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Com a entrada de fundos do FMI e da comunidade de doadores em queda, o investimento estrangeiro é vital para Moçambique em 2017. Neste contexto, e com promessas de investimento no país, desembarcou em Maputo, a 23 de Janeiro, Recep Tayyip Erdogan, primeiro presidente da Turquia a visitar o país. Mas o desenvolvimento de relações económicas tem uma contrapartida – a extradição de supostos “terroristas” turcos baseados em território moçambicano.

Erdogan, que sobreviveu a uma tentativa de golpe de Estado em 2016, em que morreram 265 pessoas, pediu ao seu homólogo moçambicano, Filipe Nyusi, que o ajudasse a “capturar” os seus adversários políticos que acredita estarem em território moçambicano. O chefe de Estado turco chegou mesmo a acusar alguns destes exilados de estarem por detrás da recente tentativa de golpe de Estado.

O pedido foi feito num encontro a sós com Nyusi, a quem Erdogan solicitou apoio para neutralizar alegadas células terroristas turcas que estarão infiltradas em Moçambique, vincando que estão envolvidas no sector do ensino e outras actividades sociais ligadas ao desenvolvimento. Os seus planos, alertou, também podem afectar Moçambique.

Segundo jornalista moçambicano Marcelo Mosse, a extradição destes indivíduos para a Turquia já foi formalmente pedida, mas o assunto não é prioritário para as autoridades moçambicanas. “Quando zarpou para o ataque à rede de escolas Willow [uma escola privada sediada em Maputo detida e gerida por cidadão de origem turca, e um dos alvos de Erdogan] e à acusação de que Moçambique albergava terroristas ligados à intentona de Julho passado na Turquia, fê-lo com contundência desmedida, fora dos cânones diplomáticos, numa interlocução que carregava todos os ingredientes da chantagem ou de quem esperava uma retribuição por dívida passada. Chantagem porque a Turquia tem dinheiro para investir em Moçambique; dívida de gratidão porque a Turquia ajudou na campanha presidencial de Filipe Nyusi”, afirma Mosse.

Mosse adianta que dinheiros turcos foram usados para pagar parte das despesas de transporte do candidato da Frelimo na última campanha eleitoral: 8 milhões de dólares. “Erdogan sabe que a contrapartida seria a oferta, por Moçambique, de um projecto de energia em Nacala, que depois não se concretizou. Ele quer que a promessa seja cumprida”.

Moçambique e a Turquia têm relações diplomáticas e de âmbito comercial desde a independência moçambicana, em 1975. A Turquia figura na lista dos dez maiores investidores no país (entre os quais se encontra Portugal), com um volume de trocas comerciais que ascendeu, em 2015, aos 120 milhões de dólares, contra os anteriores cinco milhões no ano de 2003.

Durante a visita, Erdogan traçou como objectivo elevar para 500 milhões de dólares o valor das trocas comerciais anuais entre os dois países, quintuplicando o nível actual: “A Turquia tem muitas possibilidades nas áreas tecnológicas e técnicas, pode dar o seu contributo para que a cooperação resulte em vantagens mútuas”. Foram assinados acordos bilaterais nas áreas económica e comercial, promoção e proteção de investimentos, turismo, cultura, supressão de vistos para pessoal diplomático e consultas políticas.

A Turquia é um dos seis observadores associados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O aumento da presença turca entra em concorrência directa com os interesses económicos de Portugal no país, dada a similitude dos perfis empresariais dos dois países, de acordo com o Briefing Africa Monitor. O sector industrial, do turismo, construção e téxtil são exemplos disto, no entanto o maior risco poderá advir da concorrência no sector agro-alimentar e retalho, onde as marcas turcas continuam a ganhar espaço vital às marcas portuguesas, com preços altamente concorrenciais.

Por Emmanuel de Oliveira Cortês

Fonte: Africa Monitor

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