image

– ANDRÉ CARRILHO

Pode ser apresentado como um poeta de Moçambique. Também como um veterinário que foi ministro da Agricultura. Ou ainda como antigo candidato a candidato presidencial da Frelimo. Desde 2013 é o representante em Portugal da FAO, a agência da ONU para a alimentação e agricultura

SER

Afinal deixamos de ser tudo
Para sermos qualquer conteúdo
Deixamos de ser plena humanidade
Para sermos infinita banalidad
e.

Hélder Muteia (in Versos ao Avesso)

Acabámos de nos sentar à mesa e logo Hélder Muteia é saudado por um dos empregados do Zambeze. “Está tudo a caminhar?” E a resposta: “Está tudo a caminhar.” Não é só o cumprimento que é moçambicano, o restaurante também. Fica ali perto da Baixa mas já a caminho do Castelo. O meu convidado é cliente habitual e garante que se trata de um dos bons restaurantes moçambicanos de Lisboa, a par do Ibo e do Cantinho do Aziz, este último “uma versão mais económica”. No caso do Zambeze, ficar num sétimo andar oferece ainda vista desafogada sobre o Tejo.

Muteia pode ser apresentado como um poeta de Moçambique, daí o poema em epígrafe, que lhe pedi que escolhesse. Também como um veterinário que foi ministro da Agricultura. Ainda como antigo candidato a candidato presidencial da Frelimo. Mas desde 2013 é o representante em Portugal da FAO, a agência das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, o que o faz viver em Lisboa com a mulher Ancha, a filha Vanessa e o filho Hélder. Duas raparigas mais velhas, Mamiza e Aline, “vivem agora em Moçambique. É uma das razões por que vou lá no mínimo duas vezes por ano. Mantenho ligação ao país”, conta Muteia, que antes representou a FAO na Nigéria e no Brasil.

Trazem para a mesa um prato de entradas. A recordar que o restaurante é moçambicano mas de investidores beirões, às chamuças somam-se fatias de queijo da serra. Começamos por pedir água com gás, mas pergunto a Muteia se bebe vinho. Responde que não, mas põe-me à vontade. Acaba por pedir um sumo de laranja, eu uma cerveja, esquecendo-me de acrescentar Laurentina, a marca moçambicana, e por isso acabo a beber uma imperial.

O representante da FAO escolhe camarão com quiabos. “Gosto da maneira como o fazem aqui.” Aproveito a boleia e peço o mesmo. Muteia, que é de Quelimane, na Zambézia, fala-me de alguns pratos moçambicanos, como matapa, que descreve ser feito de “folhas de mandioqueira trituradas e acompanhadas de camarão”.Já da comida portuguesa, diz que tem experimentado de tudo um pouco. Que gosta de mão de vaca com grão e de jaquinzinhos fritos. Bacalhau não o atrai, mas a mulher e os filhos gostam. Voltamos ao tema da família, por insistência minha, pois fiquei curioso com o nome Ancha, que Muteia me disse ser uma variante do nome árabe Aicha.

“A minha mulher é muçulmana. E é por respeito à religião dela que deixei de beber álcool e comer porco”, explica o antigo ministro. “São comuns estes casamentos em Moçambique. Religião nunca foi um problema. O meu pai era muçulmano e converteu-se para casar com a minha mãe, uma católica. Mas nem eu nem a Ancha nos convertemos à religião do outro. E os nossos filhos foram educados de forma a escolherem o que quisessem ser. Tanto iam à igreja como à mesquita.” Muteia recorda que antes da chegada dos portugueses e dos missionários católicos já os comerciantes árabes tinham levado o islão para a costa, sobretudo do centro e norte, acima de Sofala. “A partir do século XVI, houve um choque triangular no que é hoje Moçambique, envolvendo muçulmanos, católicos e as religiões africanas. Preferimos aceitar todos e um moçambicano verdadeiro é sempre uma mistura. Toda a gente tem um familiar de outra religião. Olhe o meu apelido. Muteia tem origem indiana, mesmo que também signifique sorridente em chuabo, que é a minha língua africana.”

