Jean Ping foi cunhado de Ali Bongo, ministro do pai deste, Omar Bongo, mas rompeu com o clã e agora alega ser ele o vencedor legítimo das eleições presidenciais de há uma semana.

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Jean Ping, candidato da oposição no Gabão, na sua sede de campanha, antes de esta ser atacada | REUTERS/GERAUDS WILFRIED OBANGOME

“O presidente sou eu”, declarou Jean Ping na sexta-feira à noite, depois de andar há dois dias a contestar os resultados das eleições presidenciais no Gabão. Estes deram a vitória a Ali Bongo, o atual chefe do Estado no poder desde 2009. Sucedeu ao pai, Omar Bongo, que durante 42 anos liderou os destinos deste Estado da África Central. O país mergulhou no caos desde a passada quarta-feira, quando a Comissão Eleitoral anunciou que Bongo venceu Ping, com 49,8% dos votos contra 48,23%. E os apelos à calma e à verificação dos resultados não têm parado por parte da oposição gabonesa e por parte da comunidade internacional. Mas quem é o político afro-chinês que agora, aos 73 anos, resolveu desafiar a família Bongo no Gabão?

Jean Ping nasceu em Ombué, cidade da lagoa Fernand Vaz, que fica situada a sul de Porto-Gentil. O seu pai, Cheng Zhiping, era um chinês oriundo de Wenzhou, que chegou a França nos anos 1930. Aí trabalhou numa fábrica de bicicletas, seguindo depois para o Gabão, onde começou a trabalhar na área da exploração florestal. Aí casou com a gabonesa Germaine Anina. Da união nasceu Jean Ping a 24 de novembro de 1942. Encorajado pela mãe, fez os seus estudos em França, sendo doutorado em Ciências Económicas pela conceituada Universidade da Sorbonne. Foi em solo francês que iniciou a sua carreira internacional como funcionário da Unesco em Paris, tendo sido, entre os anos 1978 e 1984, delegado permanente do Gabão, antes de regressar ao seu país natal.

Apesar de hoje se opor a um membro do clã Bongo, a verdade é que Jean Ping serviu, muitos anos, essa mesma família e até chegou a fazer parte dela. Nos anos 1990 foi casado com Pascaline Bongo, a filha mais velha de Omar Bongo. O casal teve dois filhos. Ping casou ainda mais duas vezes, primeiro com Marie-Madeleine Liane e depois com Jeanne-Thérése, tendo ao todo oito filhos. Entre 1990 e 2008 foi ministro de Omar Bongo nas mais diversas pastas, das Telecomunicações, à Energia, passando pelos Negócios Estrangeiros. Em 2004 foi escolhido para 59.º presidente da Assembleia Geral da ONU e, quatro anos depois, foi eleito à primeira volta presidente da Comissão da União Africana. Durante os anos em que ocupou o cargo, até outubro de 2012, foi por exemplo o interlocutor de Durão Barroso quando este era presidente da Comissão Europeia.

Ao serviço da União Africana mediou, por exemplo, a crise que irrompeu na Costa do Marfim em novembro de 2010, quando os dois candidatos às presidenciais, Laurent Gbagbo e Alassane Ouattara, se proclamaram vencedores. Tal como acontece agora no Gabão. No caso da Costa do Marfim, Gbagbo acabou preso em 2011 e enviado nesse ano para o Tribunal Penal Internacional de Haia. No caso do Gabão, ainda está para se ver como tudo vai terminar. Numa altura em que acusa Ali Bongo de fraude eleitoral e manipulação, Ping vê-se constrangido com a divulgação de conversas telefónicas entre si e o assessor do presidente Ouattara, Mamadi Diané, que não só o aconselha a recorrer a piratas informáticos para difundir falsos rumores e para piratear dados do governo gabonês, como lhe sugere que provoque a demissão dos membros da Comissão Eleitoral. Diané negou as acusações, mas acabou demitido do gabinete do presidente marfinense. Falta saber o que acontecerá a Ping.

No momento presente não parece disposto a abandonar as suas acusações contra Ali Bongo, na esperança de poder contar com o apoio da França (ou pelo menos de uma parte da classe política daquela antiga potência colonial), mas também da UE e dos EUA, que já pediram a verificação e publicação dos resultados das eleições presidenciais de há uma semana. A chefe da diplomacia europeia, a italiana Federica Mogherini, considerou que a confiança nos resultados “não pode ser restaurada sem que haja uma verificação transparente em cada assembleia de voto”. O mesmo exigiram os EUA. Do lado africano, porém, há silêncio, com a maioria dos líderes dos países do continente a continuarem sem se pronunciar sobre a crise. A única voz que se fez ouvir foi a da União Africana, que apelou à calma e à estabilidade do país. O Gabão tem cerca de dois milhões de habitantes e é rico em petróleo. A queda das receitas petrolíferas explica, em parte, algum descontentamento da população em relação ao regime de Ali Bongo.

Desde quarta-feira, dia em que foram anunciados os resultados que dão aos dois candidatos uma diferença de 5594 votos, o Parlamento do Gabão foi incendiado por opositores de Bongo, a sede de campanha de Ping foi tomada de assalto pelas forças de segurança gabonesas, vários apoiantes da oposição foram detidos, houve pilhagens de lojas, episódios de violência e sete mortos. “Estes não são protestos mas atos coordenados com o propósito de semear o medo entre os cidadãos que eles consideram que votaram de forma errada”, afirmou, em comunicado, o gabinete de Bongo. Ping argumenta: “A oposição ganha sempre as eleições mas nunca chega ao poder por causa dos mesmos procedimentos que são usados pela família que há 50 anos confisca o poder”. Resta saber quem acabará por sair vencedor desta disputa e como.

Fonte: dn.pt

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