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(Divulgação/Reprodução)

Voar de helicóptero do Aeroporto de Vilanculos até a Ilha de Benguerra rende dez minutos de glória, pairando sobre uma paleta de azuis do Oceano Índico. Vistos de cima, os bancos de areia ao redor do Arquipélago de Bazaruto formam uma das paisagens mais escandalosas de Moçambique. Em terra firme, há praias e resorts exclusivos que não fazem feio às Maldivas. Também dá para vivenciar esse país do sudeste da África sem filtros, explorando um território que se abriu ao turismo na virada do milênio. Rodando os 2 500 quilômetros de costa – seja de chapa (lotação), machimbombo (ônibus) ou 4X4 –, os mulungos (estrangeiros) aventureiros encontram vilarejos praianos que lembram o sul da Bahia dos anos 60, alguns dos melhores pontos de mergulho do globo e um povo hospitaleiro e sofrido em idênticas proporções, que fala uma versão africanizada do português lusitano, cheia de malemolência.

Pelourinho deitado

Com 967 mil habitantes, a província de Maputo tem ar interiorano, com ruas encardidas que abrem espaço entre jardins de jacarandás, casarões de fachadas gastas e edifícios comerciais que marcam os novos tempos. Nas noites mornas da capital, litros de cerveja 2M abastecem bares como o Mundo’s e o Piri Piri, para contrabalançar a comida condimentada, que mescla influências da Índia, do Oriente Médio e de Portugal – herança de quando o país, sob domínio lusitano, foi um importante entreposto comercial. E, nesse território aonde o McDonald’s ainda não chegou, um bom prato de camarão ou vôngole sai ao preço de um menu do Big Mac, em lugares como a Marisqueira Sagres ou no Mercado do Peixe.

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(Divulgação/Reprodução)

Enquanto bons restaurantes e hotéis se concentram em torno da Avenida Julius Nyerere, a parte turistável da capital está na Cidade Baixa, onde construções do período colonial se sustentam com certa dignidade, formando uma espécie de Pelourinho horizontal. Comece pela Praça da Independência, dominada por uma estátua do ex-presidente Samora Machel, o herói da independência, diante da catedral. Ali perto está o canto mais agradável da cidade: o recém-restaurado Jardim Tunduro, desenhado em 1885 pelo paisagista britânico Thomas Honney, vizinho ao Centro Cultural Franco-Moçambicano, que recebe exposições interessantes e tem ótimo café. Ainda na Baixa, vale conhecer o Mercado Municipal, a Estação de Trem e a Mesquita Antiga, que ostenta bonitos adornos em relevo na fachada.

Cerca de 20% da população é muçulmana, que convive em paz com indianos e a maioria católica. O português, idioma oficial ensinado na escola e utilizado nos meios de comunicação, é o frágil elo desse povo multicultural, que também fala mais de 40 línguas africanas. Porém, 44% da população não sabe ler e escrever. Nos últimos 20 anos, o país cresceu em ritmo acelerado graças à mineração, à extração de gás e à descoberta de matérias-primas como carvão, ouro e diamante. No entanto, o Índice de Desenvolvimento Humano de 2015 coloca Moçambique – onde a expectativa de vida é de 50,3 anos – em 180º no ranking entre 188 países e territórios avaliados. O país se livrou do domínio de Portugal em 1975, após dez anos de luta armada – o que justifica uma AK-47 na bandeira. Como se não bastasse, a disputa de poder subsequente resultou em uma guerra civil que durou até 1994, deixando o país destroçado.

Segredo ao sul

A chegada dos turistas na virada do milênio explica o fato de paraísos tropicais como Ponta Mamoli, a poucos quilômetros da fronteira com a África do Sul, e a Praia de Ponta do Ouro ainda estarem praticamente intocados. De Maputo, a maioria dos hóspedes chega de helicóptero, sobrevoando 150 quilômetros de praias desertas até aterrissar no White Pearl Resort (desde 680 dólares por pessoa em sistema all inclusive), onde 21 suítes-caixote, com paredes de vidro e piscina privê, se distribuem por uma colina verde de frente para o Índico. Conectadas por plataformas de madeira mergulhadas na vegetação, as instalações do hotel incluem duas piscinas à beira-mar e vários lounges branquíssimos, enfeitados com luminárias que lembram anêmonas e medusas. Não há uma bituca de cigarro na praia onde, no fim da tarde, milhares de caranguejos cor de rosa acompanham o vai e vem das ondas.