Chega o camarão com quiabos, legume africano. “Aqui, põe-se o arroz branco no prato principal, mas em Moçambique é ao contrário. Deita-se o caril sobre o arroz.” “Caril?”, pergunto, surpreendido, pois o molho é rosa-claro. Muteia ri: “Caril é como chamamos ao molho. Mesmo quando não tem caril.” O sabor é agradável e descubro que o quiabo faz lembrar a curgete.

A pedido de Muteia, trazem um pratinho com grão-de-bico cozido. “Faço questão de comer todos os dias uma porção de leguminosas. A FAO está a promover o ano internacional das leguminosas, muito saudáveis, mas cada vez menos consumidas. Em Portugal é só quatro quilos por pessoa por ano. Os portugueses deixaram de comer feijão e grão. A campanha aconselha pelo menos 25 gramas diários. E tenho de dar o exemplo.”

Toda a carreira profissional de Muteia tem que ver com a agricultura. Nasceu em setembro de 1961 e cresceu num país que pouco a pouco foi mergulhando na guerra colonial, com o exército português a combater a Frelimo, o movimento de libertação. “Quando era miúdo falava-se muito da guerra. Nunca ouvi um tiro, mas havia na cidade presença militar maciça. Via os Unimogs a passar. E um tio estava no exército português”, conta. Prova de que eram tempos duros, o pai “chegou a ser preso pela PIDE acusado de ter ligações à Frelimo”, conta Muteia.

Quando a independência chegou em 1975, Muteia andava num seminário. “Foi aí que comecei a escrever poesia. Os padres devoravam livros e incentivavam que escrevêssemos e lêssemos. Também aprendi com eles os dois valores que prezo até hoje: disciplina e responsabilidade.” Essa vida de seminarista acabou de um dia para o outro. “A minha mãe tinha um grande orgulho quando eu ia de férias a casa e levava a batina de estudante vestida. Um dia teve um choque. Em vez de batina, apareci de farda militar”, conta, a rir, o moçambicano. É que com a independência foram extintos os seminários. E aquele onde estudava Muteia passou a ser “um centro de formação do homem novo, com os alunos a usarem fardas militares”. Na época, sob a liderança de Samora Machel, a Frelimo era um partido marxista.

País jovem e imbuído de espírito revolucionário, Moçambique precisava de todos aqueles que tinham estudos para desenvolver a sua economia. O adolescente Muteia foi então escolhido para fazer um curso técnico. E assim, em 1981, formou-se em Agricultura e Pecuária, no Instituto Agrário de Chimoio. Será quase uma década depois que, na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, se gradua em Medicina Veterinária, “um curso um pouco diferente dos da Europa, pois tinha também pecuária e produção”, explica. E em 2010, já como funcionário internacional, tira no Reino Unido o mestrado em Economia Agrícola, confirmando uma vocação que dura até hoje.

Mas não foi como especialista em agricultura ou como veterinário que Muteia entrou na política, mas como intelectual. Terminado o camarão com quiabo, explica que “era secretário-geral da Associação Moçambicana de Escritores quando a Frelimo me escolheu para integrar as listas às primeiras eleições pluripartidárias, em 1994. Eu falava muito em público e tinha ganho notoriedade e o partido queria ter representantes de várias áreas da sociedade”.

Na sequência dessas eleições, realizadas depois do fim da guerra civil entre a Frelimo e a Renamo, Muteia torna-se deputado e é na altura de escolher os membros da comissão da agricultura que alguém se lembra de que o poeta é também veterinário e não só. “Fiz algumas leis quentes”, recorda. E o desempenho chamou a atenção do presidente Joaquim Chissano, que em 1998 o convida para vice–ministro da Agricultura e da Pesca e em 2000 o promove a ministro da Agricultura e do Desenvolvimento Rural. “Tenho muito boas memórias de Chissano. Tudo o que sei sobre política foi muito influenciado por Chissano. Devo-lhe a forma de estar na política e até na vida”, diz, referindo-se ao homem que sucedeu a Machel, foi depois presidente já em democracia e quando deixou o poder recebeu o Prémio Mo Ibrahim de Boa Governação, um galardão patrocinado por um magnata sudanês das telecomunicações e que distingue os governantes africanos que resistiram a se perpetuar no cargo.

