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– Pelé em 1960. GETTY

Em 1950, Pelé ainda não era Pelé. Ainda era chamado de Edson (em homenagem a Thomas Edison, porque quando nasceu a luz chegou ao seu bairro). Tinha 10 anos e jogava futebol nas ruas sem calçamento de Minas Gerais, chutando descalço uma bola feita de pano. Por fazer isso, a sua mãe o proibiu de assistir à final daquele Campeonato do Mundo: Brasil x Uruguai. Mas Edson escapou e, num canto, presenciou o terrível Maracanazo, a derrota do Brasil em casa e as lágrimas do pai.

Aos 76 anos (Três Corações, 1940), sentado num quarto de hotel em Nova Iorque, com energia, apesar de estar a dar entrevistas há dois dias, Pelé ainda se emociona ao lembrar a cena que abre o novo filme baseado na sua vida, Pelé – O Nascimento de uma Lenda, ainda sem data de estreia no Brasil. A longa-metragem já foi lançado nos Estados Unidos e Europa. “É um filme que emociona mais do que os outros documentários feitos sobre mim, com os golos, as partidas, os títulos”, diz. “Aqueles filmes também eram bonitos, mas só falavam de Pelé marcando golos, ganhando jogos. Ninguém sabia ou sabe como cheguei lá”.

O “Rei” do futebol entrou em contacto com o produtor Brian Grazer (Uma Mente Brilhante) para encomendar um projecto centrado no seu caminho até o topo e este passou-o aos irmãos Jeff e Mark Zimbalist, cujo currículo inclui documentários desportivos e sobre o Brasil. “Quando eles me mandaram o primeiro roteiro e vi que contava a minha vida antes da fama emocionei-me muito e deu-me mais coragem para fazer o filme”, continua Pelé. “As pessoas não sabem que fui engraxador quando criança para ajudar o meu pai, que teve uma fractura que o obrigou a parar de jogar futebol, que perdeu o emprego e ele foi meu professor. As pessoas não sabem de tudo isso, por isso este filme é importante para mim: porque fala sobre Pelé, o ser humano”.

O filme vai daquele Maracanazo até a sua estreia com a selecção brasileira e o primeiro título mundial na Suécia, em 1958. Nesses oito anos, Edson, ou Dico, como era chamado na família, tornou-se Pelé, um apelido pejorativo por causa do seu tamanho, pequeno e magro, dado pelos meninos ricos da sua cidade e que por pouco que ele gostasse acabou por ficar.

Sem ser um documentário, o filme está cheio de cenas de futebol, razão pela qual o processo mais complicado foi encontrar dois Pelés, um de 10 anos e outro adolescente. O “Rei” sabia que além de terem de ser fisicamente parecidos, eles tinham que saber jogar futebol e, depois de uma longa procura, encontraram dois garotos brasileiros desconhecidos: Leonardo Lima Carvalho e Kevin de Paula. Além disso, o próprio Pelé faz uma ponta, que prolonga assim a sua relação peculiar com o cinema que teve o seu maior momento há 35 anos, em Fuga para a Vitória.

“Aquela equipa era de primeiro nível e eu tinha apenas um pequeno papel, mas foi uma grande experiência porque não tinha nada a ver com a minha vida de então”, lembra. E começa a rir ao lembrar-se de Stallone. “Ele não sabia jogar futebol, mas no filme tinha que jogar. Ensaiamos e ensaiamos, mas ele não conseguia fazer nada. Eu tinha que ser o guarda-redes e uma tarde chegou o director [John Huston] e disse: ‘Pelé, você faz o golo e alguma jogada porque com o Sylvester não vai dar’. Eu pensei que ele iria se zangar porque era o protagonista, e quando o vi ele começou a beijar-me, a abraçar-me e a agradecer-me. Ficou aliviado”, ri.

Para Pelé, futebol e cinema dividem o poder de “unir as pessoas”. Se você perguntar sobre cinema, ele diz que vê de tudo, embora prefira os “filmes de acção e de espaço”. Se você perguntar sobre futebol, a conversa nunca termina. Acredita no desporto e no futebol como forma de superar até os conflitos políticos do país. Só compara o seu amado Santos, a equipa em que jogou 18 anos, com o Real Madrid contemporâneo a ele e a Holanda ou o Barcelona de Cruyff. No futebol de hoje, Messi continua a ser “a maior figura”, embora Neymar “tenha boas possibilidades se conseguir ter equilíbrio emocional”. “Ele se irrita facilmente”, diz.

“Individualmente, temos os melhores jogadores do mundo, mas não há um bom conjunto”, dizia pouco antes dos Jogos Olímpicos do Rio, em que a sua selecção foi coroada com o ouro e ressuscitou da última Taça do Mundo, em 2014. Aquela em que história do Maracanazo se repetiu e o Brasil perdeu em casa para a Alemanha por 7 a 1. “Em 1950, eu tinha 10 anos e vi o meu pai chorar. Há dois anos, vi o meu filho chorar – encolhe os ombros. É a vida”.

Fonte: El Pais Brasil

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