Vladimir_putin_marine_le_pen

O presidente russo, Vladimir Putin, com a candidata francesa Marine Le Pen/Foto MIKHAIL KLIMENTYEV AP

Aproximam-se as eleições francesas e alemãs e, em ambos os países, políticos e jornalistas se perguntam como enfrentar eventuais campanhas de uso contínuo de dados falsos, que tanto sucesso tiveram no Reino Unido e nos Estados Unidos. As Armas de Distracção em Massa (título de uma canção do grupo francês de rap IAM e de um filme norte-americano bem péssimo) são um fenômeno novo porque não fazem parte dos clássicos mecanismos de propaganda política idealizados na Alemanha de entre guerras ou na União Soviética dos anos trinta. Essas ADMs destinam-se a mercados ocidentais, com democracias liberais, e foram testadas e aperfeiçoadas por especialistas vinculados à extrema direita ou à chamada direita alternativa, originária dos Estados Unidos.

A sua raiz não está tanto na propaganda política como na manipulação publicitária, e certamente é mais fácil encontrar paralelismos com a campanha montada pelas grandes multinacionais do fumo nos anos sessenta para impedir que o seu produto fosse relacionado com o cancro do que com os discursos de Goebbels e Staline. O economista e apresentador da BBC Tim Harford explica isso muito bem num artigo intitulado The Problem with Facts.

As ADMs procuram que os debates políticos não se deem no terreno da acção, das medidas necessárias para solucionar determinados problemas, mas que se esgotem dando voltas sobre a falsidade de determinados dados. Faz sentido erguer um muro na fronteira entre o México e os Estados Unidos? Por ora, será preciso desmentir os dados falsos sobre o custo desse muro, difundidos maciça e organizadamente pelos interessados. A “bomba de distracção” funciona às maravilhas e as dúvidas sobre o preço instalam-se em todos os fóruns de debate, no lugar do sentido e eficácia do tema.

No fundo, trata-se da total negação do debate político porque este tem de se concentrar não em torno de alguns dados, mas em torno de propostas para mudar esses dados e a realidade. As ADMs procuram duas coisas: negar a credibilidade das fontes, por mais conceituadas que sejam, e negar os próprios factos. O efeito combinado dessas duas estratégias é brutal: a produção intencional de ignorância que, é bom ficar claro, precisa da colaboração não só de políticos e publicitários, mas também de grandes meios de comunicação e jornalistas bem conhecidos, comprados ou voluntários.

A agnotologia, o estudo dessa fabricação premeditada de desconhecimento, teve também um grande momento após a eclosão da crise económica. Joaquín Estefanía recuperou o poder da palavra para contar como os responsáveis pela Grande Recessão conseguiram introduzir muitíssimo ruído sobre as causas do que ocorreu, quando estavam perfeitamente conscientes do seu próprio papel. O mesmo procedimento se aplica agora às causas do mal-estar político, maciças doses de distracção destinadas a desviar a atenção de onde deveria estar: o que se fez e como pode ser corrigido.

Fazer frente a estratégias tão elaboradas não é fácil. É preciso divulgar os dados certos e insistir na autoridade das fontes, claro. Mas existe o perigo de empregar todo o tempo em checar e desmentir os dados falsos, o que proporcionaria um grande êxito aos manipuladores, donos da agenda, do enquadramento dos factos e do debate, e capazes de ganhar todos os pontos por puro esgotamento do oponente. Assim, os jornalistas alemães e franceses tentam agora adoptar uma estratégia diferente: voltar a contar histórias nas quais não se fale da mentira, mas em que se mostre a verdade e sua importância. Grandes histórias sobre a vida real das pessoas. Jornalismo 0.0.

Por Soledad Gallego Diaz, in El Pais/Brasil

Anúncios