Interrompo Muteia para lhe perguntar se chegou a conhecer Machel, o guerrilheiro que declarou a independência. Diz-me que sim. “Como jovem apertei-lhe a mão algumas vezes. E também fiz parte da equipa que escreveu alguns discursos do presidente sobre cultura. Era carismático.”

No partido desafiaram-no a apresentar-se a candidato presidencial da Frelimo em 2005, quando Chissano sai. Perdeu para o veterano Armando Guebuza. “Coragem nunca me faltou, mas não foi uma decisão fácil. Muitos no partido defendiam que era bom haver vários candidatos, que os jovens deviam avançar. Fui o segundo mais votado”, conta.

Já fora do governo, torna-se representante da FAO na Nigéria, até 2010, e no Brasil, de 2010 a 2013. A viver em Portugal há três anos, (também a representar a FAO junto da CPLP), segue tudo o que se passa em Moçambique. E por isso está tranquilo sobre o futuro, mesmo que a Frelimo e Renamo andem às avessas. “O povo moçambicano não quer o regresso da guerra. Pode acontecer alguns tiros, mas a consciência da paz vai triunfar”, garante.

Termina o sumo e limita-se a beber um copo de água. Também já desisti de chamar o empregado para lhe pedir uma Laurentina, nome de cerveja que já existia quando Maputo era Lourenço Marques. Desse tempo colonial, Muteia recorda-se de que na sua terra se falava chuabo na rua e por isso o aprendeu, mas que em casa os pais só usavam o português. “Queriam que os filhos falassem português perfeito”, nota. Sente-se bem a viver em Lisboa, reafirma que os portugueses aceitam as outras culturas e confessa grande admiração por José Saramago e Fernando Pessoa. E entre os escritores moçambicanos, qual prefere? Escolhe um poeta. “Gostava de homenagear Eduardo White, já falecido. Brincámos juntos. Convivemos muito.” Sobre o Nobel da Literatura para Bob Dylan, diz que “foi uma surpresa” e que agora se interessou por redescobri-lo como poeta. “É esse um dos méritos do Nobel, chamar-nos a atenção. Ainda me lembro como li tudo de Gabriel García Márquez depois de ele ter ganho. Antes não o conhecia.”

Ao longe, o Tejo está magnífico. O dia está limpo e vê-se a Ponte 25 de Abril. Muteia vai atravessá-la em direção a sul em menos de uma hora. Tem uma palestra a dar sobre agricultura, uma tarefa habitual para o homem da FAO em Portugal, país que elogia pelo combate ao desperdício alimentar.

Não quer café nem sobremesa, mas aconselha-me a ver a mesa de doces do Zambeze. Antes de se despedir, ainda tem tempo para elogiar o muito que a ONU faz no mundo, sobretudo nos países em desenvolvimento, como Moçambique, onde todos recordam o papel da ONUMOZ, “que estava em todas as esquinas após o acordo de paz”. E, já agora, o português António Guterres eleito secretário-geral das Nações Unidas? “A partir da candidatura, percebeu-se que tinha o perfil ideal. E esse foi o dilema, pois falava-se de alguém da Europa de Leste e mulher. Mas Guterres era a personalidade certa, com grande experiência. Teve muito mérito ao ganhar. E também está de parabéns a diplomacia portuguesa.”

Fico sozinho para o café. Entre as sobremesas, doces conventuais e uma mousse de maracujá. Diz–me o empregado que não é um doce moçambicano, só tropical. Para a próxima tenho de perguntar a Muteia quais são as sobremesas típicas em Moçambique.

Zambeze

› 2 couvert regional

› 1 água com gás

› 1 sumo de laranja

› 1 imperial

› 2 camarão com quiabos

› 1 buffet de sobremesa

› 1 café expresso

Total: 64,5 euros

por Leonídio Paulo Ferreir (dn.pt)

Anúncios