Angola_2017_eleicoes

Foto: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

A propósito de um artigo no “The New York Times”, que há dias sublinhava o facto de capitais angolanos serem hoje muito relevantes na economia portuguesa, vi por aí algumas indignações, de sentidos opostos: dos que entendiam ser tão legítimo como qualquer outro esse investimento, independentemente da origem do capital, e de quantos se escandalizavam com a condicionalidade e a dependência que esses influxos financeiros estariam a provocar na livre vontade de Portugal.

De há muito que o tema Angola faz parte da política interna portuguesa. De um lado, estão os hagiógrafos lusos do regime angolano, os defensores da exemplaridade absoluta do modelo político dominante nas últimas quatro décadas, os que, no final, jurarão que estas eleições em Angola, foram, como diria o outro, “tão livres como na livre Inglaterra”. Do outro, estão os tremendistas, os viúvos de Savimbi (esse conhecido “farol” da democracia), os acusadores dos desmandos da corrupção, do patrimonialismo, os que, ainda as urnas não tinham aberto, já denunciavam a falsidade do sufrágio que aí vinha.

Somos um país que, por virtude da sua constante fragilidade económica e consequente dependência externa, tem sempre uma parte importante de si e dos seus presa ao exterior. Isso faz com que Angola, com a naturalidade de comportamento de qualquer poder financeiro, tenha encontrado por cá ajudantes à representação dos respetivos interesses. No outro lado do espetro, se já não temos “pieds noirs”, temos no entanto por aí uma massa residual de enraivecidos da descolonização, com um tropismo antiangolano que lhes embota a racionalidade. E, claro, também temos alguns neocolonialistas de Esquerda, sempre prontos a dar lições.

Angola é um país com uma democracia mais do que imperfeita, se comparada com a Suíça ou a Noruega, mas é um “benchmark” político, se pensarmos na Guiné-Equatorial ou na República Centro-Africana. Por lá, os “maus” estão no poder e os “bons” na oposição? Essa visão maniqueísta pode sossegar consciências mas não ajuda a resolver os problemas, tanto mais que embate na realidade dos equilíbrios políticos de facto. Estar sempre a tentar colocar o Rossio no seio da Mutamba, a levantar o dedo para “ensinar” política, é um gesto revelador, à esquerda e à direita, de que Portugal ainda tem de fazer um longo caminho para se “descolonizar”.

Esperemos que, depois destas eleições, possamos vir a encontrar um novo, mais sereno e mais maduro terreno para um diálogo político entre Angola e Portugal, que respeite as instituições e salvaguarde os interesses legítimos, de parte a parte, tentando colocar as acrimónias do passado recente entre parêntesis. Já se perdeu demasiado tempo nas relações entre Portugal e Angola.

(*) Francisco Seixas da Costa, Embaixador, in http://www.jn.pt

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