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“Paz” foi escolhida como palavra do ano em 2016 em Moçambique, anunciou hoje a Plural Editores, que, depois de Portugal, promoveu a iniciativa pela primeira vez neste país e em Angola.

“Paz” foi escolhida com 24% numa lista de dez vocábulos finalistas, num contexto de forte agravamento da crise política e militar entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), na sequência da recusa de o maior partido de oposição em reconhecer os resultados das eleições gerais de 2014, alegando fraude, e exigência de governar nas seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.

O líder da oposição, Afonso Dhlakama, encontra-se algures na serra da Gorongosa há mais de um ano e 2016 ficou marcado por confrontos militares entre as partes, emboscadas e ataques na Renamo nas principais estradas e localidades remotas no centro e norte do país, além de acusações mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos e graves denúncias de abusos de direitos humanos.

Associada a “paz”, a palavra “diálogo” ficou em sétimo, com 5%, numa referência às negociações entre Governo e Renamo em Maputo, na presença de mediação internacional, mas ainda sem resultados.

Num ano de guerra e crise económica, a segunda palavra escolhida acaba por ser surpreendente, “mamparra” (idiota, parvo, no calão usado no sul de Moçambique), com 17%, por não ter relação direta com nenhum daqueles assuntos, nem ficar claro se os votantes pensaram em alguém em particular ou se a designação está apenas na moda.

Mais previsível era “crise”, colocada no terceiro lugar com 16%, quando em 2016 Moçambique sofreu uma queda vertiginosa da moeda nacional, em proporção inversa à subida da inflação, e ainda a descida das exportações, falta de divisas e forte redução do apoio externo e investimento estrangeiro.

O tremendo aumento do custo de vida estará também associado à escolha da palavra “solidariedade”, no oitavo lugar, com 5%, num ano que ficou ainda marcado pelo escândalo das dívidas escondidas.

“Dívida” surge em quinto lugar na lista, com 8%, após ter sido revelado em abril de 2016 a existência de avultados empréstimos para fins de defesa, garantidos pelo Governo à revelia da Constituição e do parlamento.

A descoberta de 1,4 mil milhões de dólares a favor de duas empresas estatais, somando-se a um caso semelhante mas que já tinha sido tornado público, de 850 milhões de dólares para a Empresa Moçambicana de Atum (Ematum), levou à interrupção dos financiamentos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos doadores do Orçamento do Estado e colocou a dívida pública a níveis insustentáveis.

“Educação” figura no sexto posto, com 8%, sinalizando uma preocupação com um setor crónico de Moçambique, onde, apesar de progressos nos últimos anos, cerca de 20% das crianças continuavam fora do primeiro ciclo em 2014, os casamentos prematuros e a guerra também vedaram o ensino a milhares de alunos, e 40% da população permanecia analfabeta, segundo dados de 2011.

Outros dois vocábulos, “tchilar”, no quarto lugar (11%), e “txunar” no nono (3%) são expressões mais uma vez associadas à linguagem de rua, e muito usadas nas campanhas publicitárias, a primeira com a conotação de divertimento e a segunda com significados diversos, entre fazer, organizar ou aprontar-se, numa referência a uma presumível origem da palavra num tipo de jeans femininas chamado “txuna baby”.

A lista das dez palavras do ano é encerrada por “liberdade” (3%), num ano que ficou igualmente assinalado por assassínios de políticos, agressões a académicos, intimidações a jornalistas e líderes de opinião e até desincentivos públicos à participação numa manifestação contra a guerra e a crise.

A escolha foi realizada pela Plural Editores Moçambique, “através da análise de frequência e distribuição de uso das palavras e do relevo que elas alcançam”, tanto nos meios de comunicação como nas redes sociais, e que tem em consideração também as sugestões dos moçambicanos no site da iniciativa.

Fonte: Lusa

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