Mia_couto_brasil_2017

Sua obra “Terra Sonâmbula” foi considerado um dos melhores livros africanos do século 20 (Foto: Torch Fotografia/Brain Congress/Divulgação)

A entrevista foi na antiga Casa de Jorge Amado, no Rio Vermelho. Mia Couto estava à vontade e não seria exagero dizer que ele se sentia quase em casa. Os olhos um tanto esbugalhados, como a trair uma surpresa muito íntima, voz suave, mas firme, Mia lembra, com uma ponta de magoa, seu passado comunista. “O comunismo se autodestruiu”, afirma. Além de escritores mundialmente conhecidos, o comunismos foi o elo forte a unir  os dois. “Eu me dediquei à causa e em Moçambique, depois da guerra de libertação chegamos a estabelecer um regime marxista-leninista, mas não era o que eu sonhava”, lembra. “Naquele tempo eu só pensava em sobreviver. Comer e sobreviver.”

Faz uma breve pausa e olha indefinidamente o vazio. Parece que ele olha o vazio, mas que não é o vazio que ele vê e, sim, os anos duros da guerra de libertação colonial contra Portugal. Cada frase é seca. Curta. Perfurante como uma baioneta. Sonora como tiros de metralhadora. O que estará lembrando Mia Couto? Que ele, como Jorge Amado, romperam com o Partido comunista? Se ele ainda se considera ou não um homem de esquerda? Ou dos livros de Jorge Amado que leu na juventude: Jubiabá, Capitães de Areia… Ele sente indisfarçável orgulho em ter lido Jorge Amado, como sente orgulhoso  em lembrar que lutou  na Frente de libertação de Moçambique, Não, a guerra terminou em 1992 e a história ele registrou – e vale lembrar com vigor e talento – em Terra sonâmbula -, um dos magníficos livros da sua vasta obra. Ele diz, logo no início: “naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeira. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da levantar asas pelo azul. “Não, Mia não perdeu a leveza. Ele, um “simples sonhador” , está a pensar no Brasil. “Se há solução para o país?”

Diz repetindo a pergunta de um jornalista. “Vocês não estão sozinhos na crise. O mundo inteiro está em crise. É claro que existe amanhã”. Ele volta se fechar em silêncio como no final de Terra sonâmbula. A entrevista estava terminando. Logo depois ele faria conferência no Teatro Castro Alves sobre “Os deuses dos outros”, como parte da programação Fronteiras Braskem do Pensamento.

Teatro lotado. Mia Couto pensa para além do momento: pensa nos refugiados, na fragmentação do mundo e nos problemas da democracia . Pensa, igualmente, nos jardins da Casa de Jorge Amado e na sonoridade dos pássaros que em nada lembram o ruído das metralhadoras nos anos de guerra em Moçambique . A guerra acabou e agora os problemas são outros. Há toda uma geração começando a descobrir os livros e sendo educada. A procura de trabalho. É como se o final de Terra sonâmbula ganhasse vida: “Então as letras, uma por uma , se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos os meus escritos se vão transformando em paginas da terra.” Pois, Mia Couto, não é mais comunista, mas permanece engajado: o papel do escritor vai além, muito além, de escrever e publicar livros.  É o que ele tem feito. Procurando vencer os preconceitos, romper com a intolerância. Bravo Mia Couto, um homem branco que não se sente segregado entre milhões de negros .

Por Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC -SP)

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