Dilma_rousseff_alvorada_2016_setembro

Dilma no Palácio da Alvorada/Foto Mario Tama (Getty Images)

Enquanto no Congresso Nacional um tapete vermelho era desenrolado para receber Michel Temer para a posse, do outro lado de Brasília Dilma Rousseff descia por uma rampa coberta por outro tapete vermelho. Ela dirigia-se ao púlpito, de onde diria as suas primeiras palavras oficiais como ex-presidente do Brasil. Não parecia em nada abatida e vinha cercada de apoiantes, à excepção de Luiz Inácio Lula da Silva, que preferiu observar tudo de longe e sumiu por um corredor assim que ela se despediu.

“Não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles”, sentenciou, ao citar o antropólogo Darcy Ribeiro. Rousseff embargou a voz num único momento: ao se despedir. Afirmou que não diria “adeus”, mas “até daqui a pouco”. E clamou que os progressistas, não importa o partido, se unam para fazer a mais “incansável e energética oposição que um Governo golpista pode sofrer”. Militantes de movimentos sociais que a assistiam de perto choravam. “Saio da presidência como entrei: sem ter incorrido em qualquer acto ilícito; sem ter traído qualquer dos meus compromissos; com dignidade e carregando no peito o mesmo amor e admiração pelas brasileiras e brasileiros e a mesma vontade de continuar a lutar pelo Brasil”, afirmou.

Rousseff acompanhou a sessão final do seu julgamento no Alvorada, sua residência pelos cinco anos e seis meses que dirigiu o país. Estava ao lado de ex-ministros e do próprio ex-presidente, que durante toda essa recta final do processo se mostrou em público extremamente abatido. Lula tentou, nos últimos dias, convencer senadores a mudarem de posição, mas já sabia desde a tarde da última segunda-feira que a derrota seria irreversível, quando numa reunião escutou do senador do PMDB Edson Lobão, ex-ministro de Rousseff, que os três parlamentares do seu Estado haviam decidido votar em bloco. E que o voto seria para Temer. Naquele mesmo dia, Rousseff compreendia que tudo estava perdido.

Os seus aliados, então, reforçaram uma estratégia que costuravam há semanas e que, ao menos, trouxe à ex-presidente uma vitória: numa votação em separado, ela conseguiu manter o direito de ocupar cargos públicos, algo que perderia por oito anos. Coube à senadora do PMDB Katia Abreu, amiga de Rousseff, o apelo aos colegas: “A presidente Dilma me autorizou a dizer que já fez as contas da sua aposentadoria (…) Ela vai se aposentar com cerca de 5.000 reais. Então, ela precisa continuar a trabalhar para poder suprir as suas necessidades”, afirmou. Como presidente, o salário de Rousseff era de 22.883 reais líquidos e R$ 30.934 brutos.

Ao escutarem a decisão dos senadores, uma centena de militantes de movimentos sociais que acompanhavam a votação -numa tela gigante improvisada com uma folha de papel e um projector- não comemoraram. Viram na decisão dos 36 senadores que concederam o direito a ela apenas mais um sinal do que classificam como “golpe”. “Isso só mostra que o que eles queriam mesmo era tirar ela de lá”, afirmavam vários ao mesmo tempo. “Não tinha nada contra ela!”, indignavam-se.

Dilma Rousseff deixa a presidência sem nenhuma fonte de renda. Ela é lotada num cargo público numa autarquia de estatística no Rio Grande do Sul, mas não deve reassumir o cargo. Dará entrada no pedido de aposentadoria, que pode demorar a sair. Nas eleições de 2014, ela declarou um patrimônio de 1,75 milhão de reais em bens, sendo 152.000 que guarda consigo em espécie (hábito que adquiriu na época da ditadura militar) e uma poupança de 130.000 reais na Caixa Econômica Federal. Possui ainda 72.000 reais em joias, três lotes e quatro imóveis em Porto Alegre, o de maior valor avaliado em 290.000 reais. Deixa para trás um séquito de funcionários e terá, à disposição, uma equipa de seis servidores (incluindo seguranças) e dois motoristas, com veículos.

“Esta história não acaba assim. Estou certa que a interrupção deste processo pelo golpe de estado não é definitiva. Nós voltaremos. Voltaremos para continuar a nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano”, ressaltou ela no seu discurso. “Eu vivi a minha verdade. Dei o melhor de minha capacidade. Não fugi das minhas responsabilidades. Emocionei-me com o sofrimento humano, me comovi na luta contra a miséria e a fome, combati a desigualdade”, destacou. E, após citar o poeta russo Maiakovski, subiu novamente a rampa vermelha para voltar ao palácio, que deixará em até 30 dias:

Não estamos alegres, é certo,

Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado

As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,

Rompê-las ao meio,

Cortando-as como uma quilha corta as ondas

Fonte: El Pais Brasil

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