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Donald Trump, candidato republicano à Presidência dos EUA(Chris Keane/Reuters)

O USA Today é o último de uma longa lista de jornais que violaram as suas próprias regras nesta eleição. Após 34 anos de tradição de nunca tomar partido por um candidato à presidência, o jornal publicou um editorial no qual não dá um respaldo oficial a Hillary Clinton, mas rejeita, por unanimidade, Donald Trump, a quem considera “um demagogo perigoso”.

“Nunca tínhamos visto razão para mudar. Até agora”, diz o artigo. “Este ano, a decisão não é entre dois candidatos preparados e que possuem diferenças ideológicas importantes. Este ano, um dos candidatos – o republicano Donald Trump –, por consenso unânime do conselho editorial, não é apto para a presidência”.

Trata-se do último dos grandes jornais de referência dos Estados Unidos que pronuncia a sua rejeição ao candidato republicano. Trump não conta, nesta campanha, nem com o respaldo dos jornais que durante décadas apoiam os candidatos do Partido Republicano. Os jornais Arizona Republic, Cincinnati Enquirer, Dallas Morning News e Houston Chronicle do Texas,Richmond Times-Dispatch de Virginia, Tulsa World de Oklahoma e New Hampshire Union-Leader também quebraram a tradição e optaram pela candidata democrata, Hillary Clinton. Enquanto ela conta com uma dúzia de jornais a favor da sua candidatura, a quarenta dias da eleição Trump tem apenas um, o conservador The National Enquirer, três a menos que o candidato libertário Gary Johnson.

O USA Today afirma que o editorial não deve ser interpretado como um respaldo literal à candidatura de Clinton – que não poderá adicioná-los à sua lista de “endorsements” – porque têm “reservas” sobre a sua aposta. Mas num gesto tão transparente nas suas intenções quanto incomum, pede que as pessoas “resistam ao canto de sereia de um perigoso demagogo” e “votem, custe o que custar, mas não em Donald Trump”.

O editorial afirma que, apesar de terem criticado anteriormente o candidato, o fato de que já tenha começado o processo de votação antecipada em vários estados fez com que deixassem de lado a tradição. Seu principal argumento é que o empresário demonstrou durante a campanha que “não tem o caráter, o conhecimento, a constância e a honestidade” que o país precisa dos seus presidentes.

Os membros do conselho reservam o tom mais duro para acusar Trump de “trair os compromissos fundamentais” que mantiveram todos os presidentes dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial: apoio aos aliados da OTAN, oposição às agressões russas “e a certeza absoluta de que os EUA vão pagar as suas dívidas”.

O candidato republicano, acrescentam, “expressou uma preocupante admiração por líderes autoritários e pouco respeito às proteções constitucionais”, em referência às suas declarações sobre Vladimir Putin e suas dúvidas sobre a independência de juízes que pronunciaram sentenças desfavoráveis ao empresário.

Para que não haja nenhuma dúvida dos argumentos que levaram o jornal a tomar essa decisão, também publicaram uma lista que explica por que acham que Trump é “errático”, “não está preparado para ser comandante-em-chefe”, “trafica com preconceitos”, “sua carreira empresarial está cheia de altos e baixos”, “não está sendo justo com os cidadãos” porque não tornou pública suas declarações de impostos, “fala sem cuidado”, “embruteceu o diálogo nacional” e “é um mentiroso serial”.

Quais são os exemplos que levaram o USA Today a esta conclusão? Também explicam: “tentar determinar qual é sua verdadeira posição em vários assuntos é como tentar atirar num alvo em movimento”, “suas ideias sobre política externa vão de desinformadas a incoerentes”, “construiu a sua campanha baseando-se no racismo e na xenofobia”, “esteve envolvido em milhares de processos nas três últimas décadas”, “é difícil imaginar comentários mais irresponsáveis” do que quando convidou a Rússia para interferir nas eleições, “está numa categoria própria quando medimos a qualidade e a quantidade de suas mentiras” e, se alguém tinha imaginado que um candidato presidencial iria fazer um comentário sobre seus órgãos genitais num debate, “nós também não”.

“Nosso conselho é este: atuem de acordo com suas convicções”, conclui o editorial, reiterando na última linha: “simplesmente não votem em Donald Trump”.

Fonte: El Pais (Brasil)

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