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Graça Machel, presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC)

A activista Graça Machel defendeu nesta quarta-feira em Maputo que se Moçambique tivesse persistido na postura dialogante do antigo Presidente da República Joaquim Chissano o país teria conseguido manter a paz. “Se nós tivéssemos persistido nos princípios e na maneira dialogante que caracterizou a liderança do Presidente Chissano provavelmente não teríamos este atual conflito”, afirmou Graça Machel, falando durante um seminário organizado pelo Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI) em Maputo.

Graça Machel disse que o conflito político e militar que opõe o Governo moçambicano e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido de oposição, tem origem na adoção de uma postura pouco tolerante e fechada, que marcou a governação de Armando Guebuza, que, em 2005, sucedeu a Joaquim Chissano na chefia do Estado moçambicano.

“O problema está aí e agora a ‘batata quente’ passou para as mãos de alguém que é quase da vossa geração [Filipe Nyusi, atual Presidente moçambicano],”, declarou, acrescentando que a crise política em Moçambique só pode ser ultrapassada quando as lideranças políticas ganharem “coragem de fazer o impensável”.

Para Graça Machel, Moçambique precisa de reinventar os seus próprios modelos, respeitando a dinâmica e as exigências de novos tempos, dentro de clima de tolerância e transparência para garantir o futuro dos moçambicanos. “Precisamos de sonhos comuns”, afirmou, observando que o discurso da luta contra a pobreza como objetivo comum dos moçambicanos está esgotado e não pode ser assumido como uma utopia comum.

“Hoje vocês têm o desafio da busca de uma paz duradoura, voltem ao espírito de Chissano, procurem encontrá-lo, este é o desafio”, reiterou, dirigindo-se a centenas de estudantes que assistiam à palestra.

Subordinada ao tema “Samora Machel: Vida, Pensamento e Obra”, a palestra de hoje enquadra-se nas celebrações do 30.º ano após a morte do primeiro Presidente de Moçambique independente e juntou, além de estudantes, pesquisadores e no campus universitário da ISRI, arredores da capital moçambicana.

A região centro de Moçambique tem sido palco de confrontos entre o braço armado da Renamo e as Forças de Defesa e Segurança e denúncias mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos das duas partes.

As autoridades moçambicanas acusam a Renamo de uma série de emboscadas nas estradas e ataques nas últimas semanas em localidades das regiões centro e norte, atingindo postos policiais e também assaltos a instalações civis, como centros de saúde ou alvos económicos, como comboios da empresa mineira brasileira Vale.

Alguns dos ataques foram assumidos pelo líder da oposição, Afonso Dhlakama, que os justificou com o argumento de dispersar as Forças de Defesa e Segurança, acusadas de bombardear a serra da Gorongosa.

Na segunda-feira, o Governo e a Renamo retomaram as negociações de paz, após cerca de três semanas de interregno, a pedido dos mediadores internacionais, mas à saída do encontro não prestaram declarações à imprensa. A Renamo exige governar em seis províncias onde reivindica vitória nas eleições gerais de 2014, acusando a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder há mais de 40 anos) de ter cometido fraude no escrutínio.

Fonte: Lusa

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