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– André Amálio numa das cenas do espectáculo “Libertação”

Nos anos de 1950 e 60 os pais de André Amálio moraram em Moçambique. O pai esteve em Quelimane e foi polícia de segurança pública. Raramente falava desses tempos. A mãe às vezes falava-lhe da vida boa que tinham tido em África, de como tinham sido felizes lá. Mas o pai não gostava de falar. Foi já depois da sua morte, em 2010, que André encontrou lá em casa um álbum que nunca tinha visto, com fotografias de Moçambique. Ali estava o seu pai, fardado de polícia. E tantas perguntas que lhe gostaria de ter feito. “Será que ele participou em atos de repressão das forças coloniais? Foi cúmplice dessa violência? Mandou fazer algum desses atos?” É com algumas dessas perguntas sem resposta que começa Libertação, o espetáculo com que André Amálio termina a sua trilogia dedicada ao colonialismo e que vai estar de quinta-feira a domingo (de 12 a 15 de outubro) no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

O primeiro espetáculo, Portugal não é um país pequeno, estreou-se em 2015, já no âmbito do doutoramento em teatro documental que André Amálio está a fazer na Universidade de Roehampton, em Londres. “Propus-me estudar o fim do colonialismo e as experiências dos retornados. Mas depois de passar pelo primeiro processo de entrevistas e de fazer o primeiro espetáculo comecei a interessar-me por ouvir a voz do outro lado, não só dos que retornaram”, explica o ator, dramaturgo e encenador. Isso começou a acontecer no segundo espetáculo, Passa-porte, estreado em 2016, que já “se centrava no modo como as pessoas viveram as independências de acordo com várias experiências, se eram de origem portuguesa ou africana, se eram brancos, negros, mulatos, homens ou mulheres, e como é que fizeram as escolhas, se escolheram ficar lá a lutar por aquele ideário de um país novo ou se tinham vindo para Portugal e tentaram integrar-se aqui e como é que essa integração decorreu, e como é que a sociedade e o próprio Estado os tratou diferentemente”.

Finalmente, “o passo que senti que faltava dar era dar a voz aos povos colonizados, às pessoas que lutaram contra o colonialismo”. É isso que acontece neste terceiro espetáculo, Libertação, onde André Amálio põe em cena testemunhos de pessoas que participaram na guerra e nos processos de independência de várias maneiras – desde os soldados que efetivamente participaram em massacres até um médico holandês que foi para Moçambique fazer voluntariado. “Também me interessou ter este lado internacional, nós muitas vezes vemos só esta luta nos teatros de operações, mas ela estava sobretudo a jogar-se no plano internacional, com a ONU e com os apoios dos vários países aos movimentos de libertação”, explica.

Neste espetáculo, ouve-se também a voz da pós-memória, ou seja, daqueles que já nasceram depois da independência mas cujo passado está ligado a esses países e a esses movimentos. Em palco, os três intérpretes trazem as suas experiências: além de André Amálio, de 40 anos, estão lá a atriz Lucília Raimundo, que nasceu em Moçambique, a mãe pertencia ao grupo dos chamados “assimilados” e teve que fugir do país porque estava para ser enviada para um campo de reeducação da Frelimo; e ainda o DJ Sérgio Makossa, que nasceu em Portugal, numa família mestiça, depois de a mãe angolana ter fugido do seu país em guerra. “Que memória colonial é transmitida? Que histórias são estas que nos são contadas?”

Há um momento em que André Amálio confronta o público, perguntando porque é que hoje, em Portugal, temos tanta dificuldade em olhar para trás, para este momento da nossa história, e dizer claramente que se cometeram crimes: “É verdade, são os nossos próprios pais, os nossos próprios tios, os nossos familiares mas nós também temos que lhes dizer que numa guerra não vale tudo, que os crimes de guerra são crimes. Mas foi tudo posto numa gaveta, ninguém foi tratado, nada foi conversado, mas também ninguém foi julgado pelos crimes que cometeu em África. Isso é chocante.”

Mas o mais importante não é só olhar para o passado é olhar para o presente. “As pessoas que viveram este período ainda estão vivas e têm filhos e netos, é um passado que é recente e é uma ferida bastante grande”, diz o encenador. “Temos que perceber como é que o passado colonial condiciona o presente e como é que os problemas que não foram resolvidos no passado estão aqui hoje.” Esse é o seu objetivo. Há um lado assumido de ativismo político nestas criações. André Amálio quer questionar e contribuir para este debate – que se faz neste momento não só em Portugal mas é um movimento global – sobre a necessidade de descolonizar os discursos (os livros de história, os museus, os currículos escolares, etc.) e de, finalmente, depois de termos deixado os territórios, abandonarmos “o pensamento branco eurocêntrico”. É por isso que a sua tese de doutoramento, que está quase pronta, não é tanto sobre a colonização nem sobre a descolonização mas sobre esta necessidade de re-olhar, re-contar e re-escrever a história do colonialismo português.

Libertação

Teatro Maria Matos, Lisboa

12 a 14 de outubro às 21h30 e 15 de outubro às 18h30

Armazém 22, Vila Nova de Gaia

20 de outubro às 21h30 e 21 de outubro às 19h

Por Maria João Caetano, in Diário de Notícias (Portugal)

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