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– Tomás Vieira Mário/Foto Facebook

Um jurista e jornalista moçambicano considerou que, nos últimos dez anos, a liberdade de imprensa em Moçambique tem sido oscilante, agravada pela censura, autocensura, fracos recursos económicos, tentativas de controlar os “media” e “corrupção” existente na classe jornalística.

Tomás Vieira Mário falava numa entrevista à agência Lusa, em Lisboa, onde apresentou o livro “25 Anos de Liberdade de Imprensa em Moçambique (1991-2016): História, Percurso e Percalços”, num evento organizado pela Casa de Moçambique e que decorre no auditório da União das Cidades Capitais Luso-Afro-américo-asiáticas (UCCLA).

Para o jurista moçambicano, os constrangimentos enunciados afetam “um pouco” a credibilidade da imprensa em Moçambique, embora não tanto como a “degradação moral” nas instituições do Estado, mantendo, porém, que os órgãos de comunicação social no país “ainda são moralmente aceitáveis” pela população.

“Já teve muito mais (credibilidade) do que tem agora, mas ainda assim mantém-se com prestígio moral”, definiu, aludindo aos 25 anos em análise, tendo em conta que, atualmente, há mais de mil jornalistas e cerca de 150 órgãos de comunicação social – 20 publicações gráficas, algumas delas “online”, oito canais de televisão (um deles público) e 120 estações de rádio (cerca de 100 delas locais ou comunitárias).

Tomás Vieira Mário salientou que, ainda hoje, a imprensa moçambicana se ressente do “brutal e violento assassínio” de Carlos Cardoso, abatido a tiro em 2000 por, lembrou, investigar uma rede de crime organizado ligado ao desaparecimento de 14 milhões de dólares do Banco Comercial de Moçambique (BCM).

“O impacto foi de intimidação. Carlos Cardoso não era uma pessoa qualquer. Era um editor com uma longa carreira, com muita experiência. (?) E a ideia (entre os jornalistas) foi a seguinte: se até ele foi atingido, os outros mais fracos podem ser eliminados numa esquina qualquer. Houve esse sentimento de medo”, sustentou o autor.

O medo, acrescentou, só foi refreado quando as autoridades moçambicanas “mostraram um interesse genuíno” em apanhar os criminosos e julgá-los.

“Mas isso não foi fácil. Houve muita resistência, sobretudo porque estes grupos do crime organizado compravam espaço nos jornais para se defenderem, manipularam advogados e procuradores para o fazer. Levou muito tempo até eles serem julgados. Mas quando foram julgados, houve condenação vigorosa dos criminosos”, sublinhou.

“Sentiu-se uma espécie de alívio porque se pensou que o crime organizado não ficou impune. Houve uma espécie de recomeço da confiança e de encorajamento, mas houve um impacto negativo de intimidação à classe. Foi um efeito negativo muito forte, com uma intimidação muito grande. Não só por ter sido vítima uma pessoa como o Carlos Cardoso, mas também pela forma brutal e violenta como foi morto”, frisou.

Hoje em dia, acrescentou, ainda é muito difícil fazer jornalismo de investigação em Moçambique, “não tanto pelo medo de ser morto ou agredido, mas porque o crime organizado ainda mantém contactos”, “bloqueando e pagando” para evitar que as notícias sejam publicadas.

“Até porque na imprensa moçambicana há corrupção. Há colegas corruptos, claramente, que recebem para fazer trabalhos por encomenda. Ou para denegrir pessoas ou para encobrir outras. Também há crime e corrupção na imprensa moçambicana”, denunciou, indicando que as acusações recaem sobre jornalistas e comentadores.

Segundo o autor, atualmente, o ambiente na liberdade de impressa é “estável”, o que, por si só, “já é positivo”, depois de 10 anos de liberdade “muito titubeante”, após as tentativas “mais ou menos sistemáticas de controlo político”, e dos constrangimentos económicos, pois a publicidade não abunda, abrangendo sobretudo os órgãos estatais.

“E isso afeta a liberdade de imprensa porque pode haver viciação dos media, que são pouco independentes porque têm de jogar na sua sobrevivência. (…) A autocensura, que é um exercício de autocontrolo para não ferir, não irritar, para não perder anúncios. A economia é fraca e há poucos anunciantes que, na maioria, têm ligações ao poder político”, afirmou.

Fonte: Lusa

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