Refugiados_mocambicanos_malawi

Antropólogos moçambicanos defendem que a rebelião de populares contra instituições do Estado registadas no país, nos últimos dias, revela uma “rotura de contrato social”, alertando para as consequências de uma “leitura simplista” do fenómeno.

“O ‘chupa sangue’ parece uma figura projetada pelas populações descontentes e simboliza um governo local que não consegue criar condições para que a vida das pessoas seja mais digna”, disse à Lusa o antropólogo moçambicano Segone Cossa.

Duas pessoas morreram nos tumultos da madrugada de quinta-feira em Gilé, província da Zambézia, de acordo com a imprensa estatal.

A população incendiou a residência do administrador, vandalizou várias infraestruturas públicas e enfrentou a polícia, alegando que as autoridades estariam a proteger alegados ‘chupa sangue’ – pessoas que utilizam instrumentos especiais para roubar o sangue a outras.

Para Segone Cossa, a condição de pobreza da maior parte das populações leva as pessoas a associarem os poucos casos de prosperidade à superstição e é por isso que os ataques são contra quem possui algum ‘status’.

Acusam-se de ser este ‘chupa-sangue’, alguém “estrangeiro ou aquele que na comunidade tem mais propriedades e diz-se que esta pessoa só tem tais bens porque rouba a sorte da comunidade, pela calada da noite, a partir da feitiçaria”, explicou.

Segone Cossa observou, por outro lado, que o fenómeno pode ser percebido também como o “reclamar de realidades não abarcadas pela legislação”, considerando que existe um conhecimento local que não é valorizado.

“A partir deste conhecimento faz-se um diagnóstico de determinados problemas sociais”, afirmou o pesquisador, que entende que existe um choque, por exemplo, quando as populações se dirigem à esquadra para prestar queixa sobre um fenómeno e a polícia o considera mera superstição.

“É o reclamar de um glossário” que “respeite estas conceções populares”, observou.

Por seu turno, Tirso Sitoe, antropólogo moçambicano, entende que é necessária “muita cautela” na interpretação, considerando que não se podem tirar conclusões simplistas sobre um fenómeno social.

“Espanta-me o facto de, até então, não termos ouvido nenhum posicionamento das autoridades tradicionais. Nenhum régulo falou. Nenhuma pessoa da localidade deu a sua versão. O que temos é apenas a versão da polícia”, afirmou.

Tirso Stoe também disse acreditar que o episódio revela a incapacidade do Estado de responder aos problemas da comunidade e o ataque a instituições do Governo é a “mais forte prova” desta afirmação.

“Dizer simplesmente que se trata de um boato não é suficiente. Esta afirmação não tem em si um modelo de explicação sobre um determinado problema social que tem de ser resolvido. É preciso entender e desmistificar a questão a nível local”, concluiu.

De acordo com a polícia, além da residência do administrador, que se refugiou num distrito vizinho, os populares vandalizaram Comando Distrital da Polícia da República de Moçambique (PRM), bem como casas de secretários de bairro.

A polícia anunciou na quinta-feira em conferência de imprensa que vai “reprimir com violência” perturbações à ordem pública.

Fonte: Lusa

Anúncios