Casemiro_real_madrid_2017

Casemiro comemora seu golo/Foto JAVIER SORIANO AFP

Quando finalmente se pôs a falar sobre o que mais o atormentava intimamente desde pequeno, Casemiro disse à mãe, Magda, que quando ela o levava para jogar ele se perguntava por que o pai não estava ali. O facto é que o pai o abandonara quando ele tinha três anos, e Casemiro cresceu com a mãe e dois irmãos pequenos no bairro mais pobre de São José dos Campos. Não cabiam todos em casa: de noite, o menino ia para a casa da tia ou da avó. Por isso, a primeira coisa de que ele se lembra como jogador profissional é de uma moradia: a do centro de treinamento do São Paulo, o seu primeiro quarto.

Com cinco anos de idade, ele já estava na frente da casa quando a mãe saía para trabalhar. Com 14, quando se separou da família pela primeira vez, contraiu hepatite, em São Paulo, passou três meses internado, com filho e mãe a chorar e a rezar, separados por cem quilómetros. E aos 18, quando estreou no estádio do Morumbi, fez uma coisa que lhe foi muito útil, mais tarde, em Madrid: perdeu o rumo. Deslumbrou-se com o dinheiro e a fama, comprou carros e saiu muito na noite. Num prodígio atlético como era, o seu jogo despencou. Um técnico, na época, resumiu a situação com a seguinte expressão: “Ele perdeu o foco”. E aprendeu a lição.

No vestiário do Real Madrid, Casemiro é chamado de Case, mas, quando é preciso falar com ele a sério, os companheiros chamam-no de Casemito. O seu nome verdadeiro é Carlos Henrique Casimiro. Começou a jogar como Casimiro, mas um dia, no Brasil, estamparam o seu nome na camisa equivocadamente, e ele entrou em campo como “Casemiro”. E fez uma grande partida: a sua actuação foi tão excepcional que ele não ousou mexer em nada e pediu para continuar a jogar com o novo nome. Assim, aquele que tem a responsabilidade de apontar e corrigir os erros tácticos dos seus companheiros em campo traz na sua própria camisa um erro tipográfico, com um nome novo que assumiu como seu.

“Sempre teve um problema, que era ser Mauro Silva, mas só ele sabia disso”, diz José Ángel Sánchez, director geral do clube. A confiança que tinha em si mesmo aos 21 anos, já com um importante acúmulo de experiência de vida, provocou muitas risadas no Madrid. “Dê-me cinco jogos e mostrarei que posso ser titular”, disse em 2013, para surpresa da comissão técnica. Esses jogos não vieram, e ele acabou cedido ao Porto, mas deixou a sua marca no Real: salvou o clube de um desastre em Dortmund. “Aquele jogo mudou a minha vida”, admitiu, em declaração ao jornal Marca.

Antes de cada jogo, o número 14 do Real Madrid recebe na sua casa um dos seus melhores amigos e conselheiro, Óscar Ribot. Na quinta-feira passada, Ribot esteve com ele e constatou que o atleta estampava a enorme confiança de sempre. “Vai ser um jogo muito difícil, muito duro”, disse. “Mas nós vamos ganhar”. Na ocasião, ele disse também algo não muito original, mas que revela, sim, uma forte autoestima, sendo o volante puro que ele é: “acho que vou marcar um golo”. Bale disse a mesma coisa no hotel em Cardiff, assim como Cristiano Ronaldo; na verdade, quase todos têm certeza de que a final das Champions será sua. À véspera do jogo, Pedja Mijatovic lembrava isso: ele próprio prenunciara o seu golo em Amsterdão. Mas, Casemiro?

Sánchez recorda que se ouviu das tribunas, com a bola livre depois do rebote do remate de Kroos, um grito muito comum entre os madridistas: “Aonde você vai, Casemiro?”. Uma bola em terra de ninguém, em disputa. E foi assim que Casemiro marcou um dos golos do ano na Champions contra o Nápoles, e foi assim que fez o segundo golo da equipa nesta final. Na sua casa, 48 horas antes, ele pensava em como o comemoraria: seria um gesto de fé madridista, beijando o escudo, apontando para a própria camisa. Mas uma coisa é estar em casa, outra é o campo: abriu os braços, fez o sinal da cruz e acabou ajoelhado.

