“O demagogo é aquele que prega doutrinas que sabe que são mentira a pessoas que sabem que é idiota”. — H.L. Mencken

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Donald Trump, em campanha eleitoral em Minneapolis. CHARLES REX ARBOGAST AP

O problema não é Donald Trump. O problema é o trumpismo, um coquetel de ódio e fascismo repleto de mentiras e incoerências confeccionado sobre a marcha por Trump e seus aduladores num processo febril de incitação mútua.

Os ingredientes de ódio são conhecidos por qualquer um que tenha prestado um pouco de atenção à campanha presidencial dos Estados Unidos: fala mal dos mexicanos, dos muçulmanos, dos judeus, dos negros, dos imigrantes em geral, das pessoas com deficiências, dos intelectuais e das mulheres, especialmente as mulheres modernas, pós-feministas e independentes, cuja imagem mais visível é a sua rival para a presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton.

Os ingredientes fascistas também não são difíceis de se identificar: Trump, apoiado na sua candidatura pelo jornal oficial da Ku Klux Klan, afirma que se chegar à presidência irá prender Clinton, fazendo pouco caso do princípio democrático da independência do judiciário; que se não vencer, não respeitará o resultado, sugerindo ao mesmo tempo que poderá incitar os seus partidários a que peguem em armas; que a tortura é desejável como método de interrogação; que os muçulmanos nos Estados Unidos, como os judeus na época nazista, devem ser todos identificados numa base de dados.

Mas o problema não é Donald Trump, por mais que seja a expressão em carne e osso de quase tudo o que é vil no ser humano. O problema são as pessoas que acreditam que semelhante animal é digno de ser o presidente dos Estados Unidos, o país com maior poder sobre a humanidade do que qualquer outro. O problema é que dezenas de milhões de norte-americanos pensam em votar num homem que diz que o governante que mais admira no mundo é o ditador russo e ex-oficial da KGB Vladimir Putin. O problema é a idiotice da turba trumpista.

“Amo os que não têm educação”, declara Trump, e as multidões o aplaudem. Ele os ama porque não sabem distinguir entre a verdade e as mentiras nas quais ele se baseia, que, como está bem documentado, são 70% do que Trump diz.

Um exemplo entre milhares. Trump insiste que o índice de homicídios nos Estados Unidos hoje é o mais alto em 45 anos. Trump se queixa aos seus devotos que a imprensa jamais menciona esse fato. Não o faz porque é mentira. O índice de homicídios em 1980 foi o dobro do que em 2015.

O que Trump faz é apresentar uma imagem aterradora dos Estados Unidos, uma espécie de Estado fracassado mergulhado na criminalidade e na miséria. É o velho truque do demagogo fascista, seja Hitler, Franco ou Mussolini, seja o inimigo o comunismo ou a conspiração judaica. Confiem em mim; só eu sou capaz de salvá-los.

O problema não é Trump; o problema são os que acreditam nele. Como nos lembra uma crítica da mais recente biografia de Hitler no New York Times, escrita por um historiador alemão chamado Volker Ullrich: “O que realmente dá medo no livro de Ullrich não é que Hitler pudesse ter existido, mas o fato de que tanta gente pareça ter esperado que aparecesse”.

É verdade que o adjetivo de fascista foi utilizado com exagerada frequência e volubilidade desde os anos trinta. Mas nesse caso, já que o assunto em questão é a campanha de Trump para chegar ao poder, a comparação não é frívola. Renomados intelectuais de esquerda e direita nos Estados Unidos, entre eles o professor universitário de economia Robert Reich e o historiador Robert Kagan, definiram explicitamente como de caráter fascista o culto ao homem forte redentor que se criou ao redor da figura de Trump.

A vitória eleitoral de Hitler em 1933 foi o triunfo do ódio, da barbárie e da estupidez. Uma vitória para Trump nas eleições de terça-feira seria o mesmo. Não existe lógica alguma para que dezenas de milhões de norte-americanos, a maioria deles aparentemente formada por homens brancos que se sentem marginalizados e ressentidos, vejam em Trump o homem que lhes devolverá à prosperidade. A parte do cérebro que utiliza a razão não entra em ação. Trump é um bilionário que não paga impostos há 20 anos e é favorável a que se corte ainda mais os impostos dos super ricos.

A parte do cérebro que entra em ação é a mais primitiva e animal. A do medo e da agressão, a da manada. Tony Schwartz, que há 30 anos vendeu sua alma e escreveu para Trump seu livro A Arte da Negociação, chegou a conhecer o atual candidato melhor do ninguém. “Trump está só um degrau acima da selva”, disse numa entrevista semana passada ao Times de Londres. “Sua visão do mundo é tribal”.

O que seria um problema somente para seus familiares e conhecidos que precisam aguentá-lo se não fosse pelo fato de que as massas descerebradas o adoram e existe o sério risco de que acabe ocupando a Casa Branca. Não existe análise política que explique isso. Essa ferramenta não é o suficiente. Para entender o fenômeno Trump é preciso recorrer à antropologia, nesse caso ao estudo do animal humano na sua versão mais selvagem e primitiva. Porque o trumpismo não tem causa; tem inimigos. Não propõe esperança, propõe ódio.

O problema não é Trump. O fantástico, o grotesco, o surreal é que às vésperas das eleições as pesquisas digam que o ódio, a barbárie e a estupidez têm uma razoável possibilidade de vencer, que não é uma bobagem pensar que Trump conseguirá os votos necessários para ser coroado presidente dos Estados Unidos. O fantástico, o grotesco, o surreal é que tantos milhões dos habitantes do país mais próspero do mundo compartilhem sua visão tribal, que não só Trump, mas também seus devotos estejam somente um degrau acima da selva.

Por John Carlin, in El Pais (Brasil)

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