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The Doors: de esquerda a direita, o guitarrista Robby Krieger, o cantor Jim Morrison, o baterista John Densmore e o teclista Ray Manzarek, numa actuação em Nova Iorque, em 1967. GETTY IMAGES

Lembro-me nitidamente a primeira vez que ouvi o The Doors, no início de 1967. Num dos seus programas de rádio, o apresentador tocou Break on Through. Do outro lado das ondas, a sensação imediata foi: “Isso soa diferente”.

De que maneira soava diferente? Bem, a bateria de John Densmore em Break on Through seguia padrões de bossa nova, era possível imaginar que por trás havia um aspirante a tocar jazz. O órgão Vox Continental de Ray Manzarek era um instrumento de exploração, distante das ressonâncias religiosas do Hammond então dominante; ainda não sabíamos que usava um tecladinho Fender Rhodes para imitar o baixo, embora em algumas músicas foi acrescentado um baixo de verdade. A guitarra de Robbie Krieger era limpa, lírica, económica: ele a tocava sem palheta e percebia-se que tinha havia estudado violão espanhol. E também havia Jim.

Morrison usava a voz de barítono de modo quente, vocalizando com claridade. Mais Frank Sinatra do que Elvis Presley, para citar duas das suas influências. É fácil entender o facto de que os hipsters de Nova Iorque, reunidos em torno de Lou Reed e do Velvet Underground, o tenham detestado desde o início. Com a sua beleza, seus traços angelicais e a sua arrogância, parecia um anúncio das virtudes da raça californiana. Excepto que não havia tal coisa: nascido no seio de uma itinerante família militar, Jim não tinha raízes até se estabelecer em Los Angeles.

Um sector importante da crítica musical, começando com o patriarca Robert Christgau (“Morrison soa como um idiota”), atacou imediatamente o The Doors. Suspeito que ficava evidente que os Doors tinham estudado: vinham da UCLA, Universidade da Califórnia em Los Angeles. Mostravam uma munição intelectual proporcionada pelos seus professores: invocavam desde o Teatro da Crueldade de Antonin Artaud aos textos de Aldous Huxley (As Portas da Percepção deu o nome à banda). Tinham conexões com áreas obscuras da cultura europeia, com acertos como recriar Alabama Song, uma peça provocante de Bertolt Brecht e Kurt Weill.

Eram tidos como pedantes, mas os Doors eram simples filhos da contracultura, com o fascínio obrigatório pela Índia. Manzarek e Densmore conheceram-se nas aulas de meditação transcendental; a sua peça mais épica (e edipiana), The End, correspondia aos esquemas do que então se conhecia como raga rock, música inspirada por obras de Ravi Shankar.

Amor pelo ‘blues’

Também se apreciava o carinho pelo blues, comum àquela geração. Com uma diferença: enquanto a maioria dos seus contemporâneos usava o blues para exibições instrumentais, Morrison buscava o seu substrato, o impulso erótico. Isso tomou forma nas suas versões da insinuante Back Door Man, de Howlin’ Wolf, ou na fálica Crawling King, de John Lee Hooker.

Numa das suas melhores ideias, Morrison descreveu os Doors como “erotic politicians” (“políticos eróticos”). Ou seja, eram politizados, como boa parte da juventude norte-americana, mas a sua principal preocupação era o erotismo como forma de conhecimento, como ruptura radical com a sociedade herdada dos seus pais. Depois desse primeiro single com Break on Through (to the other side), a sua declaração de intenções, causaram impacto com o segundo single tirado de The Doors.

Light My Fire alcançou o número um numa edição truncada, que eliminava o sinuoso desenvolvimento de órgão e guitarra que parecia dramatizar a intensa sessão de drogas e sexo sugerida pela letra. Esse corte foi a única concessão aceite por Jim Morrison, que cantou o texto original no Ed Sullivan Show ignorando a proibição dos responsáveis pelo programa. Aquela banda, intuíamos, seria refractária aos compromissos.

Diego A. Manrique, in El Pais

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