Durante mais de meio ano, a administração Obama tentou encontrar forma de punir os russos pela interferência na campanha para as presidenciais — e, a menos que Trump o pare, o plano está em curso.

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Obama em entrevista na Casa Branca./JOSHUA ROBERTS (REUTERS)

As desconfianças começaram ainda antes do verão de 2016. Os analistas informáticos norte-americanos especializados em seguir de perto o rasto dos seus “colegas” russos começaram a notar um padrão preocupante: notícias falsas sobre os Estados Unidos andavam a circular na internet com muito mais frequência do que em qualquer outro momento da história da monitorização digital.

As provas de que essas notícias tivessem origem na Rússia ou em centros de produção de conteúdos falsos em outros sítios, incluindo na Europa, acumulavam-se, mas Barack Obama, antigo presidente dos Estados Unidos, tinha até aqui afastado sempre a hipótese de abrir uma investigação pública — e muito menos havia considerado a ideia que se pudessem impor sanções pela fabricação de informação embaraçosa ou mesmo danosa sobre os Estados Unidos, sem confirmação da sua origem. A propaganda das duas potências uma contra a outra já tinha tido páginas bem mais negras no passado e, mesmo assim, não levou à tão temida aniquilação mútua.

Mesmo depois da publicação — pela página WikiLeaks — dos e-mails trocados entre os membros da equipa de Hillary Clinton, na altura candidata à presidência dos Estados Unidos contra Donald Trump, atual presidente, os oficiais do serviço de informações norte-americano continuavam a expressar incerteza quanto ao que fazer relativamente à escalada da intervenção de piratas informáticos na campanha para a presidência. Por esta altura, nem a CIA nem o FBI nem a Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), tinham tornado público aquilo que as desconfianças dos seus agentes durante o verão se viriam a confirmar: os russos tentaram mesmo, dizem as agências de informações norte-americanas, interferir com as eleições presidenciais, denegrindo a imagem de Hillary Clinton.

De acordo com o jornal norte-americano Washington Post, é nisto que acreditam as pessoas que estiveram mais perto de Barack Obama durante a altura em que o antigo presidente tentava arquitetar uma forma de mostrar ao regime russo que não seria mais business as usual, enquanto, ao mesmo tempo, tentava também não desencadear hostilidades bafientas, do tempo da Guerra Fria.

Na tentativa de averiguar a profundidade da ingerência russa, a CIA, a NSA e a FBI começaram então a receber instruções dessa equipa formada por Obama. Em agosto, o diretor da CIA, na altura, John Brennan, alerta pela primeira vez a Casa Branca das suspeitas sobre Putin — teria sido o próprio presidente russo a dar a ordem para infligir danos na campanha de Hillary Clinton.

Havia que investigar. Muitos dos membros desse restrito grupo formado para investigar estas suspeitas falaram com o jornal norte-americano, que na passada sexta-feira reconstruiu, num extenso trabalho, todos os passos que Obama deu, os mais silenciosos e os mais decididos, na direção de mostrar aos russos que a sua Administração não iria tolerar interferências.

Temendo uma ação direta dos russos nas eleições de novembro, Obama dá instruções para que se avalie a robustez do sistema de voto norte-americano. E optou pela precaução. Tinha ganho as eleições prometendo fazer descer a cortina sobre os principais teatros de guerra onde com os Estados Unidos ainda estavam presentes e não estava nos seus planos abrir uma nova frente. Não piorar a situação terá sido a única coisa na cabeça de Obama, escreve o Post. Tanto ele como os seus assessores mais próximos tinham medo que a situação pudesse tornar-se bem mais séria, por muito grave que já fosse a suspeita de mão russa na campanha eleitoral da maior economia do mundo.

Uma outra preocupação da equipa de Obama terá sido que uma intervenção deste tipo num clima político que já era volátil — Trump dizia na altura que o resultado da eleição estava em risco de vir a ser adulterada — pudesse ser vista não como uma investigação necessária mas como uma tentativa de descredibilizar Trump. Obama teve medo que essa investigação pudesse por mais lenha na fogueira e contribuir para descredibilizar todo o processo ou mesmo por em causa as hipóteses da candidata democrata, se se suspeitasse que estaria a ser ajudada por ele.

