Josina Machel, de 41 anos, é uma das mentoras da Associação Movimento Kuhluka, ONG que apoia mulheres vítimas de violência. A ativista, filha de Samora Machel com Graça Machel e enteada de Nelson Mandela, é sobrevivente desse crime.

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Josina Machel, de 41 anos, foi agredida pelo ex-namorado e, em consequência disso, perdeu a visão num olho | D.R.

Perdeu a visão de um olho. Neste ano o agressor, o ex-namorado, foi condenado. Em Moçambique, seis em cada dez mulheres são vítimas de violência doméstica. A Kuhluka é o pretexto para se falar de direitos das mulheres, transparência, eleições, dívida pública, sobre a sua infância e a família Machel.
Qual a pertinência de criar uma associação para apoiar mulheres vítimas de violência doméstica e abuso sexual?
A Kuhluka foi criada a partir de uma história pessoal cheia de dor e dificuldade. Pus-me no lugar dos milhões de mulheres que passam por isto e disse: não vou permitir, ou pelo menos vou tentar facilitar a vida das outras mulheres, que possam passar por violência [doméstica]. Então, para isso, precisamos criar uma associação, para criar uma plataforma de diálogo, de mobilização, que influencie políticas públicas, que envolva as instituições do Estado, que envolva individualidades, que envolva outras organizações sociais e mesmo académicas, para podermos sentar-nos e dizer qual é o problema de fundo disto. Que soluções podemos encontrar? Mas que sejam soluções locais, porque temos aspetos culturais diferentes. Depois, mobilizar a sociedade e consciencializar que violência doméstica é crime. Mas o ponto mais importante da Kuhluka é, exatamente, a criação, manutenção e apetrechamento de abrigos, para mulheres que são sobreviventes de violência. A ideia é termos um abrigo onde a mulher vai num momento de emergência e lá tem acesso a médicos, a um agente da polícia, para que não tenham de passar pelo que eu passei. Porque quando voltei umas semanas depois [da agressão], para começar o meu processo de [denúncia], os meus documentos tinham desaparecido. Acredito que não há muitas mulheres neste país que consigam fazer esse exercício. Então, para elas o abrigo facilita um sítio onde são atendidas, com pessoas que têm experiência, para reduzir o trauma e proporcionar o acesso a um sistema de aconselhamento, de como lidar com a dor, para aprender novos mecanismos de como se vai viver dali para a frente.

Como foi a situação que viveu?
Tínhamos saído e estávamos com alguns amigos. Tínhamos uma relação, mas não vivíamos juntos. Naquele dia em particular eu queria dormir em casa da minha mãe, porque era o aniversário dela. Estava emocionalmente abalada, não queria acreditar que a minha mãe já tinha 70 [anos]. E começa uma discussão, que para mim era conversa. Quando recebo um murro bem grande. Veio o segundo, bateu-me aqui nesta zona do olho, o olho fechou-se ali mesmo. Ficou preto. Começou a sangrar ali. Nunca mais vi na vida. Eu ainda estou ali a gritar quando recebo um outro [murro] aqui na nuca. Naquela altura, a única coisa que me veio à cabeça foi: “Sai do carro, tu vais morrer!” E saí. Por isso saí descalça, sem carteira, sem nada. Estava a fugir. Porque se não tivesse fugido aquilo teria continuado e não sei como teria acabado. Pus-me a gritar no meio da rua. Ninguém fez nada. Eventualmente, o senhor [que agrediu] achou depois que devia seguir-me com o carro. Nessa altura, acho que até me encontrou estatelada no chão, porque eu tinha começado a perder os sentidos por causa do embate na nuca. Levou-me ao hospital. Chego lá e começa outro processo, porque primeiro ele tentou convencer os médicos de que eu tinha caído. E eu disse: “Eu não caí, tu bateste-me!” E expliquei aos médicos o que tinha acontecido. Depois falei com a Polícia. Mas não tive grande assistência nas primeiras quatro horas. Pedi para ligarem à minha família, para saberem que estava ali, que precisava de ajuda. Ninguém me ajudou. Quando o quarto ficava um pouco mais calmo, fugia da cama para ir ao corredor e à primeira pessoa com que me deparasse pedi de joelhos: “Por amor de Deus, o meu nome é Josina, sou filha de Samora e Graça Machel, estou aqui neste hospital e ninguém me está a ajudar, por favor, será que de alguma maneira pode fazer a notícia chegar aos Machel?” Mas demorou três horas até chamarem os meus irmãos. Depois a minha família levou-me para clínicas especializadas aqui e na Europa e disseram-me que tinha uma ferida no olho. A córnea rebentou.

