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Pequenas ilhas tendem a ser lugares longe do mundo, e portanto territórios propícios ao inesperado — à aventura. Li “A Ilha do Tesouro”, de Stevenson, em criança, e depois passei anos à procura dela. Finalmente, encontrei-a. A minha Ilha do Tesouro é a Ilha de Moçambique, também chamada Muhipíti. O tesouro é a própria ilha, a ilha inteira, com os seus casarões antigos, as igrejas e mesquitas, as remotas matriarcas, vestidas de panos coloridos, em cujas veias corre sangue europeu, africano e asiático.

Voltei a Muhipíti, e ao seu amplo sossego, para terminar um romance, e três dias depois já estava pensando em abandonar aquele e começar outro, no qual a própria ilha seria o personagem principal.

Enquanto escrevo este texto, sentado à mesa do Café-Restaurante Ancora D’Ouro (gerido por uma sueca), vejo sair da igreja em frente um bando alegre de meninas, cantando um louvor a Nossa Senhora. Ouve-se, ao longe, o grito do muezim chamando à oração. Perto, é possível visitar um antigo templo hindu, encimado por duas suásticas.

Com apenas três quilômetros de comprimento e trezentos metros de largura, a ilha é considerada pela Unesco Patrimônio da Humanidade.

Quando Vasco da Gama desembarcou nestas praias de areia branca e corais, em 1489, a ilha já era uma povoação importante, com forte presença árabe, sujeita ao sultão de Zanzibar. Os árabes ainda aqui estão, embora em menor número, e Vasco da Gama também, neste caso sob a forma de uma estátua, um tanto tosca, que contempla, com indisfarçada arrogância e um tédio infinito, o mar azul turquesa. Quem também continua na ilha, em situação semelhante à de Vasco da Gama, é o poeta Luís de Camões. A ilha, aliás, sempre foi uma espécie de ímã de poetas. Além de Camões, que aqui viveu dois anos, também passaram por esta cidade-ilha, e em alguns casos deixaram descendência, Tomás Antônio Gonzaga, Bocage, Jorge de Sena, Miguel Torga, Alberto de Lacerda, Mia Couto e Rui Knopfli — este último o mais interessante, completo e complexo de todos os poetas africanos de língua portuguesa.

O que salvou a ilha foi o seu colapso. Dito de outra forma: o esquecimento. O primeiro grande golpe resultou da abolição do tráfico negreiro; o segundo, da transferência da capital para Lourenço Marques, hoje Maputo, em 1898. O prolongado abandono, que se acentuou com a independência e a violenta guerra civil, explica a preservação de um traço arquitetônico relativamente uniforme, que combina harmoniosamente a tradição árabe e a portuguesa.

Moçambique, portanto, principiou aqui. Foi um começo feliz. Se o país inteiro tivesse seguido e alargado a demorada tradição de mestiçagem e de pacífico convívio religioso e cultural desta minúscula ilha, talvez estivesse hoje em melhor situação.

Tomás Antônio Gonzaga chegou à ilha em 1799, aos 48 anos, condenado a dez anos de degredo devido à sua participação na Inconfidência Mineira. Não levou muito tempo para esquecer Marília, ou melhor, Maria Doroteia Brandão, que conheceu em 1782, quando esta tinha 16 anos e ele 38. Logo em 1793, o poeta casou-se com uma moça moçambicana, Juliana de Sousa Mascarenhas, filha de um próspero comerciante de escravos. Juliana não lhe terá inspirado poemas; em contrapartida, deu-lhe dois filhos. Os descendentes do poeta contam-se hoje às dezenas, estando espalhados por vários países do mundo. De todos estes descendentes apenas dois, Dona Flora e Dona L. M., permanecem na ilha. A primeira é uma senhora afável, que gosta de falar da história da cidade, e gere um pequeno hotel num dos casarões herdados da família.

O passado está tão vivo nas ruas tortas da velha cidade que há quem se tenha instalado nele e não o abandone nunca. Dona L. M. é uma dessas pessoas. Vi-a, há dias, a falar animadamente com alguém, neste mesmo café onde agora escrevo. Estava sentada a uma das mesas. Não havia ninguém diante dela. Reparando no meu espanto, esclareceu-me: “Estava a dizer aqui ao Rui Knopfli…”

Knopfli morreu em 1997. Explicaram-me, mais tarde, que Dona L. M. continua a encontrar-se não apenas com Knopfli, mas com muitas outras figuras que se movimentavam pela cidade na época colonial. A mim agrada-me a ideia de que essas figuras, em particular os poetas, continuem a passear-se pela cidade, ainda que só alguns de entre nós, muito poucos, tenham o privilégio de os ver e de conversar com eles.

Por José Eduardo Agualusa

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