A CIA estava convencida, apesar de as outras agências terem sido um pouco mais lentas a aceitar, que Putin seria diretamente responsável pela formação de uma equipa de “hackers” com vista a ajudar Donald Trump a vencer as eleições. É uma acusação grave. O ex-diretor da CIA não perdeu tempo e começou a marcar reuniões com alguns dos nomes mais influentes no Congresso: Democratas e Republicanos. Essas reuniões não foram tão céleres nem tão produtivas como Brennan esperava e, quando aconteceram, os Republicanos resistiram à ideia, defendida pelo diretor da CIA, de que o caso devia ser tornado público. Segundo uma das pessoas presentes nessas reuniões, citada pelo Washington Post, os Republicanos não quiseram tornar o relatório público, justificando essa posição com o receio de que tal mostraria fragilidades no sistema de voto, deixando os russos ainda mais convencidos que poderiam ter alguma hipótese de pôr em causa a credibilidade do processo democrático.

Quando, em setembro, todas as 17 agências de informações finalmente concordaram que tinha sido Putin a dirigir a ingerência já confirmada, Obama pediu aos diretores das agências que escrevessem um comunicado onde se detalhasse as conclusões a que tinham chegado.

O comunicado chegou às redações dos jornais mas foi completamente abafado pela publicação das infames gravações onde Donald Trump é visto a tecer comentários ofensivos sobre as mulheres que conheceu e o que estas o deixavam fazer por ser uma figura pública, e pela revelação dos emails da campanha democrata, em especial de John Podesta, pela Wikileaks. A informação teve impacto mas não o desejado. Para alguns, a “teimosia” de Obama em não politizar a situação teve o efeito contrário: a política estava agora a dominar completamente a sua Administração, quando no fundo o que Obama devia ter feito era tratar esta como qualquer outra ameaça à segurança nacional.

“Quando os democratas precisavam de assumir responsabilidade, falhamos em convencer o país de os norte-americanos se deviam importar com o facto de que um país estrangeiro está a intrometer-se em assuntos nossos”, disse Adam Schiff, democrata da Califórnia, ao Washington Post, sobre essa altura.

As primeiras opções a serem discutidas até eram bastante ambiciosas. Estiveram em cima da mesa, entre outros, aprovar sanções que afetassem não uma fábrica ou uma empresa ou um empresário, mas todo um setor económico, ataques informáticos suficientemente potentes para provocar um apagão temporário no acesso à Internet na Rússia e até levar um navio de guerra norte-americano mar Báltico adentro, por bravata. Mas no fim de setembro todas estas discussões eram inúteis porque os mais altos membros da Administração Obama já tinham acordado, sem darem conhecimento aos agentes que estudavam a interferência russa ou aos académicos que engendravam sanções, que nada seria feito antes das eleições. Se atacassem Putin agora, ele podia pensar seriamente em autorizar os seus agentes a irem um pouco além da publicação de e-mails e da fabricação de notícias falsas.

O FBI tinha detetado tentativas de adulteração do sistema de contagem de votos em pelo menos 20 Estados norte-americanos. A suspeita recaía sobre os russos que, segundo uma das fontes do Post, “iriam tentar atingir a totalidade dos 50 Estados”. Alguns analistas consideram que essas tentativas foram tão desleixadas e tão óbvias que os russos só poderiam estar a fazer isto para desestabilizar o eleitorado. “A nossa preocupação em agosto, setembro e outubro foi apenas impedi-los de causarem danos. Pensámos e decidimos que teríamos bastante tempo depois das eleições, independentemente do resultado, para pensar em medidas punitivas”, disse uma outra fonte, que preferiu permanecer no anonimato como várias pessoas nesta história, algumas ainda trabalham na Casa Branca.

Clinton ia ganhar, pensava-se pelo mundo, pelos corredores de Washington, pelas sedes das empresas de sondagens. Urgência para quê? Em vez de punições, a Administração Obama optou pelos avisos. Dia 4 de agosto, depois de entregar a Obama o relatório onde a CIA justifica as suas suspeitas sobre Putin, John Brennan telefona a Alexander Bortnikov, diretor do FSB, o sucessor do KGB, e dá-lhe conta dessas mesmas suspeitas. Segundo o relato de Brennan ao Washington Post, Bortnikov negou tudo mas garantiu que iria passar a mensagem ao presidente russo, Vladimir Putin. Um mês depois foi o próprio Obama a confrontar Putin numa cimeira de líderes mundiais, em Hangzhou, na China. Munido apenas de interpretes, disse a Putin que “sabia o que [ele] andava a fazer” e que era melhor parar ou “enfrentar as consequências”. Putin pediu provas e, por sua vez, acusou os Estados Unidos de tentarem interferir em assuntos internos russos.

