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Filipe Nyusi e Afonso Dhlakama em fevereiro de 2015/Foto de Ferhat Momad (AIM)

Michel Cahen, um dos principais historiadores e politólogos sobre Moçambique, não vê solução para a crise política moçambicana até às próximas eleições legislativas, em 2019. Em entrevista ao Africamonitor.net em Lisboa, afirma que “mais dinheiro dados a regimes que não são democráticos só vão encorajar a que fiquem hegemónicos”.

“As descobertas de mais petróleo e metais preciosos, há muito conhecidas pelos interesses capitalistas internacionais, só trazem mais corrupção, mais enriquecimento ilícito da elite, mais guerra civil, o que não é bom para a democracia”, afirmou Cahen.

Para Cahen, a Comunidade Internacional “em geral ainda prefere a manutenção do poder da Frelimo”, ignorando sinais de degradação dentro do movimento, porque o partido está “mais habituado” a gerir o país. Apesar dos esforços da sociedade civil moçambicana “hoje em dia, na partilha internacional do poder, as condições não estão reunidas” para uma maior democratização do país, onde a Frelimo “está completamente apodrecida, com alguns ligados ao tráfico de droga, com corrupção enorme”.

O caso dos empréstimos de 2.000 milhões de dólares ocultados da comunidade internacional, canalizados a partir de 2012 para a EMATUM, Proindicus e MAM, todas empresas de segurança, demonstra, segundo Cahen, intenções políticas. “Significa que desde 2012, quando a 2ª Guerra estava só a começar, o Poder já tinha escolhido a via militar”. “O esforço de rearmamento começou naquele momento, não é de hoje em dia”, afirmou ao Africamonitor.net.

Para Cahen, o PR Filipe Nyusi, à altura Ministro da Defesa no Governo de Armando Guebuza Guebuza, “obviamente sabia desses empréstimos”.

Relativamente à crise económica e financeira no país, o investigador não tem dúvidas de que foi provocada e fomentada principalmente com a maior centralização do poder no 2º mandato de Armando Guebuza, quando Ministros e o próprio PR excederam as suas competências”.

“Pensaram que o preço das matérias-primas se manteria elevado e fizeram empréstimos a empresas de segurança, mesmo sem fazer conhecer esses empréstimos à Assembleia Nacional como é constitucional.” Como o preço das matérias-primas baixou ficaram “completamente afogados”, resultando no corte de relações com o FMI.

Na luta política, Cahen prevê que “a longo prazo, o MDM pode ser um perigo muito forte para a Frelimo”. O partido de Davis Simango surgiu após as eleições autárquicas de 2009, de uma cisão de dirigentes da RENAMO, mas que captou uma pequena parte do eleitorado e base social da FRELIMO. “Sendo um partido pacífica, pode enraizar-se nos bairros da cidade, nomeadamente nos bairros da classe média e da elite, a cidade de cimento, em que há um eleitorado que muito dificilmente vai votar na RENAMO por razões históricas da guerra civil de 16 anos, mas que pode votar no MDM”, afirma.

Sobre a futura i, o académico é otimista, porque a população em geral e os camponeses “só são contra a modernização quando é autoritária e não traz nenhum melhora social da vida”. E é o que tem vindo a acontecer, uma vez que “com a FRELIMO, os camponeses sentiram viver pior do que no tempo do fim do colonialismo”. Portanto “não é uma questão de tradição versus modernidade. Mas sim, qual o tipo de modernidade que é oferecida aos camponeses”, receptivos ao progresso social.

Michel Cahen é Diretor de Investigação do Centro Nacional de Pesquisa Científica de França, Investigador associado na Escola de Altos Estudos Hispânicos e Ibéricos da Casa de Velasquez, em Madrid e Investigador convidado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

O investigador inaugurou na quarta-feira um ciclo anual de Conferências sobre assuntos Africanos, organizadas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com uma intervenção denominada “As guerras civis moçambicanas (1976-92, 2013-2014, 2015-?) numa perspectiva histórica”.

A morte de Jeremias Pondeca, principal mediador da RENAMO nas conversações com o Governo, ou a ideia de que “há um sector de oposição ao Governo moçambicano que tem esquadrões da morte”, foram alguns dos temas abordados, sobre o conflito atual, aquele que para Michel Cahen é o da 3ª Guerra de Moçambique.

Fonte: Africa Manitor

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