Decidiu depois denunciar tudo…
Quando voltei [da Europa] decidi que não ia fazer segredo do que aconteceu. Queria começar um caso em tribunal, porque achei que era daquelas coisas que, em vez de estarmos aqui como família a fazer justiça, decidimos embarcar pela via legal. E acabou sendo bastante feio, porque, enquanto eu e a minha família decidimos lutar pelo caso nos tribunais, o outro lado decidiu lutar pela opinião pública e com factos que são falsos, que foram até destruídos todos em tribunal. Mas foi criada uma certa perceção na sociedade de quem é a Josina, do que ela fez, do que ela não fez e que realmente não existia. Isso magoou-me muito, mas vai passando. E, pelo trabalho que eu vou fazer, penso que as pessoas vão começar a saber, exatamente, quais são as motivações da Josina. O que é que realmente aconteceu. E quem sabe consigo inspirar algumas mulheres, ajudá-las a tomar consciência.

Como sobreviveu a tudo isso?
Recusei vergar-me, OK? Acho que essa é que é a verdade. E tenho a sorte de estar rodeada por pessoas bem fortes. Tenho dois filhos e os meus filhos tornaram-se realmente grandes apoios. Tenho a minha mãe e os meus irmãos, que também se transformaram em grandes pilares e me ajudaram a manter-me erguida. Não significa que o processo foi fácil. Tive acesso também aos melhores médicos, tanto aqui como na Europa.

Estamos a um ano das eleições autárquicas e a dois anos das eleições gerais. Que expectativas tem para o país com estas eleições?
É minha expectativa que vamos conseguir escolher líderes capazes de dirigir este país, esta sociedade de uma maneira limpa, correta, firme, com uma grande postura de dignidade. Porque com pessoas assim, gente jovem, nós podemos realmente começar a “ressonhar” Moçambique. Agora eu gostaria, também, que houvesse uma certa clarificação sobre estes grandes escândalos económicos que nós tivemos. Por-quê? Porque isso está a ter um efeito muito grande nas pessoas. Esses números são números sobre os quais elas nunca imaginaram ouvir sequer, mas que estão a sentir na pele. O preço do tomate mudou, do pão, portanto afeta todos os moçambicanos. Então, eu gostaria de ouvir um esclarecimento que, realmente, satisfizesse primeiro os moçambicanos que querem saber o que aconteceu, mas que também pudesse satisfazer a comunidade internacional.

Maior transparência?
Muito maior transparência. Mas é preciso realmente resolver. O governo tem de fazer algo, tem de abrir o jogo. Agora estamos numa estagnação que é uma aflição. Há umas semanas tivemos o congresso da Frelimo e o presidente [Filipe] Nyusi foi reeleito. Então, tendo este grande suporte desta grande instituição, este grande partido, eu penso que agora ele tem espaço para fazer o que é necessário, porque depois disso a gente já tem conversas diferentes com os doadores, a comunidade internacional, as várias instituições financeiras que têm um grande impacto na vida política e económica do nosso país.

