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Donald Trump e a primeira-dama Melania caminham pela Pennsylvania Avenue/Foto Evan Vucci (AP)

Quando o espanhol médio sofre um dos seus habituais ataques de indignação, a primeira exclamação que costuma sair da sua boca é “Não é normal!”, seguida, com reiterada ênfase, de um, “isto não é normal, joder!”. A frase, curiosa, já que parte da noção de um acordo unânime sobre o que é a normalidade, não se ouve tanto nos demais países de fala hispânica, nem, que eu saiba, em outras línguas. Mas talvez tenha chegado a hora de que o inglês a incorpore ao seu léxico, especialmente nos Estados Unidos. A ascensão de Donald Trump à presidência é o menos normal que já ocorreu na história deste país. Talvez seja o menos normal que já ocorreu numa democracia, ou numa democracia supostamente madura, na história da humanidade.

Calígula chegou ao topo do poder na Roma antiga, é verdade; como também chegaram Idi Amin no Uganda, ou o general Galtieri na Argentina, ou Stroessner no Paraguai. A diferença é que Trump foi eleito comandante-em-chefe (commander in chief) por livre vontade dos cidadãos.

O anormal não tem tanto a ver com as opiniões ou políticas que Trump propõe. O mais anormal da sua chegada à Casa Branca não é a sua admiração por Vladimir “os russos têm as melhores prostitutas do mundo” Putin, nem o seu desprezo pela OTAN e a União Europeia, nem a sua hostilidade contra a China, nem que irá se cercar no Salão Oval de assessores da direita mais rançosa, nem o seu desejo declarado de construir um muro na fronteira com o México, romper o acordo nuclear com o Irão e dinamitar o sistema de saúde pública do seu país.

O mais anormal é a sua personalidade. Que o país mais rico, mais poderoso e mais influente do planeta tenha como presidente um homem-bebê, um “man baby”, como o definiu com aterradora lucidez o humorista político norte-americano Jon Stewart. Trump é um homem de 70 anos com o desenvolvimento emocional de, bom, talvez não de um recém-nascido, e sim de um menino malcriado do ensino primário.

Há muitos anos acompanho com interesse os presidentes dos Estados Unidos. Recordo a minha desilusão quando Richard Nixon chegou ao poder; a minha sensação de ridículo quando foi substituído por Gerald Ford, um homem, como diziam, “incapaz de mascar chiclete e caminhar em linha recta ao mesmo tempo”; a minha raiva quando o medíocre actor Ronald Reagan ganhou as eleições duas vezes; a minha decepção quando George Bush pai apanhou o bastão, e o meu horror quando Bush filho foi reeleito, depois da invasão do Iraque, em 2004.

Mas a eleição de Donald Trump é de outra ordem. Ford, Reagan, os Bush e inclusive Nixon, até à sua queda, eram personagens que, pelo menos em público, comportavam-se com a seriedade e a dignidade que o cargo exige. Estava em desacordo com eles em quase tudo, ficava de mau humor quando os via na televisão, mas não sentia que eram pessoas fundamentalmente frívolas ou imaturas; nunca me assustava que tivessem o dedo no botão nuclear.

Agora, como escrevia nesta semana o colunista mais conservador do The New York Times, David Brooks, os norte-americanos escolheram “um rei bufão” como presidente. Eu iria mais longe. Trump é um doente. Vendo as suas mensagenzinhas no Twitter e ouvindo as suas declarações, não só no cínico frenesi da campanha eleitoral, mas também desde que venceu Hillary Clinton em novembro, a única conclusão possível é que oferece um caso clássico de transtorno de personalidade narcisista.

É um chorão com um ego gigante e ao mesmo tempo frágil, como um enorme ovo de porcelana. A virtude adulta da empatia é alheia às suas funções cerebrais. Como indica a sua crônica tuitorreia, tem uma necessidade tão desesperada quanto infantil de ser sempre o centro das atenções. O critério de Trump, o troll-em-chefe, para julgar as pessoas se reduz a se falam bem ou mal dele. Por exemplo, quando diz que Meryl Streep é “uma actriz supervalorizada”, Hillary Clinton merece ir para a prisão, e Putin é um grande líder, muito superior a Barack Obama.

A presidência de Trump será Donald no país das maravilhas. Como a Alice de Lewis Carroll, passamos ao outro lado do espelho e entramos em outra dimensão. Só que Trump não interpretará o papel da sensata Alice, e sim do Chapeleiro Maluco. Só que não, não será o presidente dos Estados Unidos numa delirante história de ficção, e sim de verdade. Ainda custa a crer, mas, em poucas horas, Donald Trump será o presidente dos Estados Unidos no mundo normal.

Por John Carlin, in El Pais

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