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Historiador investiga origem da maledicência

Conta-se que certa vez o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw enviou a um dos seus desafetos preferidos, o estadista inglês Winston Churchill, um convite para a estreia da sua nova peça: “Venha e traga um amigo, se tiver”. Churchill respondeu com um bilhete: “Infelizmente, não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver”.

Essa refinada troca de farpas é um dos muitos casos evocados pelo historiador brasileiro Leandro Karnal no seu novo livro, “A detração: breve ensaio sobre o maldizer”. Em poucas páginas, ele explora a fascinação humana por falar mal dos outros, dos insultos literários (como os que Churchill e Shaw adoravam) à fofoca mais cruel, das campanhas políticas aos linchamentos virtuais. Karnal enumera histórias, desde a Bíblia até as redes sociais, para mostrar que a detração existe em várias formas. “Ela é política, é pessoal, é psicanalítica e é cultural”, diz.

“Com a internet e o anonimato possível, a fofoca ficou mais segura e mais forte. Ela ocupa a maior parte do fluxo da internet e sem ela quase não haveria troca de mensagens nos celulares” — brinca o professor de História na Unicamp. “Mas a detração é universal e está acima da luta de classes. Ela é apartidária e não faz distinção de credos. A detração é o ar que a Humanidade respira nas sacristias e nos prostíbulos, no metro, no autocarro, nas salas confortáveis de espera e nas reuniões ministeriais.

BRASIL, TERRA DA FOFOCA

Karnal encontra a origem da maledicência na necessidade humana de demarcar rivais e estabelecer alianças. Ela também funciona como “válvula de escape”, comenta. Na sociedade brasileira, onde as dimensões pública e privada frequentemente se misturam, a detração encontra terreno fértil, diz o historiador.

“O brasileiro é descrito como passional pelos viajantes estrangeiros, densamente compilados por Sérgio Buarque de Holanda. Um inglês não entende o motivo de ter de fazer amigos para fazer negócios no Brasil. Mas essa passionalidade implica também dizer que temos um interesse pessoal na vida alheia, porque a nossa maneira de dialogar com a sociedade passa pelo pessoal. Nesse sentido, sim, somos muito fofoqueiros”.

Para Karnal, uma das consequências disso é o nível do debate político no país, onde “campanhas políticas são fruto de um esforço técnico altamente sofisticado com um conteúdo imensamente arcaico”. Um dos capítulos do ensaio é dedicado à “detração política”, descrita como “moeda comum” entre candidatos e eleitores.

“Discutimos pouco ideias, discutimos muito vida pessoal. Nosso interesse é maior na vida do que nas propostas do candidato. Comentários sobre sua família, sobre a beleza de uma esposa ou inexistência de uma, sobre a vida dos filhos, são comuns. O irrelevante assume imenso destaque no Brasil. Sinal ainda da imaturidade da nossa política e da juventude da nossa democracia, a fofoca guia mais as urnas do que o ideário político”.

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