Séculos antes das redes sociais, os boatos e as mentiras alimentavam pasquins e gazetas na Europa.

Imprensa_noticias_falsas

A imprensa amarela, de M. Slackens, em que se mostra W. Randolph Hearst como um bobo da corte que divulga notícias. Publicado por Keppler & Schwarzmann em 1910/BIBLIOTECA DO CONGRESO DOS EUA

Na longa história da desinformação, o surto actual de notícias falsas já ocupa um lugar especial, com uma assessora presidencial norte-americana, Kellyanne Conway, que chegou a sacar da manga um massacre em Kentucky para defender que se proibisse a entrada no país de viajantes de sete países muçulmanos. Mas a invenção de verdades alternativas não é tão infrequente, e equivalentes às mensagens de texto e aos tuítes cheios de veneno de hoje podem ser encontrados em quase todos os períodos da história, inclusive na Antiguidade.

Procópio, o historiador bizantino do século VI, escreveu um livro cheio de histórias de veracidade duvidosa, História Secreta (Anedota no título original), que manteve em segredo até a sua morte, para arruinar a reputação do imperador Justiniano, depois de ter mostrado adoração a ele nas suas obras oficiais. Pietro Aretino tentou manipular a eleição do pontífice em 1522 escrevendo sonetos perversos sobre todos os candidatos menos o preferido pelos seus patronos, os Médicis, e prendendo-os, para que todo mundo os admirasse, no busto de uma figura conhecida como Il Pasquino, perto da Piazza Navona, em Roma. Os pasquins transformaram-se num método habitual para difundir notícias desagradáveis, na sua maioria falsas, sobre personagens públicos.

Ainda que os pasquins nunca tenham desaparecido por complexo, no século XVII foram substituídos em grande parte por um gênero mais popular, o canard, a gazeta cheia de boatos e falsas notícias que circulou pelas ruas de Paris durante os 200 anos seguintes. Os canards eram jornais impressos em tamanho grande, às vezes ilustrados com gravuras chamativas para atrair os mais crédulos. Um dos mais bem-sucedidos, na década de 1780, anunciou a captura no Chile de um monstro que, aparentemente, estava a ser transferido de barco para a Espanha. Tinha cabeça de fúria, asas de morcego, corpo gigantesco coberto de escamas e rabo de dragão.

Durante a Revolução Francesa, os gravadores colocaram o rosto de Maria Antonieta nas placas de cobre e o canard ganhou nova vida, como propaganda política deliberadamente falsa. Apesar de não ser possível medir a sua repercussão, desde cedo contribuiu para o ódio patológico que se sentia com relação à rainha, que desembocou na sua execução em 16 de outubro de 1793.

O Le Canard Enchaîné, um semanário parisiense especializado em revelações políticas exclusivas, hoje evoca essa tradição no seu próprio título, que poderia ser traduzido figuradamente como “os boatos controlados”. Recentemente publicou uma notícia sobre a mulher de François Fillon, o candidato de centro-direita que era o favorito na campanha presidencial da França. Segundo o jornal, Penelope Fillon tinha recebido um salário alto durante muitos anos por ser “ajudante parlamentar” do seu marido. Apesar de Fillon não ter dito que a notícia era falsa – reconheceu que contratou a sua esposa e afirma que isso não é ilegal –, o chamado Penelopegate conseguiu tirar Donald Trump das primeiras páginas e seguramente destruiu as possibilidade de Fillon na eleição, em benefício da Frente Nacional, o mais parecido que existe na França com o presidente norte-americano.

Imprensa_noticias_manipulacao

Montagem publicada em fevereiro pelo líder antimuçulmanos Geert Wilders que coloca um rival político, Alexander Pechtold, numa manifestação na qual se pede a imposição da lei islâmica na Holanda. À direita a foto real, sem manipulação.

A produção de notícias falsas, semifalsas e verdadeiras mas comprometedoras teve o seu apogeu na Londres do século XVIII, quando os jornais aumentaram a sua circulação. Em 1788, a cidade tinha 10 jornais diários, 8 que saíam três vezes por semana e 9 semanários, e as notícias que publicavam costumavam consistir em apenas um parágrafo. Os “homens do parágrafo” inteiravam-se das fofocas nos cafés, escreviam algumas frases num papel e levavam-no aos impressores, que eram também editores e que normalmente o incluíam no primeiro buraco que tivessem disponível em alguma coluna da pedra litográfica. Alguns gazeteiros recebiam dinheiro pelos parágrafos; outros se conformavam em manipular a opinião pública a favor ou contra uma personalidade, uma obra de teatro ou um livro.

Em 1772, o reverendo Henry Bate (capelão de Lord Lyttleton) fundou o The Morning Post, um jornal que era uma sucessão de parágrafos sobre notícias distintas, quase todas falsas. Em 13 de dezembro de 1784, por exemplo, esse jornal publicou um parágrafo sobre um prostituto que prestava os seus serviços a Maria Antonieta: “A rainha francesa tem afeição pelos ingleses. De facto, a maioria dos seus favoritos procede desse país; mas quem mais prefere é o senhor W. É sabido que esse cavalheiro tinha a sua carteira vazia quando chegou a Paris e, no entanto, agora leva uma vida cheia de elegância, bom gosto e moda. Mantem as suas carruagens, os seus uniformes e a sua mesa sem economizar gastos e com todo o esplendor”.

Por Robert Darnton, in El Pais/Brasil

Anúncios