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Neli Gomes

Neli Gomes, doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná, está pesquisando como brasileiros e moçambicanos da capital cuidam do cabelo crespo. E não só. Também tem feito um estudo sólido sobre a relação entre o cabelo e a identidade negra. Para isso, Neli decidiu passar um mês em Maputo.

Na capital de Moçambique, como parte da sua tese de doutorado, ela acompanhou o trabalho que é feito em três salões de beleza e conversou muito com cabeleireiros e clientes. Neli, que também é educadora em Relações Raciais, Mídia e Estética Negra, diz o quanto é importante assumir a identidade, como forma de manter-se firme na luta contra a discriminação.

“Do jeito que eu estou hoje aqui, na entrevista, estou com o cabelo muito próximo à imagem de Angela Davis nos anos 60, 70, que é o black power. Se eu chegar para procurar emprego em qualquer lugar no Brasil, a primeira orientação é que eu alise o cabelo, senão a vaga não será minha. Já passei por essa situação não uma, nem duas, nem três vezes”, revela. “Essa é a última dimensão do colonialismo, impedir que o nosso corpo se expresse, e isso quer dizer afetar a nossa essência através da aparência. Aqui em Maputo eu posso ir a uma festa de casamento de black power sem qualquer problema”, revela.

A pressão dentro das salas de aula

A doutoranda em Sociologia também ressalta o que tem acontecido em salas de aula, com base nos relatos que tem colhido durante a pesquisa e nas próprias vivências. “Nas escolas, aqui e no Brasil, há uma pressão para que o cabelo esteja adequado ao ambiente, ele não tem que estar muito volumoso. É quase uma ofensa porque ele é volumoso por natureza”, declara.

“Então, por exemplo, num espaço de universidade, no Brasil, onde tem uma maior presença de alunos negros nos espaços da universidade, como é o meu caso, de professores que falam ‘Não sentem atrás da aluna de black power porque vocês vão aprender menos, porque o cabelo dela está tapando a visão’. Isso acontece de forma rotineira nos espaços universitários. Imagine nos espaços escolares”, explica Neli.

Ainda numa referência à identidade negra, a brasileira cita um trecho do poema “Cabelos que negros”, do poeta gaúcho Oliveira Silveira: “Cabelo bom que dizem que é ruim, e que normal, ao natural, fica bem em mim, fica até o fim, porque eu quero, porque eu gosto, porque sim.”

Fonte: Fábia Belém, Correspondente da RFI em Moçambique

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