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Mick Jagger (esquerda), Ron Wood, Keith Richards e Charlie Watts, The Rolling Stones, no festival Desert Trip, nesta sexta-feira/MARK RALSTON AFP

Na entrada, os alto-falantes tocavam The Kinks, Bowie, Elton John e Hendrix, talvez uma forma elegante de reconhecer que não estão todos lá. Mas ninguém pode negar que os seis escolhidos para tocar no meio do deserto personificam a época de ouro do rock’n’roll: o mito. O que resta dele, pelo menos. Bob Dylan, The Rolling Stones, Neil Young, Paul McCartney, The Who e Roger Waters no mesmo palco, durante três dias.

O impacto no mundo da música com um elenco inédito já tinha acontecido no dia em que o festival foi anunciado. Na sexta-feira, o Desert Trip se desdobrou para atender à expectativa. Um recinto gigantesco, o Empire Polo Club de Índio, no vale de Coachella, no deserto de California, é o ambiente. No público, de cerca de 75.000 pessoas, as gerações se misturavam. Na última década, os concertos dessas legendas se tornaram eventos intergerações, em que há tanto pessoas que levam os seus filhos quanto pessoas que levam os seus pais. Mas em Desert Trip a média de idade é alta. Veio gente que cresceu com esses músicos, que já os viu muitas vezes. Os veteranos comemoravam mais o evento em si, a festa da música da sua vida, que a chance de ver esses artistas.

Depois das sete da noite, Bob Dylan, de 75 anos, subiu ao palco vestido de preto, com chapéu branco. Dylan foi o Dylan que para os seus fãs parece muito autêntico, mas não tanto para os outros. Num local em que as pessoas pagaram uma nota preta para viver uma experiência supostamente única, essa atitude de não estar se lixando para o público ergueu uma barreira fria. Além disso, por mais da metade da apresentação os telões não mostraram Dylan. A imensa maioria do público não conseguiu vê-lo.

Dylan deu de presente uma linda It’s All Over Now, Baby Blue. Também foram ouvidos suspiros na plateia pelas emocionantes versões de Tangled Up In Bluee Simple Twist Of Fate. Não disse boa tarde nem tchau. Como abertura de um festival, o nome não poderia ser mais forte. Vicky Cisneros, de 56 anos, que veio do Texas com seis amigos e acompanha Dylan há 40 anos, chorou de alegria. Musicalmente foi magnífico. Mas a atitude, que em outro ambiente é sua marca registada, que o seu público encara na boa, no Desert Trip soou incomodamente frio para a maioria.

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Tela gigante mostra Bob Dylan no seu show no festival Desert Trip/CHRIS PIZZELLO INVISION / AP

Uma hora depois de Dylan parar, o fraseado de guitarra de Start Me Up anunciava o reinício da noite. Os Rolling Stones ofereceram duas horas de um espetáculo dos grandes sucessos com que vêm dando a volta ao mundo há décadas e que continua avassalador. “Fazemos música há mais de 50 anos e é inacreditável que vocês continuem a vir nos ver”, disse Jagger. Em todas as canções da noite, de It’s Only Rock And Roll a Brown Sugar, a causa era evidente. Tocaram somente uma (Ride ‘em on Down) do novo disco que tinham anunciado no dia anterior.

“Não vamos fazer piadas sobre velhos”, prometeu Jagger depois de cumprimentar o público. “Bem-vindos à casa de repouso de Palm Springs para distintos músicos ingleses.” O soberbo espetáculo dos Stones pôs fogo no festival, fez todos lembrarem por que tinham ido àquele lugar no deserto e tirou dos seus assentos mesmo os mais relutantes. Para o arquivo de momentos únicos, tocaram Come Together, dos Beatles. Era esse o espírito. Uma pessoa do séquito dos Stones disse aos jornalistas que eles tinham tentando montar um número junto com Dylan, mas o gênio não estava a fim. Uma monumental salva final com You Can’t Always Get What You Want, Jumpin’ Jack Flash e Satisfaction despachou para os seus hotéis um público que no sábado voltaria para ver Neil Young e Paul McCartney.

Entre os veteranos que vieram celebrar o legado musical da sua geração, Cynthia Stern dava a visão de alguém de 25 anos. “É a última chance de ter uma ideia de como foi aquilo. Os mais velhos tiveram essa experiência nos anos sessenta.” Para ela é uma viagem no tempo a um festival de quando foi criado o tal rock’n’roll, quando esses artistas não eram legendas, mas apenas os grupos da moda. O portal para viajar para os anos sessenta se abre neste fim de semana e no próximo. Talvez, como reconhecem todos no festival, para se fechar depois para sempre.

É para aposentados com dinheiro”

Katheleen Tillman, de 60 anos, veio de Idaho com duas amigas para o Desert Trip. Até sexta-feira, cada uma tinha gastado cerca de 3.000 dólares na aventura. “Claro”, respondeu quando lhe perguntaram se era um festival para gente endinheirada. “Foi feito para uma geração que tem dinheiro e que está se aposentando. O organizador é um gênio.” A entrada mais barata para os três dias custava 435 dólares. A mais cara, 1.600. E é preciso considerar que o Empire Polo Club, local do festival de Coachella, fica no meio do nada. Falta transporte para ir e voltar. Os hotéis da região subiram os seus preços para mais de 200 dólares por noite para o quarto mais barato. No geral, uma estimativa conservadora é que não dá para comparecer ao evento com menos de 1.500 dólares para gastar. Isso, indo de carro para o deserto. Mas na sexta-feira a plateia tinha gente de todos os cantos. Os irmãos Martín e José Antonio Majluf, com seus amigos Manuel Aquino e Fernando Balbuena, vieram de Lima (Peru). Aterraram na sexta de manhã em Los Angeles. A brincadeira custou perto de 2.500 dólares para cada um. E olhe que eles já tinham visto os Stones na capital peruana este ano.

Fonte: Pablo Ximénez Sandoval, in El Pais

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