Obama começava a mostrar-se mais áspero do que o normal. “Estamos a caminhar para um mundo onde cada país tem cada vez mais capacidades e os Estados Unidos têm que mostrar que têm mais capacidade do que todos eles, tanto na defesa como no ataque”, disse numa conferência de imprensa depois da cimeira.

No fim de outubro Obama decidiu enviar um último aviso e escolhe enviá-lo, talvez simbolicamente talvez consciente da delicadeza da informação, por um canal estabelecido diretamente entre Moscovo e Washington para evitar uma guerra nuclear entre os dois. A mensagem dizia que os Estados Unidos tinham conseguido isolar provas de alguma atividade maliciosa, vinda de servidores russos, com intenção de perturbar o normal funcionamento dos sistemas de voto no país. Qualquer interferência no dia das eleições seria considerada inaceitável. A Rússia confirma a receção do aviso mas só responde depois das eleições, negando qualquer acusação.

Tendo optado por não revelar, antes de conhecido o resultado das eleições, qualquer ação de retaliação, a Casa Branca sabia que assim que os resultados estivessem confirmados essas medidas teriam que ser anunciadas — o mais rapidamente possível. Depois de ter falhado na sua intenção de apresentar medidas antes das eleições, um dos mais importantes estrategas desta “punição”, John F. Kerry, regressou à carga para tentar consolidar apoios ao conjunto de sanções. Foi criada uma comissão à imagem do painel que investigou os atentados do 11 de setembro. Já conscientes de que o próximo presidente dos Estados Unidos seria Donald Trump, a ideia da comissão, escreve o Post, era colocar um plano em marcha antes da tomada de posse. Claro que o novo presidente poderia revogá-lo, mas seria mais difícil logisticamente e, politicamente, abandonar este plano seria uma escolha controversa.

Quando o então chefe de gabinete da Casa Branca, Denis McDonough, disse que estava preparado para “largar em cima da mesa” a proposta de sanções na reunião do Conselho de Segurança Nacional, no qual Obama ia participar, o esforço dos investigadores parecia finalmente destinados a surtir efeito. “Parecia um bom sinal”, disse um membro do Departamento de Estado. Mas assim que McDonough enviou à comissão a proposta, começou ele mesmo a criticá-la, avisando que possivelmente não passaria no Congresso porque seria visto como sectária. Susan Rice, na altura Conselheira de Segurança Interna, mais uma vez, pediu que se definisse uma lista com sanções à Rússia. A lista era uma espécie de concentrado das medidas que tinham estado a ser discutidas: abrangiam os meios digitais, setores económicos e previa uma ferroada diplomática.

No início de dezembro, Obama pediu às três principais agências de segurança e informações uma análise exaustiva sobre a possibilidade de intervenções russas nas eleições norte-americanas desde 2008. Numa das últimas vezes que falou à imprensa, Obama mostrou-se irritado com o facto de que uma eleição tão determinante ter sido dominada por “fugas de informação” e com os meios de comunicação social por darem tanta atenção a “material titubeante”, sem consistência informativa.

Logo depois, as setas viram-se contra Moscovo. “A Rússia não nos pode enfraquecer nem modificar significativamente. São um país mais pequeno, um país mais fraco. A sua economia não produz nada que alguém queira comprar, exceto petróleo e armas”, disse o antigo presidente dos Estados Unidos.

Posteriormente, Obama, conta o Post, passou por um período bastante introspetivo o que, aliado à urgência de fazer avançar as sanções antes da tomada de posse de Donald Trump, fez com que Susan Rice, ordenasse ao organismo que dirigia que criasse mais uma lista de opções. “Já não estamos na fase da discussão, estamos na fase de ação”, disse Rice. Depois de meses de debate, sobravam algumas propostas que Rice decidiu analisar. Preparou pacotes de medidas “fortes”, “médias” e “fracas” e a ideia era que a equipa votasse no seu plano preferido.

O FBI há muito que queria fechar duas infraestruturas russas, que funcionavam como escritórios de apoio à embaixada e aos negócios russos no país, por considerarem que, a partir dali, se conduziam várias ações de espionagem e por que isso colocava demasiada pressão nos recursos da agência, obrigando a esforços constantes de vigilância. Esse encerramento pressuponha também a deportação de alguns cidadãos russos com vistos diplomáticos, que o FBI também já tinha identificado. O embaixador norte-americano em Moscovo avisou Obama que esta expulsão levaria inevitavelmente à expulsão de americanos e que a partida de 20 ou 30 pessoas colocaria em sério risco o funcionamento da embaixada.