Na véspera, uma coisa o deixara preocupado: quando questionado sobre Bale e sobre Isco, Allegri acabou falando sobre Casemiro. O mesmo tinha sido feito pelo Cholo nas semifinais. Isso o fez se sentir importante, mas também significou uma pressão a mais em cima dele. Trata-se de um desarmador de jogadas, mas também de um jogador táctico. A sua principal preocupação era o lado esquerdo: ali havia Daniel Alves e Dybala. Duas armas perigosas, sendo um canhoto e um destro, contra o lateral mais ofensivo do mundo, Marcelo. Assim, Casemiro e Sergio Ramos tinham a missão de vigiar a todo custo o seu lado esquerdo, onde actuaria a dupla lateral de mais qualidade da Juventus.

E foi justamente por ali que ocorreu um momento especialmente perigoso para o Real Madrid: Dybala atraiu Casemiro para a lateral, e de repente o argentino se viu cercado pelo 14, por Marcelo e por Ramos, que chegou para ajudar. O gênio da Juve livrou-se dos três e ficou sozinho para avançar na área. Mas alguém apareceu para salvar o Madrid: Dani Alves. Ele desentendeu-se com Dybala e Marcelo aproveitou para lhes roubar a bola, que chegou a Casemiro e depois a Modric. O croata passou-a à frente para Kroos, que fugiu da marcação e armou sozinho o contra-ataque. A bola passou então por Benzema, Cristiano Ronaldo e Carvajal, antes de CR marcar o primeiro golo do jogo.

Por acaso Casemiro sabia que circulavam entre os torcedores várias piadas sobre um possível cartão amarelo logo nos primeiros minutos? A sua posição delicada no campo era uma das preocupações do madridismo. Casemiro entra forte, às vezes com violência: é sempre firme, um jogador de contacto. Os seus próximos preferem falar em “intensidade”. Quando há algum risco, ele costuma entrar forte e logo se distanciar. Faz a falta e cai fora. Não fica a rondar a cena do crime, tão pouco reclama com o juiz, a não ser quando considera injusta a marcação. Poderia ter recebido um cartão rapidamente em Cardiff, mas quando o juiz chegou perto do jogador da Juve, Casemiro já estava longe, do outro lado do campo. O lance não tinha sido tão grave a ponto de se dever ir atrás dele. No Real Madrid, afirmam que o jogo foi ganho por dois motivos: o golo da Juve lembrou ao grupo que nenhuma final da Champions é fácil, e depois do intervalo a equipa voltou à carga. Pelo preparo físico dos jogadores, o mesmo que liquidou com o Atlético de Madrid em Lisboa e segurou a equipa depois do empate de Milão. E porque Kroos e Modric começam a apertar claramente pela esquerda. Foi por ali que conseguiram avançar pelas costas de Daniel Alves nos primeiros minutos do segundo tempo: primeiro com Cristiano Ronaldo e depois com Isco. Finalmente, quem se soltou nessa parte do campo foi Benzema. O francês passou para Kroos e o remate do alemão foi rebatido pela defesa da Juve, ficando a bola numa área livre. Foi ali que Casemiro apareceu, cheio de energia.

Não comemorou o golo de Asensio. Lançou-se ao relvado de bruços. Pôs um joelho no chão e rezou olhando para o céu. Um ano antes, em Milão, enquanto todos os seus companheiros acompanham os penaltis, ele estava ajoelhado de costas para a baliza. Diante de qualquer problema, a sua mãe – presente na final com toda a família, as mesmas pessoas que acolhiam o pequeno Casemiro porque não havia espaço na casa dele – lhe pedia que rezasse, pois tinha certeza de que Deus encontraria uma forma de solucioná-lo. Em Cardiff, enquanto muitos se perguntavam “aonde você vai?”, Deus não resolveu nada: foi Casemiro, sim, que o fez.

Por Manuel Jabois, in El Pais/Brasil

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