O mergulho vale a viagem. Depois de vencer a fúria da arrebentação em um bote de borracha, mal caímos na água e já teve início um desfile de incontáveis tipos de arraias e uma família inteira do raro tubarão-guitarra, além de outros tubarões de arrecife e tartarugas. Vira e mexe, também dá para ver arraias-jamantas e tubarões-baleias por lá. E, no inverno, a região também é frequentada por baleias.

Caraíva Moçambicana

A coleção de animais marinhos é o que faz da Praia do Tofo, a 500 quilômetros ao norte de Maputo, a meca do mergulho moçambicano. Ao lado de uma galinha viva, encarei 14 horas de viagem a bordo de um machimbombo corroído pelo tempo. Pela janela, via mulheres em coloridas capulanas transportando baldes na cabeça; vilarejos de casas de barro e palha; estudantes descalços pelo acostamento. Enquanto minha nádega esquerda equilibrava-se sobre uma nesga de banco, a outra precisou se contentar com uma caixa. A cada parada, rolos de palha, sacos de farinha e outras tralhas entupiam o corredor, obrigando os passageiros a usar as janelas como entrada e saída.

Cada perrengue fez sentido quando cheguei ao lugarejo com ruas de areia, onde há um pequeno mercado de peixes e um punhado de pousadas de frente para o mar – condição essencial para escapar do calor, já que falta luz praticamente todo dia. Pagando 20 dólares por um bangalô pé na areia do Nordin’s Lodge, fui quase que adotada por dona Zora, mãe do proprietário. Ela nos mimou com doces moçambicanos, o melhor carril (curry) de frango e longas conversas. “É como se o Tony Ramos e o Tarcísio Meira fossem da minha família”, disse ela, deixando claro que as novelas da Globo são o mais sólido elo de conexão entre Brasil e Moçambique.

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(Divulgação/Reprodução)

Com areia dourada, ondas fortes e dunas no canto direito (conhecido como Tofinho), a Praia do Tofo é habitada por uma pequena, mas animada, comunidade internacional, que fixou ali ótimos centros de mergulho, como o Tofo Scuba e o Diversity. O ponto de encontro dessa gente é o Branko’s, um minirrestaurante no mercado, pilotado pelo casal sérvio-moçambicano Branko e Lucy, uma beldade local. Em noitadas embaladas por cerveja, banquetes de lula, vieiras e camarões (a menos de
5 dólares pela porção), compartilhei as mesas coletivas com funcionários da ONU, mochileiros, dirigentes de ONGs africanas e até o célebre sul-africano Mike Rutzen, o Shark Mike, famoso por mergulhar com tubarões brancos e por militar pela preservação da espécie.

Revoada de flamingos

Cerca de 300 quilômetros ao norte, Vilanculos é outro hit. Hotéis e pousadas rústicas, como a simpática Baobab Beach (desde 32 reais a diária), ocupam uma praia branca pontilhada de coqueiros, onde pescadores encostam seus dhows – um rústico barco a vela típico da África Oriental. Do aeroporto partem os helicópteros que levam até o Arquipélago de Bazaruto, a joia da coroa do turismo de luxo de Moçambique.

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(Divulgação/Reprodução)

O hotel mais bacanudo é o Azura (desde 665 dólares por pessoa no sistema all inclusive), na Ilha de Benguerra. São 20 vilas divididas em cinco categorias, todas com jeitão de casa de praia, banheiro-latifúndio, piscina e mordomo. Jantares pé na areia e apresentações de dança da comunidade local fazem parte da rotina. Mas a apoteose é o passeio de lancha (incluso na diária) que passa pela ilha que dá nome ao arquipélago, onde uma colossal duna se reflete em um espelho d’água formado na maré baixa. Também rola um intervalo para fazer snorkel em um arrecife que parece um aquário e piquenique na espetacular Praia de North Point, uma tripa de areia-açúcar cercada pelo Índico dos dois lados. Na volta, uma revoada de flamingos acompanha a lancha por alguns segundos.

Por Adriana Setti, in vip.abril.com.br

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