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O primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, era um homem enérgico, capaz de ter um pulso de ferro, principalmente no auge da guerra, mas também um sentimental, lembrou à Lusa Joaquim Chissano, amigo e sucessor do falecido estadista.

“Recordo-me de um homem muito energético, só a entrada dele naquela camarata [de praticantes de enfermagem], quando vinha de onde vinha, assobiava e toda a gente sabia, despertava toda a gente, sabiam que está a entrar Samora”, narra Chissano, contando os primeiros contatos com Machel, no início dos anos de 1950, quando o futuro primeiro Presidente moçambicano frequentava o curso de enfermagem no Hospital Central Miguel Bombarda, atual Hospital Central de Maputo.

No bairro da Mafalala, onde os dois viviam, continua Joaquim Chissano, Samora Machel também demonstrava dotes de carisma e liderança, congregando facilmente as pessoas e desafiando os amigos para combates de boxe, uma das suas paixões.

Com a ida de Joaquim Chissano para a Europa, onde prosseguiu os estudos, e com Samora Machel já enfermeiro, os dois ficaram muitos anos sem se verem, reencontrando-se em 1964, na Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).

“Quando cheguei [a Dar-es-Salam, capital da Tanzânia e sede da Frelimo durante a guerra colonial] ele estava na Argélia a fazer treino militar. No regresso da Argélia, em 1964, eu fui recebê-lo, mais precisamente no quartel onde o grupo foi alojado e sabia que o chefe do grupo era Samora Machel”, recorda Joaquim Chissano.

A chegada a Dar-es-Salam evoluiu uma relação que em Lourenço Marques tinha sido apenas de conhecidos para amigos, e, por vezes tratavam-se por “irmão”, assinala Joaquim Chissano.

“Soube que, quando estava na Argélia, ele liderava debates, discussões sobre a natureza da nossa luta, a natureza do inimigo: porque lutamos, para quê, contra quem lutamos?” – prosseguiu.

Samora Machel dizia que o colonialismo não tem cor, a luta pela independência não era para expulsar os brancos, mas para que todos fossem iguais, acrescenta Joaquim Chissano.

As capacidades de liderança de Machel fizeram com que a direção da Frelimo o nomeasse chefe do Centro de Formação Político-Militar do movimento na Tanzânia, do Departamento de Defesa e Segurança, presidente da Frelimo e mais tarde Presidente da República Popular de Moçambique, proclamando a independência “total e completa”, em 25 de junho de 1975.

“No plano da luta armada, a coisa principal é que o Presidente Samora Machel sabia porque ia lutar. Ele é que escolheu ser treinado, porque saiu de Moçambique, para se juntar à luta de libertação nacional. Das opções que ele teve, ele escolheu esta, a outra opção seria ir estudar. Como enfermeiro que era, podia ter escolhido medicina ou uma outra forma da área da saúde mais avançada”, notou Joaquim Chissano.

Sobre algumas práticas seguidas durante a presidência de Machel, consideradas atentatórias aos direitos humanos, como a condenação à morte num contexto de falta de separação de poderes, Joaquim Chissano assinala que Moçambique vivia num contexto de guerra e que se impunha uma mão de ferro para fazer face a essa emergência.

“Isto tudo correspondeu a uma situação de guerra, não restava ao Presidente Samora Machel senão ter um punho mais pesado”.

Samora Machel, declarou Chissano, até era uma pessoa muito sentimental, mas não exteriorizava esse sentimentalismo, mas quando fosse para dar o exemplo, não tinha contemplações, a ponto de ter mandado prender um dos seus irmãos.

O primeiro Presidente moçambicano morreu a 19 de outubro de 1986 num desastre de aviação em Mbuzinini, na África do Sul, quando viajava entre a Zâmbia e Maputo, tendo sido sucedido no cargo por Joaquim Chissano.

Fonte: Lusa

 

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