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Joaquim Chissano em 2004/Foto Eric FEFERBERG

O antigo Presidente de Moçambique Joaquim Chissano defende que não tem sentido criticar Mário Soares por causa do processo de descolonização, porque, naquele momento, “não havia nada a negociar”.

Em entrevista à Renascença (Portugal), a partir de Maputo, Chissano diz que a morte de Soares – “um político muito maduro ” – constitui a perda de um amigo pessoal e de Moçambique

Como encara o desaparecimento de Mário Soares?

É um momento de tristeza, porque perdemos um amigo do meu país, mas também um amigo pessoal.

Como foi o seu relacionamento com Mário Soares?

O primeiro contacto pessoal que tivemos foi em Lusaka, nas negociações pela independência de Moçambique. Foi aí que se começou a construir um conhecimento que se foi transformando em amizade. O presidente Mário Soares, que era ministro dos Negócios Estrangeiros, apresentou-se como um camarada de luta, porque Portugal tinha estado a lutar contra o fascismo e nós contra o colonialismo. Depois, quando ele foi Presidente da República, tivemos ocasiões de trocar visitas. E, primeiro, ele veio fazer uma visita a Moçambique, quando era primeiro-ministro.

Tivemos vários encontros. Um deles foi uma entrevista interessante, na qual o Presidente Mário Soares a entrevistar-me a mim. Foi uma conversa televisiva para lembrar os momentos em que nos encontramos: de Lusaka a toda a construção do relacionamento entre Portugal e Moçambique. Ficou um convite para nos encontrarmos, um convite informal, mas que nunca se concretizou, por questões de calendários. Nos almoços que tivemos, também falávamos de algumas questões históricas.

Em Portugal, uma das questões que gera mais críticas a Mário Soares é, precisamente, a da descolonização. Como é que olha para esse período da História?

No que toca a Moçambique, nem sei porque é que hão-de criticar Mário Soares, porque ele presidiu a uma parte das discussões e a outra parte foi presidida pelo Melo Antunes. Mas para nenhum deles se justifica qualquer crítica, porque, realmente, do nosso lado não havia nada a negociar. A nossa luta já tinha conquistado a independência e o que era preciso era, apenas, que Portugal reconhecesse o facto, porque o movimento das forças armadas não teria surgido sem a vitória do nosso combate.

As forças armadas portuguesas tiveram o mérito de terem reconhecido este direito antes do próprio Estado, antes do próprio governo de Marcelo Caetano. Eles reconheceram que, de facto, estavam a fazer uma luta inglória. Tiveram bom senso e reforçaram a parte da luta anti-fascista, anti-ditadura, na qual o Presidente Mário Soares esteve empenhado, desde a juventude, porque lutava contra o fascismo e a ditadura que colonizava.

Num plano mais pessoal, humano, que traços de carácter destaca em Sopares?

Mário Soares era um político muito maduro que sabia adaptar-se às situações da revolução do seu próprio país, mas também era aberto à discussão e sabia mudar as suas atitudes. Daí que tenha sido capaz de construir esta amizade com Moçambique.

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