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População pobre no Quênia, um dos países com maior desigualdade no mundo/Foto Pablo Tosco/Oxfam Intermón

O crescimento económico só está a beneficiar aqueles que têm mais. A superconcentração da riqueza piorou no ano passado, ameaçando a estabilidade e o crescimento global. Oito pessoas concentram nas suas mãos a riqueza equivalente de outros 3,6 bilhões, a metade mais pobre da população mundial, como denunciou a ONG Oxfam no relatório uma economia de serviço dos 99%, publicado nesta segunda-feira.

A organização atribui a responsabilidade por essa situação, que qualifica de “extrema, insustentável e injusta”, ao actual modelo económico, “ao serviço do 1% mais rico da população”.

O panorama é igualmente sombrio em todas as regiões do planeta. No Vietnam, por exemplo, o homem mais rico do país ganha num dia mais do que a pessoa mais pobre em 10 anos. Nos Estados Unidos, de acordo com um estudo realizado pelo economista Thomas Piketty, a renda dos 50% mais pobres da população foi congelada nos últimos 30 anos, enquanto a do 1% mais rico aumentou em 300%. A soma dos salários anuais de 10.000 trabalhadores das fábricas têxteis de Bangladesh equivale ao salário do CEO de qualquer empresa incluída no FTSE 100, índice da Bolsa de Valores de Londres, de acordo com estimativas da Ergon Associates. A Espanha não é excepção: apesar do crescimento do PIB desde 2014, a desigualdade torna-se crónica e se intensifica. Esse aumento se deve a uma concentração da riqueza em menos mãos, enquanto acontece uma deterioração da situação das pessoas mais vulneráveis.

A Oxfam aponta especialmente as grandes empresas, acusadas de estarem “ao serviço dos mais ricos” e de se guiarem por um único objectivo: maximizar a rentabilidade de acionistas e investidores. Em 2015, as dez maiores empresas do mundo obtiveram um faturamento superior à receita total dos Governos de 180 países. No entanto, esse crescimento não foi distribuído entre todas as camadas da sociedade.

O salário do trabalhador ou do produtor médio quase não aumentou nos últimos anos ou até decresceu. Na Índia, por exemplo, o CEO da principal empresa de tecnologia do país ganha 416 vezes mais do que um trabalhador médio do grupo. Para diminuir custos, algumas empresas recorrem ao trabalho forçado ou em condições de escravidão. As mulheres e as meninas são exploradas nas condições mais precárias e são a categoria pior remunerada.

Entre as estratégias para pagar o mínimo de imposto possível, o relatório denuncia o uso de paraísos fiscais, prática que provoca prejuízos anuais de ao menos 100 bilhões de dólares para os países em desenvolvimento. Mais uma vez, os mais pobres pagam o preço mais alto. No Quénia, por exemplo, as isenções fiscais geram perdas anuais de 1,1 bilhão de dólares, cifra que representa o dobro dos investimentos na saúde num país caracterizado pela alta probabilidade de morte materna durante o parto.

A Oxfam denuncia que as empresas usam o seu poder para garantir que tanto a legislação quanto a elaboração de políticas nacionais e internacionais seja feita sob medida para proteger os seus interesses e melhorar a sua rentabilidade, como demonstram, por exemplo, os privilégios fiscais obtidos pelas companhias petrolíferas na Nigéria. Esse tipo de “capitalismo clientelista e de curto prazo” também coloca em desvantagem as pequenas e médias empresas, incapazes de fazer frente às grandes corporações.

A Oxfam também analisou a riqueza de 1.810 bilionários incluídos na lista Forbes 2016, 89% dos quais são homens. No seu conjunto, eles possuem 6,5 trilhões de dólares, a mesma riqueza que 70% da população mais pobre da humanidade. Um terço desse patrimônio tem origem na riqueza herdada, enquanto 43% está ligado a relações clientelísticas. Essa riqueza cresce a uma média de 11% ao ano desde 2009, taxa muito superior à de um poupador médio. “Os super-ricos não são apenas receptores passivos da crescente concentração de riqueza, mas contribuem activamente para perpetuá-la”, diz o relatório, por exemplo, por meio dos seus investimentos. Os mais poderosos da sociedade controlam a maioria das ações, o que os torna os principais beneficiários do actual modelo empresarial, gerando um efeito multiplicador de riqueza para os já super-ricos.

O estudo da Oxfam estima em 14 bilhões de dólares por ano os prejuízos em África resultantes da utilização de paraísos fiscais pelos bilionários. A organização calcula que esse montante seria suficiente para garantir cuidados de saúde e salvar a vida de quatro milhões de crianças por ano, ou para permitir a escolarização em todo o continente.

Esse modelo económico, aponta o relatório, é baseado numa série de falsas premissas, entre as quais está a ideia de que a riqueza individual extrema não é prejudicial, mas um sintoma de sucesso, ou que o crescimento do PIB deve ser o principal objectivo da elaboração das políticas. As premissas equivocadas incluem acreditar que os recursos do planeta são ilimitados ou que o actual modelo económico é neutro do ponto de vista do gênero. A organização adverte que, se tais pressupostos não forem revistos, será impossível reverter a situação e defende a construção de uma “economia mais humana” que beneficie o conjunto da população. Esse novo sistema deveria se basear na cooperação entre os Governos, privilegiar a utilização de energias renováveis, acabar com a extrema concentração da riqueza e apoiar homens e mulheres.

O relatório foi apresentado na véspera da abertura do Fórum Econômico Mundial, que começa amanhã na cidade suíça de Davos e que na semana passada já havia advertido que a desigualdade económica, a polarização social e as crescentes ameaças ambientais serão os principais riscos do mundo nos próximos dez anos.

O Fórum enfatizou em várias ocasiões a grave ameaça representada pelo aumento da desigualdade económica para a estabilidade social, mas, apesar de que os líderes mundiais tenham se comprometido a intervir, o fosso entre os mais ricos e os mais pobres não parou de crescer. Vários estudos da Oxfam mostram que ao longo dos últimos 25 anos o 1% mais rico obteve mais renda do que os 50% mais pobres da população como um todo.

“Se o crescimento económico entre 1990 e 2010 tivesse beneficiado os mais vulneráveis, hoje teríamos 700 milhões a menos de pessoas, a maioria mulheres, na pobreza”, salienta o relatório. Se essa tendência não for revertida, afirma a Oxfam, as empresas poderão pagar o preço com um aumento da criminalidade e da insegurança, enquanto a luta contra a pobreza poderia ser prejudicada.

Fonte: El Pais

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