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Tradução da legenda: 1. Pessoas que amam os arranha-céus. 2. Pessoas que não podem construir hotéis. 3. O mundo de Donald (o empresário tem seis complexos residenciais na Coreia do Sul, três deles se chamam ‘Trump World’). 4. Mensageiros de hotel. 5. Minas para anéis de noivado/Cortesia Yanko Tsvetkov

Desde o começo da sua campanha presidencial em 2015, o norte-americano Donald Trump proferiu declarações escandalosas sobre vários assuntos internacionais. As mais polémicas foram contra o México e os mexicanos, que a sua recente visita ao país não suavizou. O seu desejo de deportar os muçulmanos dos Estados Unidos também gerou muita indignação a nível mundial. Os seus comentários pouco diplomáticos sobre os assuntos de carácter internacional dão dicas muito claras sobre a sua visão de mundo.
Yanko Tsvetkov, um ilustrador búlgaro, criou um mapa do mundo (que reproduzimos com a sua permissão) com uma divisão política do mundo de acordo com a visão do magnata. Estas são as declarações e as acções de Trump que inspiraram os principais pontos no mapa.

Canada = Fraquinhos. Trump nunca disse isso sobre os canadianos, mas também nunca falou bem do país. No começo de 2016, disse que uma vez eleito pensava em acabar com o Tratado de Livre Comércio com este país e o México porque é um “tratado inútil”. Muitos norte-americanos, incluindo celebridades como Lena Dunham e Whoopi Goldberg, pensaram em mudar-se para o Canadá se Trump se tornar presidente. Quando a imprensa perguntou ao candidato o que ele pensava a respeito, disse: “Adoraria que isso se tornasse realidade e que fossem embora. Agora tenho ainda mais motivos para ganhar”.

Estados Unidos = Trump. Acreditamos que este não precisa de explicações.

México = Estupradores. O candidato disse isso quando anunciou a sua candidatura em junho de 2015: “O México está a enviar pessoas que têm muitos problemas, está a enviar-nos os seus problemas, drogas, estupradores, e acredito que alguns sejam boas pessoas, mas eu falo com agentes da fronteira e contam-me o que acontece”.

América do Sul = Um viveiro para o concurso de Miss Universo. O empresário foi dono da competição de 1996 a 2015. Após os seus polémicos comentários sobre os imigrantes mexicanos, as redes de televisão Univisión e NBC suspenderam os seus contratos de transmissão da disputa. Em setembro desse ano, Trump vendeu as suas ações do concurso de Miss Universo. As concorrentes de sete países da América do Sul ganharam um total de 14 títulos na história da disputa. É a região com mais coroas.

No meio do Oceano Atlântico = Uma fortaleza contra os muçulmanos (construídas pelos pais fundadores dos Estados Unidos). Dois dias depois do atentado em San Bernardino (Califórnia), o candidato anunciou uma proposta para bloquear o acesso dos muçulmanos aos Estados Unidos, “até que os nossos representantes saibam o que fazer com eles”, disse. “Acredito que o Islão nos odeia (ao Ocidente)”, comentou o candidato numa entrevista com Anderson Cooper da CNN em março de 2016.

Europa Ocidental = A nova Meca. Trump afirmou numa entrevista ao jornal britânico The Times em junho que a imigração de refugiados sírios à Europa causará “o colapso da União Europeia”, e acrescentou: “Em 10 anos será completamente irreconhecível”. Um ano antes, Trump disse isso sobre os refugiados num programa da CBS: “Isso poderá ser o maior Cavalo de Troia jamais visto. O Cavalo de Troia original não seria nada em comparação se muitas dessas pessoas forem membros do Estado Islâmico”.

Rússia = Exterminadores do Estado Islâmico. Em abril de 2016, Trump publicou no seu site as suas propostas para acabar com o terrorismo. Uma delas é uma aliança com a Rússia e Vladimir Putin para acabar com o EI. “Nem sempre podemos escolher os nossos amigos, mas nunca podemos nos enganar ao reconhecer os nossos inimigos”.

África do Norte e Médio Oriente = terroristas. Algo que o candidato disse em mais de um discurso e entrevistas é que antes da Administração de Barack Obama (com Hillary Clinton como Secretária de Estado), o Médio Oriente era “um oásis de estabilidade”. O actual Governo norte-americano, segundo o candidato, ajudou o EI a transformá-lo numa região de terrorismo.

África Central = o lar de Obama. Em 2011, Trump começou uma campanha para exigir que o presidente mostrasse a sua certidão de nascimento, pois ele e outros republicanos afirmam que não é um cidadão norte-americano. Essas suspeitas são baseadas na nacionalidade queniana do seu pai. Nesse mesmo ano, a Casa Branca divulgou uma cópia da certidão de nascimento do presidente demonstrando que ele nasceu em Honolulu, Havaí.

China = Especialista em muros. Isso tem mais a ver com o México do que com a China. Tsvetkov imagina que Trump se inspirou na Grande Muralha da China construída pela Dinastia Ming no século VI a.C. para se defender dos hunos (por isso a Mongólia, onde viviam, seria a Ásia Mexicana). Uma das propostas do republicano para resolver a situação da imigração ilegal aos Estados Unidos é construir um enorme muro fronteiriço e fazer com que o México pague por ele. Na sua recente visita ao país, Trump disse que não havia discutido com o presidente Enrique Peña Nieto sobre o financiamento do projecto. Horas depois, num evento no Arizona, afirmou que será o México a pagar por ele. Essa contradição, vista pelos mexicanos como um insulto, gerou uma crise para o Governo Federal.

“Fiquei muito surpreso com o convite a Trump para que visitasse o México”, diz Tsvetkov ao EL PAÍS por e-mail. “Sabendo como o seu comportamento é desrespeitoso e incoerente, a minha única expectativa era que humilhasse o seu anfitrião e utilizasse a visita para a sua propaganda xenofóbica. Não entendo como o México não chegou à mesma conclusão”.

O mundo segundo Donald Trump é a mais recente aquisição à série Atlas of Prejudice (Atlas do Preconceito) que o ilustrador e cartógrafo realiza desde 2009. A colecção inclui mais de 100 mapas do mundo, da Europa e Estados Unidos com divisões políticas baseadas nos estereótipos de certas nacionalidades e regiões. Tsvetkov publicou versões do Atlas em seis idiomas e vendeu mais de 100.000 cópias desde 2009.

O ilustrador diz que criou o mapa baseado na visão de Trump quando este propôs proibir o acesso aos Estados Unidos a todos os muçulmanos no final de 2015. “Não conseguia parar de rir, não porque o assunto não seja grave, mas porque não podia acreditar que alguém tivesse tal ideia”. Tsvetkov também se surpreende com o facto de que após essa declaração e comentários de Trump sobre o México, o empresário tenha se transformado no candidato presidencial republicano. “Esperava que as pessoas se dessem conta de quem ele realmente é: alguém que não é capaz de liderar um país, muito menos uma superpotência”.

Por Mónica Cruz, El Pais Brasil

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