Brasil_congresso_2016

Dilma sentar-se-á à esquerda de Lewandowski na mesa principal/Cadu Gomes (EFE)

Quando Dilma Rousseff cruzar o salão de carpetes azuis do Senado Federal na manhã desta segunda-feira estará a minutos de encarar, de uma só vez, todos os seus 81 julgadores. Será a primeira vez nesses 271 dias de investigação no Congresso que a presidente afastada se defenderá pessoalmente das acusações de que cometeu crime de responsabilidade fiscal. E também a última chance que ela terá para convencer alguns poucos senadores indecisos de que merece ficar no cargo. Este será o ponto alto do histórico julgamento da chefe de Estado.

Rousseff entrará no Congresso acompanhada de uma comitiva de 20 pessoas, formada pelos ex-ministros e congressistas que permaneceram ao seu lado mesmo após o seu afastamento, em 12 de maio, e que participaram activamente da sua preparação. Ela se sentará na mesa da presidência duas cadeiras à esquerda do ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que comanda o júri. E por 30 minutos – que podem marcar o seu último discurso como presidente do Brasil – trará uma fala “emocionante”, garantem os seus apoiantes, com o objectivo de reverter ao menos os seis votos que precisa para ser inocentada do crime de responsabilidade fiscal.

José Eduardo Cardozo, seu advogado e ex-ministro da Justiça, afirma que ela privilegiará no seu discurso mais os aspectos políticos do que jurídicos, debatidos à exaustão nos três dias iniciais de julgamento. Os seus apoiantes pretendem ainda explorar o simbolismo de tê-la, mais uma vez, questionada por pessoas que, segundo dizem eles, atentam contra a democracia, como aconteceu quando Rousseff foi presa e torturada na ditadura militar (1964-1985). “Ela é vítima novamente, como na juventude, quando enfrentou a ditadura para lutar pela reconquista da democracia no país”, afirma a senadora petista Fátima Bezerra.

No bunker que se transformou o Palácio da Alvorada nos três últimos meses, Rousseff esteve cercada de Aloizio Mercadante, Jacques Vagner, Miguel Rossetto, Ricardo Berzoini e Eleonora Menicucci, que ao lado dos senadores Kátia Abreu – uma das mais empenhadas na sua defesa no Congresso Nacional – e de Armando Monteiro formam a equipa de ex-ministros que a auxiliaram com os dados das suas pastas. Com a munição deles, ela apresentará a defesa do seu Governo e da decisão de remanejar o Orçamento para não prejudicar áreas importantes para a população. Os mesmos senadores que a prepararam são os que formularão as questões que ela responderá. Numa metáfora desportiva, os parlamentares levantarão a bola para ela cortar.

No grupo que a acompanhará ao Senado estará ainda o seu padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, que anunciou apenas nesta semana que, finalmente, iria a Brasília para presenciar a defesa e participará nos dois actos, um antes e outro depois do discurso dela. Estará acompanhado ainda de Rui Falcão, presidente do directório nacional do Partido dos Trabalhadores, que representará a legenda que a elegeu mas que, na semana passada, se descolou dela ao rejeitar oficialmente a ideia de um plebiscito para novas eleições presidenciais, caso Rousseff volte ao poder.

Para aliados, o aceno de um acordo com senadores aconteceu tarde demais. E, se em três meses, ela não conseguiu os 28 votos necessários para impedir a sua perda de mandato, dificilmente conseguiria os 49 votos dos senadores para aprovar a mudança na Constituição Federal que permitiria encurtar o mandato presidencial por meio de uma consulta popular. Isso sem contar o apoio de 308 dos 513 deputados federais brasileiros.

Segundo os seus apoiantes, Rousseff estará pronta para responder, caso seja preciso, aos senadores. Após a sua fala inicial, cada um deles terá até cinco minutos para, pela primeira vez, questionar uma presidente da República que, durante todo o seu mandato, evitou o quanto pode falar com os parlamentares. Essa falta de tacto com colegas políticos, aliás, é apontada como uma das razões para a sua iminente queda.

Os senadores de acusação, entretanto, afirmam que vão preferir se manter em silêncio. A estratégia deles é encurtar o tempo do julgamento e não dar munição aos petistas que propagam a tese de que o Governo está a sofrer um golpe parlamentar. “Ela já falou muito na campanha [eleitoral de 2014], já falou muito enquanto governou e nada mudou. Ela será julgada pelo crime de responsabilidade, não pelo seu discurso”, afirmou o senador Álvaro Dias, do PV, logo no começo do julgamento. A falta de perguntas dos seus opositores será um gesto, talvez simbólico, para dizer que os argumentos já não importam mais. Eles já tomaram a decisão.

Fonte: El Pais Brasil

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