A semana passada conheci Maria Bethânia em Moçambique. Contou-me — ao sermos apresentados — que guarda de Angola uma boa impressão. Explicou-me o porquê: ao desembarcar em Luanda encontrou esperando por ela um sujeito enorme, bonito, impecavelmente vestido de branco: “Sou o seu motorista” — apresentou-se o homem. — “Chamo-me Jesus de Nazaré”.

Em Maputo, a capital de Moçambique, Maria Bethânia não teve a boa fortuna de ter como motorista Jesus de Nazaré, mas, em contrapartida, encontrou uma cidade muito mais arejada, verde, limpa e descontraída, não obstante a situação política, bastante tensa, que tem afligido os moçambicanos nos últimos meses. Bethânia trouxe a Maputo um belíssimo “Ensaio poético”, ao longo do qual versos de poetas africanos, brasileiros e portugueses se amarram uns aos outros com um certeiro engenho e tanta naturalidade que quem não conheça bem aqueles autores pode ser levado a crer que se trata de uma única peça — barroca, e no entanto leve e harmoniosa.

Bethânia tanto canta versos de Fernando Pessoa, quanto declama Caetano, e ao fazê-lo mostra como são artificiais as fronteiras entre a poesia e o que se convencionou chamar “letras para canções”. Foi isso, afinal, que a Academia Sueca pretendeu realçar ao atribuir o Prêmio Nobel de Literatura a Bob Dylan — escritor de canções. Mais do que premiar Dylan, os suecos estão premiando a palavra cantada.

Já o ano passado a cada vez mais ousada Academia Sueca surpreendeu o mundo, premiando uma jornalista, a bielorussa Svetlana Alexievich. O prêmio foi uma oportunidade para discutir o que distingue jornalismo de literatura. A resposta — basta ler o assombroso e terrivelmente angustiante “Vozes de Tchernóbil”, de Alexievich, para chegar a tal conclusão — é que não há por que impor tal distinção. Uma reportagem pode ser literatura, e da melhor!, sem deixar de ser bom jornalismo. Há bom jornalismo sem literatura; boa literatura em mau jornalismo e grande jornalismo que é, simultaneamente, excelente literatura.

Caetano Veloso pode apresentar-se como poeta. Chico Buarque igualmente, tanto quanto Ferreira Gullar ou Eucanaã Ferraz. Gosto muito de escutar Leonard Cohen — aquela voz rouca, carregada de sombras e presságios; os poemas que ele canta, porém, não perdem a estranha luz que os anima se acaso os acharmos entre as páginas de um livro — desapossados das asas da melodia. E o que dizer de Jacques Brel?

Toda a poesia ambiciona ser canção; quando não ambiciona provavelmente não é poesia. O que acontece é que, infelizmente, a maioria dos poetas não sabe cantar.

Pode discutir-se, portanto, o nome do premiado, mas não me parece justo contestar que o prêmio distinga um escritor de canções.

O indignado clamor que se levantou, um pouco por todo o mundo, ao conhecer-se a decisão da Academia Sueca dificilmente teria ocorrido se a mesma tivesse premiado não Bob Dylan, cujas letras são mais vezes banais do que surpreendentes (ou seja: do que poesia), e sim, por exemplo, Leonard Cohen. Dylan é um excelente compositor que acontece, aqui e ali, ser arrebatado pela poesia. Cohen é, esse sim, um poeta a tempo inteiro.

O melhor de todo o episódio foram as piadas nas redes sociais. “Gosto imenso do Bob Dylan. Tenho os livros todos”, comentou o escritor português João Tordo. Um editor revoltado acrescentou: “Dylan sempre esteve muito à frente: por exemplo, começou a escrever audiolivros antes sequer de surgir o conceito de audiolivros”.

Voltando a Moçambique, lembrei-me que Bob Dylan esteve por cá nos tempos eufóricos da revolução — creio que em 1975. Dessa passagem rápida ficou uma canção, “Mozambique”, cuja letra (a Academia Sueca que me perdoe, mas neste caso custa-me a escrever poesia) celebra a beleza das praias moçambicanas e das garotas que as frequentam. Estranhamente, não há a menor referência ao processo revolucionário que, na época, seduziu intelectuais do mundo inteiro. Eis alguns versos, brutamente traduzidos por mim para português: “Tem um montão de garotas gostosas em Moçambique/ e tempo de sobra para um bom romance/ todo o mundo gosta de relaxar e bater um papo/ dê uma chance para alguém especial/ ou apenas diga olá com um piscar de olhos”.

A “Garota de Ipanema”, convenhamos, dá dez a zero às garotas de Maputo, de Bob Dylan — e a culpa não é das garotas de Maputo. Vinicius, a propósito, merecia todos os prêmios literários.

por José Eduardo Agualusa

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