Há democracia em Moçambique?
Acho que sim. Bom, democracia, também podemos entrar em quê, naquelas grandes definições que são as três grandes instituições de governação, não é? Essas instituições estão ali, mas quais são as práticas diárias? São realmente democráticas ou não? Acho que temos aquilo que constitui a base do que é uma democracia. Agora se está a funcionar bem? Não tenho muita certeza. À medida que vamos crescendo como país e com a nossa identidade de moçambicanos, estas pequenas divergências entre partidos deixam de se tornar significativas, desde que todos possam contribuir para o desenvolvimento do país.

Cresceu numa família com grande força política e teve várias influências. Machel, Mandela. Em que medida essas influências contribuíram para formar a mulher que é hoje?
Definitivamente que tiveram grande impacto. Cresci e, a partir de uma certa idade, os meus pais nunca fizeram segredo do que eram as discussões que existiam no país. Cresci já num ambiente bem político. Infelizmente, o meu pai foi assassinado tinha eu 10 anos. Perdi muito. Gostaria de ter tido a oportunidade de conversar com ele, de beber muito mais dos conhecimentos de quem ele era, do grande homem que ele era. Mas a vida foi boa e trouxe-me, anos mais tarde, Nelson Mandela. E foi aí que aprendi o que é ser uma jovem com pai. Aprendi muito mais porque passei muito mais tempo com ele. Tivemos grandes diálogos. Ele deu-me grandes lições sobre o que é o ANC [Congresso Nacional Africano], como foi criado, em que bases. Tive o grande privilégio de, às vezes, viajar com ele para vários países e ver como era recebido. Mas sim, claro, tornou-me a mulher que sou. Samora sempre falou da emancipação da mulher. A minha mãe é uma das grandes mulheres que lutam pelos direitos das mulheres e é, por isso, que eu cresci sempre a saber que violência não.

Qual é a história que mais a marcou com Samora Machel?
Com o meu pai? O que me fica sempre é o facto de que, apesar de ser um homem muito ocupado e dedicado aos milhões de moçambicanos, nos tempos em que podia estar com os filhos fazia questão de que eles sentissem que ele estava ali por eles. Então, por exemplo, uma coisa que acontecia comigo é que, ao fim do dia, depois da ginástica dele, ele dizia: “Filha! Hoje foste fazer ballet, o que é que aprendeste?” Então eu ficava ali com os sete, oito anos a mostrar os movimentos. Essas coisas deram-me muito prazer. Gostava de brincar com a barba do meu pai. Então havia momentos que ficava ali, só a brincar com a barba dele. Ele foi realmente fantástico, tenho muitas, muitas saudade. Agora, olhando para os meus filhos, sabes, essas coisas da vida, ele teria tido muito gosto de ter estes netos que tem, todos eles. São miúdos realmente muito especiais. E que precisavam de beber um bocado dele e ele também, desta segunda geração que ele produziu.

Estamos na sua casa de família, recebe-nos com informalidade e generosidade. Quem é a Josina Machel?
Não gosto muito de formalismos. Acho-me uma mulher interessante, capaz de se sentar em várias mesas e conseguir fazer parte de muitas delas, através da educação, livros, assuntos sociais e políticos. Sou mãe, com orgulho, mãe galinha até. Mas sou esta mulher que, olha, celebra-se a si própria através da dança, de alguns momentos de silêncio e tenta comungar, sentir-se parte deste universo. Às vezes, quando estou bem arrasada, assim no chão, ya! Percebo – you know! – que isso faz parte da viagem e que hei de sorrir outra vez, dois, três dias mais tarde. Portanto, sou otimista. E agora sou uma mulher que sente a dor de vários milhões de mulheres e que, através da minha voz, tenta também dar voz a todas elas, ser a voz de muitas que não conseguem falar.

Por Vanessa Rodrigues, in http://www.dn.pt

Em Maputo

*com Tavares Cebola e A. Nhampossa
A jornalista viajou com a bolsa Aquele Outro Mundo Que É o Mundo (ACEP, Associação Coolpolitics, CEIS20, CEsA/ISEG, com o apoio da Fundação C. Gulbenkian).

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