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Steve Bannon com Donald Trump na Casa Branca a 31 de janeiro. Evan Vucci AP

Stephen K. Bannon, produtor de cinema e agitador midiático, consolidou-se em quinze dias como o homem mais influente na Casa Branca de Donald Trump. Bannon transferiu para o centro do poder mundial os métodos e a ideologia que fizeram de sua publicação, Breitbart, um alto-falante da direita mais estridente. Seu rastro é visível em medidas como o decreto que proíbe temporariamente a entrada de refugiados e imigrantes de vários países muçulmanos. Como outros ideólogos do trumpismo, combina o nacionalismo econômico com a defesa das fronteiras fechadas e a convicção de que o chamado “islamofascismo” é o maior perigo para a civilização ocidental.

É chamado de o poder nos bastidores, o Rasputin de Trump. O seu cargo – estrategista-chefe e conselheiro sénior – lhe confere um acesso privilegiado ao salão oval, sem as amarras institucionais impostas por cargos mais formais como o de chefe de gabinete. Poucos dias depois de chegar à Casa Branca, o presidente promoveu-o dando-lhe um assento no comité director do Conselho de Segurança Nacional, o organismo que coordena a política externa e de segurança da Casa Branca. É atribuída a ele a autoria, junto com o seu protegido na Casa Branca, Stephen Miller, do discurso de posse do presidente, a 20 de janeiro, um discurso com a mesma retórica populista e nacionalista que vem cultivando há anos nos seus documentários e no Breitbart.

O ritmo endemoniado e caótico nos primeiros dias da presidência leva a sua assinatura. Seja redigindo decretos presidenciais, seja desqualificando a imprensa como “o partido da oposição”, Steve Bannon deixa a sua marca.

A palavra do momento é ruptura, a ideia de que o novo presidente chegou para deixar o sistema de pernas para o ar, ainda que, para isso, precise semear a desordem e a confusão com um decreto incompetente e aprovado às pressas, como ocorreu com o veto a imigrantes e refugiados.

Bannon, que se definiu há algum tempo como um “leninista” que “quer destruir todo o establishment”, surge como o arquitecto da revolução, ou seu gênio maléfico. Não é fácil distinguir quanto disso é realidade ou lenda. A lenda – nos últimos dias, Bannon apareceu na capa da Time e o The New York Times se perguntou num editorial se ele é o presidente de facto – aumenta o seu poder.

Existe uma tradição de gênios nos bastidores nos Estados Unidos, reais ou imaginários. Nos anos de George W. Bush, o último presidente republicano antes de Trump, eram os intelectuais neoconservadores, ou o vice-presidente Dick Cheney, ou o estrategista Karl Rove. Trump, que está há décadas na vida pública, não é um produto de Bannon. Mas Bannon e outros – como o procurador-geral in petto, o senador pelo Alabama Jeff Sessions – encontraram nele um veículo para uma ideologia até agora marginal.

Na Casa Branca Bannon, Sessions e outros assessores competem por influência com figuras como Reince Priebus, o chefe de gabinete, um republicano tradicional, membro da casta de políticos profissionais que Bannon dedicou meia vida a combater.

O trumpismo é uma ideologia atípica, sem um programa além da própria personalidade de Trump e sem textos fundadores além da nutrida bibliografia do magnata nova-iorquino sobre as suas façanhas na vida empresarial e pessoal. Se fosse preciso apontar um documento fundador dessa ideologia, poderia ser a fala de Bannon numa conferência organizada em 2014 no Vaticano pelo Instituto da Dignidade Humana. A sua participação, de quase 50 minutos, ilumina as primeiras acções e gestos do novo presidente dos Estados Unidos.

Bannon parte da base de que o capitalismo de meados do século XX serve para distribuir a riqueza entre a classe média e garantir décadas de paz. Foi a época dourada. O fim da Guerra Fria levou a uma “crise da nossa fé, uma crise do Ocidente, uma crise do capitalismo”. O problema, continua, é que o capitalismo existe hoje numa vertente estatista – grandes corporações beneficiadas pelos poderes públicos – ou extremamente individualista e materialista.

Nenhuma dessas duas vertentes é benéfica para as classes trabalhadoras, prejudicadas pela crise financeira de 2008. Bannon prevê o advento de um movimento transnacional, um “movimento populista de centro-direita da classe média, do trabalhador e da trabalhadora do mundo que simplesmente está farto de que o que chamamos partido de Davos diga a ele o que tem de fazer”. No vocabulário do trumpismo, Davos – ponto de encontro anual do capitalismo global – é sinônimo das elites cosmopolitas, do liberalismo sem pátria que olha com desprezo para as classes trabalhadoras. Um símbolo do mal.

Debilitadas, as sociedades ocidentais se encontram “nas primeiras etapas de um conflito muito brutal e sangrento”, segundo Bannon. “Tudo converge para algo que devemos enfrentar, e que é um tema desagradável, mas estamos diante de uma guerra deflagrada contra o jihadismo islâmico fascista”, disse na conferência, em que participou via skype da Califórnia. “E acredito que a metástase dessa guerra é mais rápida do que os nossos governos conseguem administrar”.

O outro documento fundamental para entender a ideologia se intitula A escolha do voo 93 e foi publicado em setembro na pequena revista conservadora Claremont Review of Books. O autor escrevia sob o pseudônimo Publius Decius Mus, nome de um cônsul romano que se sacrificou numa batalha para salvar Roma.

O artigo apresentava uma visão apocalíptica dos Estados Unidos, um país que precisava de uma sacudidela imediata se quisesse evitar cair no precipício. Denunciava a cumplicidade do establishment conservador com os progressistas que haviam consolidado a sua hegemonia cultural e política por meio de artimanhas como a abertura das fronteiras a estrangeiros. Comemorava o facto de Trump ter acertado em opor-se ao consenso crédulo sobre o livre comércio, as intervenções bélicas no exterior e a imigração. E constatava a anomalia de Trump – um candidato histriônico, linguarudo, ofensivo para muitos conservadores –, mas sustentava que era apenas o símbolo da época (“só numa república corrupta, em tempos corruptos, poderia surgir um Trump”), e que dificilmente se encontraria uma figura melhor para a ruptura necessária.

O título fazia alusão ao avião sequestrado no 11 de Setembro por terroristas da Al Qaeda em que os passageiros enfrentaram os sequestradores e tentaram tomar o controle do aparelho. “2016 era a escolha do voo 93: tomar a cabine ou morrer”, escreveu Publius Decius Mus. “Talvez morra de uma forma ou de outra. Talvez você – ou o líder do seu partido – chegue à cabine e não saiba pilotar ou fazer aterrar o avião. Não há garantias”. O argumento dizia que a situação era tão crítica que exigia medidas drásticas, apesar do risco. Por outras palavras, era preciso votar em Trump.

O voo 93 acabou caindo num campo da Pensilvânia: todos os passageiros morreram. A revista neoconservadora The Weekly Standard revelou nesta semana que Publius Decius Mus na verdade se chama Michael Anton e trabalha na Casa Branca.

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