Dia 29 de dezembro, Obama aceitou, mesmo assim, os planos da sua equipa, e ordenou a expulsão de 35 suspeitos espiões, alguns alegadamente ligados aos planos russos para interferirem com as eleições.

E foi mais ou menos por esta altura que a equipa de Trump entrou na história. Adensavam-se as suspeitas de que alguns dos aliados mais próximos do Presidente eleito, que dali a menos de um mês seria oficialmente empossado, teriam ligações a vários oficiais russos. Michael Flynn, que chegou a ser Conselheiro para a Segurança Nacional de Donald Trump, terá falado com o embaixador russo nos Estados Unidos para lhe garantir que as sanções aprovadas seriam revistas depois de Trump tomar posse. Flynn foi entretanto afastado da equipa de Trump e é um dos nomes atualmente a serem investigados por supostas ligações às altas rodas do regime de Putin.

O relatório que Obama tinha encomendado acaba por concluir, e tornar público, que “Putin e o governo russo tentaram ajudar o Presidente-eleito Trump a aumentar as possibilidades de este vencer as eleições através do descrédito da sua oponente, a Secretária de Estado Clinton” a acrescentava um aviso: “confiamos que a Rússia irá aplicar as lições retiradas desta ordem de Putin para influenciar outras eleições por todo o mundo”.

As medidas punitivas fizeram capas de jornais durante alguns duas, até os holofotes dos media se voltarem de novo para os escândalos envolvendo a equipa de Trump, mas o pacote aprovado por Obama, e o processo através do qual as medidas foram gizadas e implantadas, é mais complexo do que o que parecia de início.

Excluindo a intervenção militar, as sanções económicas eram vistas como as mais fortes que os Estados Unidos podiam lançar. A economia russa é bem mais débil do que dos Estados Unidos e muitos dos homens mais poderosos da Rússia dependem, direta ou indiretamente, de acesso ao mercado ou à banca ocidental. As sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia à Rússia em 2014, como castigo pelas ações militares dos russos na Ucrânia, contribuíram para uma contração da economia russa na ordem dos 4%. Portanto a aprovação de medidas que tinham como alvos principais os serviços de informação russos “nunca teve nada a ver com impacto económico”, foi, sim, “simbólico”, disse um dos membros da equipa de Obama ao Washington Post.

O resultado, escreve o jornal, deixou os norte-americanos com a ideia que a interferência russa na Ucrânia foi para Obama mais merecedora de castigo do a interferência russa nas eleições presidenciais.

Mas Obama tinha outros planos, que apenas seriam concretizados no futuro. “Vamos continuar a desenvolver várias ações contra estas interferências, ao nosso próprio ritmo e em locais que iremos identificar. Algumas dessas ações não serão tornadas públicas”, disse Obama num comunicado. Em parte, o antigo presidente estava a referir-se a uma operação informática desenhada para ser detetada por Moscovo, mas não necessariamente para causar danos. A ideia passava por instalar código norte-americano em alguns sistemas informáticos russos, de forma a que essa inferência fosse identificada pelos russos e para servir como lembrete: os Estados Unidos têm o mesmo alcance digital que vocês.

Obama não respondeu às perguntas do Washington Post sobre estas ações de retaguarda mas um porta-voz do antigo presidente disse que “a situação foi avaliada como sendo extremamente séria” o que se nota pelas tentativas de Obama em “falar do assunto diretamente com o Presidente Putin” e pelo número de agências de segurança unidas na condenação destes atos: as 17.

A operação está num fase ainda embrionária mas está viva, e está ativa. A única coisa que o Post conseguiu averiguar sobre a “semente” que Obama deixou contra os russos é que essa operação envolve a criação de “implantes informáticos” que seriam inseridos em alguns dos mais importantes sistemas russos ao ponto de causar “dor e bastante desconforto” no país, caso os Estados Unidos os decidissem acionar.

Os “implantes” foram desenvolvidos pela NSA e podem ser acionados remotamente. Segundo as regras que gerem as operações secretas, a assinatura de Obama é tudo o que é necessário para colocar o plano em movimento. Para a parar, Donald Trump teria que fazer chegar uma ordem direta às mesmas agências que colocaram o plano em marcha. As fontes contactadas pelo Washington Post garantem que o presidente ainda não o fez.(X)

Por Ana França, in observador.pt

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