a colonização, mas, após a independência, veio a guerra civil. Outra causa sem sentido?

O mecanismo é sempre o mesmo. Para que o homem possa agredir o outro ao ponto de o matar é preciso desumanizar e assim está-se autorizado a eliminar o não humano.

Alguma vez se arrependeu de algum dos seus livros?

Esqueço-me dos livros porque para fazer um novo tenho de os matar simbolicamente. Quando os releio – o que é muito raro porque na escrita reli-o mil vezes, tanto que me considero um reescritor em vez de um escritor – é só por absoluta necessidade. Por ir a uma escola falar deles e não querer ser apanhado em falso pelos alunos. A releitura gera-me uma sensação ambígua, a de como fui capaz de fazer isto e o reconhecimento de ter perdido alguma espontaneidade.

Diz que “uma carta é uma patetice disfarçada de poesia”. É uma reflexão sobre a sua própria escrita?

Às primeiras vezes sim, mas, como reescrevo umas vinte vezes, fui enxugando o texto. O excesso de poesia pode matar um livro, mas mais grave do que não escrever um livro é escrevê-lo demasiadamente.

Quando escreve “quem sabe se os pretos me fazem aqui uma estátua” não receia vir a arrepender-se da utilização dessa designação?

Não estava a escrever fora da realidade que é a própria vida. Há dias estive na Alemanha num encontro por causa de um livro meu, sobre o qual várias organizações questionaram a utilização da palavra niger, (negro) na tradução. Estavam tão assustados com o politicamente correto que tinham uma proposta: em vez de negro ou preto, utilizar a expressão “excessivamente pigmentado”. Ou seja, no livro um personagem do século XIX chamar “Ó excessivamente pigmentado, venha cá”. É errado não escrever sobre a verdade da vida ou estar a corrigir historicamente uma personagem que morreu há cem anos. Estamos a conviver com uma espécie de censura que está a ser imposta para resolver nas palavras o que deve ser tratado mais fundo.

Afinal, as questões do racismo não voltaram em força ao debate?

Sim e acho que é preciso pô-las em cima da mesa de uma maneira radical. Neste livro questiono esse lado cosmético e defendo que se deve ir mais fundo ao criar um mundo em que não seja mais um fator de discriminação. Há, no entanto, um equívoco no discurso de combate ao racismo, pois foi ocupado por uma visão puritanista que é mais a purificação da linguagem enquanto o problema é outro.

E em Moçambique mudou?

Não conheço país que tenha levado mais a fundo essa luta do que Moçambique, onde se saiu de uma situação colonial que fazia nascer o racismo e criou-se um país independente dirigido por uma maioria negra, tal como se fez uma revolução, nacionalizou-se a terra e os meios de produção que assentavam numa máquina que continuava a ser igual. Não esqueço que no princípio, Samora [Machel] falava “preto” e, de repente, percebeu que era preciso mudar e passou a dizer “negro”. Eu uso a palavra certa e não quero perder tempo na escolha, ou estarei a contornar a verdadeira questão. Dizer que Gungunhana é um negro é o mesmo que nada, não é por acaso que Morgan Freeman dizia: “Não sou um ator negro, sou o Morgan Freeman.” Só com o direito a ter individualidade é que acaba o racismo.

A trilogia desmistifica tanto a “epopeia colonial” como Gungunhana também. Os leitores de Moçambique aceitam isto?

Existe uma recordação muito diversa dele. Os povos que foram dominados e massacrados por ele não têm uma boa recordação; há outros que reconhecem ter sido um grande chefe, e até quem ache que tem um potencial para valorizar a resistência anticolonial. Ou seja, há vários Gungunhanas.

E Mouzinhos de Albuquerque?

Ele conhecia a situação colonial, tinha a coragem de um suicida e a inveja de quem morre na guerra. Mas o que fez com Gungunhana foi com a situação controlada e não um ato tão heroico como se pensa.

É também um livro de história?

Antes em diálogo com a história, porque o que se passou há 120 anos ainda tem situações que se colocam hoje a todos os níveis.

Qual a reação dos leitores ao livro?

Tem sido boa. O meu receio era que dissessem “isto não foi bem assim” ou que era uma agressão à verdade histórica. Não. Percebeu-se que é um romance e que foi bem na reconstrução da história.

Pode dizer-se que esta trilogia é a história dos vencidos?

É esse o meu pressuposto desde o início, pois está a ser contada por gente marginal e do lado vencido.

Por João Céu e Silva, in http://www.dn.pt

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