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Woody Allen durante a rodagem de ‘Café Society’

Woody Allen tinha cinco anos quando começou a pensar na morte. “Minha mãe não sabe o que aconteceu comigo”, diz o director nova-iorquino movendo a cabeça, sentado na borda de uma cadeira no Hotel Martinez, em Cannes. “Era um menino muito doce nos primeiros cinco anos da minha vida e, de repente, aconteceu algo que me tornou negativo. Acredito que, com a idade, as pessoas são conscientes da morte e percebem que tudo vai acabar”.

Esse pessimismo acompanhou-o por toda a vida, mas preferiu rir dele, na realidade e nos seus filmes, que para ele são um pouco a mesma coisa. Agora, aos 80 anos, é um pouco mais feliz na realidade e os seus filmes transmitem isso, talvez seja por essa razão que Café Society, seu 47º filme como director, seja um dos mais românticos.

“Tive uma vida melhor desde que conheci minha mulher”, reconhece. “Isso foi bom para mim e agradável, mas não fez de mim um optimista. Porque você tem a sua mulher, os seus filhos e, de repente, não estão mais aqui: e se acontecer algo com ela? E se acontecer algo às crianças? A ansiedade toma conta de mim. Vivi nos limites da feiura da existência humana. Mas tive sorte nos últimos anos, não sofri tanto. Tenho 80 e sofri 60 anos de minha vida”, admite e ri.

Esses debates existenciais e esse medo atroz da morte ele os passa aos protagonistas dos seus filmes faz anos. E Bobby, o improvável galã de Café Society, interpretado por Jesse Eisenberg, não foi poupado. “A vida é uma comédia escrita por um cômico sádico”, diz o personagem, apesar de que a vida acaba sorrindo para ele, preso no amor entre duas belas mulheres, uma na Califórnia (Kristen Stewart) e outra em Nova Iorque (Blake Lively), com o mesmo nome de femme fatale, Verônica.

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Jesse Eisenberg e Kirsten Stewart, em ‘Café Society’/Foto: Steve Sands (GC Images)

“É um filme romântico”, admite. Além disso, ele escreveu-o em forma de romance, com um narrador em off (o próprio Allen). “Não é romântico apenas por essas meninas. O personagem de Jesse é muito doce, e aquela época na Califórnia e em Nova Iorque, os anos trinta, também foi muito romântica”, diz ele com uma pitada de nostalgia, sentimento pouco frequente no nova-iorquino.

“É preciso ter cuidado com a nostalgia”, continua. “A nostalgia é uma armadilha. Pega-te. Este filme acontece nesse período de tempo. E eu, pessoalmente, sinto nostalgia por essa época. Por que me sinto nostálgico é uma loucura, pois eu não estava lá, mas só de ler sobre ela…”, diz. E de lembrar as histórias que o seu pai lhe contava. Histórias da máfia que também estão em Café Society.

Contra os directores

Naqueles anos trinta teve sucesso aquele que foi o seu modelo, Groucho Marx. Allen vê o cinema daquela época com admiração, mas nunca teria se encaixado no sistema de estúdios então existente, que também mostra em Café Society com o magnata Phil Stern (Steve Carell). “Eram ditatoriais e insensíveis com os directores. Pegavam o seu trabalho e mudavam. O director não editava o filme, não podia dizer nada sobre o roteiro, era escolhido pelos actores. Não era uma época de autores”, explica contrariado. “Eu sempre tive liberdade para fazer o que quisesse. A única coisa que se interpõe entre a grandeza e eu… sou eu”, diz rindo. “Se não posso fazer um bom filme é porque ele não está em mim”.

Quanto à sua primeira série de televisão, Crisis in Six Scenes, reconhece que a fez por dinheiro. “Eu faço filmes, nunca assisto televisão. No entanto, continuaram a aumentar o preço e não pude recusar porque era muito lucrativo”. Também achava que seria fácil, mas tornou-se o seu “maior pesadelo”. Agora respira aliviado, um mês antes da estreia na Amazon. “São seis horas e meia de pura comédia ambientada nos anos sessenta, quando pensaram que estouraria uma revolução nos EUA com o Vietnam, os hippies, os Black Panthers”, conta. “Está pronta, fiz o que pude, não queria trabalhar duro, tive que fazê-lo, e só espero que vocês gostem”.

Fonte: El Pais Brasil

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