Em qualquer ranking das cem pessoas mais conhecidas do mundo, a profissão com maior presença seria a de jogador de futebol. De longe.

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James Rodríguez, durante um treino do Madrid/ JUAN CARLOS HIDALGO EFE

Alguns concorrentes até poderiam existir, como Obama, os Clinton, Putin, o Papa, a rainha da Inglaterra e alguns atores de Hollywood (Brad e Angelina, por exemplo, me vem à mente). Mas ninguém disputaria os dois primeiros lugares com Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. E pelo menos a metade dos outros cem seria ocupada por jogadores ou técnicos de futebol, a começar por celebridades que estariam no Top Dez, como Neymar, Mourinho e Guardiola. Na lista também entraria o meio-campista do Real Madrid James Rodríguez, que é, por sua vez, a figura mais conhecida e admirada no seu país natal, a Colômbia.

Depois de horas e horas a vê-las nas nossas telas de televisão e lendo sobre elas nos jornais e revistas, sabemos muita coisa sobre essas celebridades do futebol, suas qualidades e deficiências em campo, sua capacidade de articulação verbal, seu senso de humor, suas disputas no vestiário e sua vida privada. O curioso é que, quase sem exceção, não conhecemos nada sobre suas opiniões políticas. Messi e Cristiano são mais de esquerda ou de direita? Não temos a menor ideia.

Os jogadores de futebol silenciaram em alguns momentos por mera ignorância, em outros por falta de convicção, em todos por dinheiro. Se viessem a ofender um determinado setor da população por se declararem a favor de uma certa posição política, colocariam em risco as vendas de camisetas da Nike ou da Adidas em algum setor da população mundial, poriam em risco a sua credibilidade na hora de fazer publicidade para um automóvel, um refrigerante, um perfume ou para o Kentucky Fried Chicken.

Dá para entender.

Outra coisa é um jogador silenciar quando o que está em jogo não é o resultado de uma eleição geral, mas sim o destino do país onde nasceu. É o caso, hoje, de James Rodríguez. A 2 de outubro, será realizado aqui na Colômbia o plebiscito para decidir se o acordo com as guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) para pôr um fim a meio século de guerra será aplicado ou não. Se o “não” for vitorioso, quatro anos de negociações irão por água abaixo. E voltarão os assassinatos e sequestros, o terror e os confrontos militares.

Por incrível que pareça, o resultado não é dado como certo. Há muitas pessoas, lideradas pelo populista ex-presidente Álvaro Uribe, que preferem se prender e afundar no lodo dos rancores do passado, como no eterno conflito entre Israel e Palestina, a agarrar a oportunidade única que se apresenta para um futuro de paz. Uribe, uma versão mais cerebral de Donald Trump, mas tão vaidosa e embusteira como ele, tem arrastado multidões. James também.

Houve tentativas por parte da campanha pelo “sim” de recrutar James para a causa. Até o momento, ele não se posicionou. Em contrapartida, o ciclista Nairo Quintana, vencedor da última Volta da Espanha, assumiu. Nairo, que vem de uma família rural e mais humilde do que a de James, é o outro grande herói do desporto na Colômbia. Hesitou por algum tempo, mas finalmente, neste mês, se declarou a favor dos acordos.

Não há dúvida de que, se o astro do Real Madrid seguir o exemplo de Nairo, o resultado do plebiscito deixará de ser uma interrogação. O “sim” arrasaria no plebiscito. James tem ainda uma semana para fazer um gesto de maior coragem por seu país do que qualquer outro troféu que possa conquistar, inclusive a Taça do Mundo; ele tem uma semana para mostrar se o seu interesse pelo dinheiro é maior do que o bem comum dos colombianos, se é um cobarde ou um valente.

O cenário ideal seria o seguinte: James faz um golo para o Real Madrid entre hoje e a noite do domingo 2 de outubro, tira a camiseta do clube e mostra para o mundo inteiro uma outra, embaixo, com as palavras: “Sim à Paz”. Seria, de longe, o golo mais importante da sua vida. Seria a sua chance de entrar para a história não apenas como um grande futebolista, mas também como um grande homem.

Por John Carlin, in El Pais

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