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O casal Obama na base militar do Havaí a 25 de dezembro/HUGH GENTRY-REUTERS

Barack Obama mergulhou no processo de introspecção que vive o Partido Democrata desde a derrota de Hillary Clinton para o candidato republicano Donald Trump nas eleições presidenciais. Em entrevista divulgada nesta segunda-feira, o presidente norte-americano considera que, se tivesse a possibilidade de disputar um terceiro mandato, teria vencido as eleições.

“Estou confiante nessa visão porque estou confiante que, se eu tivesse concorrido de novo e articulado, acho que poderia ter mobilizado uma maioria do povo norte-americano a apoiar essa ideia”, diz o democrata Obama a respeito da mensagem de esperança e transformação com que venceu as eleições de 2008 e 2012. A declaração foi feita durante uma entrevista para um programa de podcast de David Axelrod, um dos cérebros da sua primeira campanha e assessor nos seus primeiros anos na Casa Branca.

Obama afirma ter podido comprovar que existem republicanos que consideram que essa visão continua prevalecendo. “Com a vitória de Trump, muita gente sugeriu que, de certa forma, foi uma fantasia”, diz sobre o discurso conciliador que o levou à Casa Branca em 2009. “O que eu argumentaria é que a cultura realmente mudou, que a maioria compra a noção de uma única América, que é tolerante e diversa, aberta e cheia de energia e dinamismo”.

O mandatário, que deixa o cargo em 20 de janeiro, considera que os republicanos foram muito eficazes em refutar essa mensagem, mas também reconhece, implicitamente, erros dos democratas e de Clinton, cuja campanha apoiou.

Desde a derrota nas urnas, Obama sugeriu que Clinton deveria ter feito mais campanha em feudos conservadores para contrapor o apelo do discurso populista contra o livre comércio e o establishment formulado por Trump.

“É preciso dedicar mais tempo para marcar presença em lugares em que as políticas democratas fazem diferença, mas onde as pessoas sentem que não estão sendo ouvidas e onde os democratas são caracterizados como gente do litoral, progressista, politicamente correcta, distante”, disse o presidente em meados de dezembro na sua última entrevista do ano.

Na entrevista com Axelrod, Obama evita fazer críticas a Clinton. Afirma que a sua ex-secretária de Estado “teve uma actuação excepcional sob circunstâncias muito difíceis” e que foi tratada injustamente pelos meios de comunicação.

Mas insinua que Clinton deveria ter se dirigido mais aos eleitores que ainda não percebem com suficiente clareza no bolso os efeitos da recuperação econômica e que se sentiram atraídos pelo discurso de ruptura de Trump. “Não saímos a campo para expressar, além dos aspectos da política pura e dura, que nos preocupamos com essas comunidades, que estamos sangrando por essas comunidades”, diz. Menciona, além disso, um possível excesso de optimismo: “Se você acredita que está ganhando, tende a jogar de forma conservadora”.

Na entrevista, Obama também aborda o seu futuro. Continuará morando em Washington até sua filha pequena concluir os estudos, pretende escrever um livro e reflectir sobre a sua presidência. Quando Trump tomar posse, adoptará um perfil discreto, mas avisa que levantará a voz quando julgar imprescindível. “Tenho de ficar calado por um tempo, e não me refiro à política, mas internamente. Você precisa recuperar a sintonia com o seu centro e processar o que aconteceu antes de tomar um monte de boas decisões”, diz.

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