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Membros do ANC protestam em frente à Luthuli House, centro administrativo do partido sul-africano – GIANLUIGI GUERCIA / AFP

A onda de descontentamento social que começou a florescer há alguns anos ganhou força em 2016 em diversas regiões da África Subsaariana, onde os jovens se sentem enganados por regimes autoritários de líderes que uma vez lutaram para libertar os seus países.

As ruas da África do Sul foram tomadas este ano por estudantes revoltados com um governo que não garante educação a todas as classes sociais, por cidadãos fartos da corrupção que afeta a administração do seu presidente, Jacob Zuma, atual líder do partido que terminou, precisamente, com o apartheid.

“O descontentamento popular com o Congresso Nacional Africano (no poder na África do Sul desde o fim do sistema racista) está vinculada a um sentimento de setores que estão fartos dos regimes corruptos”, diz o Instituto para Estudos de Segurança (ISS, em inglês).

A frustração com o autoritarismo, a falta de transparência e de ambição para melhorar a vida do povo levou à mudança em 2014 em Burkina Fasso, que ainda hoje continua a inspirar os movimentos populares que cruzam o continente, com sucesso irregular e diferentes motivações.

No sul, alguns daqueles que um dia foram heróis contra a opressão colonial transformaram-se em velhos presidentes que se negam a ceder o posto e violam diariamente os direitos dos seus cidadãos.

Robert Mugabe, o nonagenário presidente do Zimbabwe, transformou-se num herói africano após favorecer a reconciliação no fim da guerra civil do seu país.

Três décadas depois, não só ostenta a honra de ser o líder mais idoso do mundo, mas o de ter imergido o antigo celeiro da África num abismo econômico e institucional que suscitou uma violenta resposta social sem precedentes.

Nos vizinhos Angola e Moçambique, as forças que um dia lideraram movimentos de libertação (o Movimento Popular de Libertação de Angola e a Frente de Libertação de Moçambique) transformaram-se em aparatos repressores da oposição e dos cidadãos.

“Os jovens estão a acusar aqueles que estiveram no poder desde a independência de acumularem riqueza através da corrupção e de não fazerem nada para aliviar a pobreza”, enfatiza o ISS.

A origem deste sentimento tem uma explicação simples para o diretor para a África do observatório britânico Chatham House, Alex Vines: os eleitores jovens cresceram alheios aos dias do colonialismo, mas sofrem diariamente com o desemprego e a desigualdade.

“Foram incapazes de encontrar emprego e oportunidades e de expandir a riqueza, o que fez com que as desigualdades aumentassem, e os hierarcas do partido se tornaram muito ricos”, disse Vines em Pretória, na África do Sul.

Mais ao norte, a falta de eleições livres e justas estão a alimentar os protestos: Uganda, Burundi, República Democrática do Congo e Etiópia viveram este ano violentos movimentos de contestação aos seus líderes, que resistem a deixar os seus cargos, passando por cima das leis.

Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o atleta Feyisa Lelisa cruzou os braços no ar ao terminar em segundo lugar e conquistar a medalha de prata na maratona, um gesto que denunciava a repressão do governo da Etiópia contra a etnia oromo durante a maior onda de protestos no país.

Os oromo, assim como os muitos jovens que pagaram com as suas vidas em outros países africanos, não reivindicam apenas mais democracia, enfraquecida pela falta de uma tradição eleitoral e pelo neopatrimonialismo, mas, sobretudo, uma “vida melhor”.

“Estamos determinados a impulsionar uma solidariedade e unidade dos povos da África para construir o futuro que queremos: o direito à paz, à inclusão social e à prosperidade compartilhada”, adverte a denominada “Declaração de Kilimanjaro”, adotada numa cimeira  extraordinária em agosto em Arusha (Tanzânia).

Naquela reunião, grupos da sociedade civil, religiosos, sindicatos, mulheres, jovens e parlamentares tomaram a decisão de “construir um movimento pan-africano que reconheça os direitos e liberdades” do povo deste continente.

Um movimento que, mais uma vez, ultrapassa as fronteiras das diferentes nações africanas para não mais libertá-los do jugo colonial, mas dos seus novos opressores: dirigentes que, na maioria dos casos, sequer puderam escolher.

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