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O presidente Obama na Casa Branca. NICHOLAS KAMM AFP

O presidente Barack Obama quer aproveitar até o último segundo da sua presidência para consolidar a sua herança. Mesmo que os norte-americanos tenham eleito a pessoa que o sucederá, ele não quer relaxar. O democrata Obama, que na última semana intensificou a sua campanha por Hillary Clinton contra o republicano Donald Trump, não perdeu as esperanças de ratificar no Senado o tratado de livre comércio com os países do Pacífico, conseguir a aprovação de Merrick Garland como novo juiz do Supremo Tribunal, e fechar a prisão de Guantánamo, uma das suas dívidas mais dolorosas.

Uma das tarefas de Obama consistirá em ajudar a equipa do sucessor no período de transição, um dos mais delicados na democracia dos Estados Unidos, uma vez que a interinidade na Casa Branca pode criar a impressão de uma lacuna de poder. Ao contrário de outros países, a entrega do poder nos EUA não é imediata após as eleições. Existe um período extenso no qual o antigo presidente ainda não saiu e o novo está por chegar. Entre a terça-feira e 20 de janeiro, dia do início do mandato do próximo presidente, os EUA estarão em estado provisório.

O estado provisório presidencial vem junto com o do Congresso. Na terça-feira foram renovadas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 34 no Senado, de um total de cem. Muitos políticos, como o presidente, estão de saída. Os novos mandatos não começam até janeiro. As sessões realizadas nesse período recebem o nome de ‘sessões do pato coxo (lame duck em inglês)’, no sentido de que se trata de um Congresso debilitado e sem futuro. O presidente de saída também é chamado de ‘pato coxo’. Ou seja, nas próximas semanas dois ‘patos coxos’ estarão juntos em Washington: Obama e, coletivamente, o Congresso.

Obama teve dois mandatos de quatro anos para consolidar o legado que deixará. O que acontecer até janeiro não deveria modificá-lo substancialmente, mas ele quer tentar.

O espinho que incomoda Obama desde a sua chegada ao poder em janeiro de 2009 é Guantánamo, a prisão na base naval de mesmo nome em território cubano. Depois dos atentados de 2001, os EUA prenderam nesse local suspeitos de combaterem com a Al Qaeda e os talibãs. Guantánamo, símbolo dos excessos da Administração Bush na chamada guerra contra o terror, chegou a ter 780 presos. Agora existem por volta de sessenta.

No seu primeiro dia de trabalho como presidente Obama assinou um decreto que estabelecia o fechamento de Guantánamo no prazo de um ano. A promessa foi frustrada. Primeiro, pela obstrução do Congresso, contrário à transferência a território norte-americano de presos potencialmente perigosos. E segundo, pela distração do presidente com outras prioridades como a recessão econômica e a reforma de saúde.

A questão, nas semanas do ‘pato coxo’, é encontrar cumplicidades no Congresso, que nesses oito anos não se materializaram, ou se Obama procurará um caminho para fechar Guantánamo por decreto e enviar os presos restantes a outros países ou aos EUA.

Não é a única tarefa que pretende realizar. Também tentará aprovar no Senado o TPP, o tratado de livre comércio com 11 países da Bacia do Pacífico. Na campanha, Clinton se declarou cética em relação ao tratado. Trump refutou-o frontalmente.

A outra prioridade é a votação de Garland, o novo juiz do Supremo. A maioria republicana no Senado negou nos últimos meses a sequer considerar a nomeação, com o argumento de que deveria ser o próximo presidente a nomear o substituto do falecido juiz Antonin Scalia. Por seu impacto político, a batalha pelo posto vago – e os outros que podem vagar nos próximos anos – foi um dos assuntos da campanha.

Obama não dá sua presidência por encerrada. Na próxima semana realizará uma viagem que o levará à Grécia, Alemanha e Peru, sua despedida de um mundo que, com exceções, viu sua vitória há oito anos como um sinal de esperança. Depois deverá preparar tudo para a mudança de poder e o discurso de despedida, sua última ocasião para se dirigir a uma nação em que sua taxa de popularidade é alta, de 56%, e que começa a sentir sua falta.

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