AfricaCheck_jornalistas

Equipa da AfricaCheck/Foto Esthe Pretorius

Meados de 2003. Na Nigéria espalha-se o rumor de que a vacina da pólio provoca esterilidade. Líderes religiosos e políticos do norte do país promovem uma campanha que defende que o Ocidente está a desenvolver uma operação para limitar a população muçulmana. Alguns meios de comunicação divulgam essas denúncias, apesar de os testes demonstrarem que os supostos efeitos secundários eram falsos. A pólio estava praticamente erradicada em quase todo mundo desde 2002. Um surto no norte da Nigéria propagou-se por territórios fronteiriços. Agora diversas fontes afirmam que os nigerianos não estarão completamente a salvo da doença até 2018. “Quando a imprensa desmentiu as informações, o estrago já estava feito”, afirma a jornalista sul-africana Anim Van Wyk, directora da ONG AfricaCheck.

Em outubro de 2013, vários jornais sul-africanos, entre eles o The Times, publicaram que, a cada ano, 30.000 crianças eram vítimas do tráfico de pessoas no país. Os números levaram as autoridades a mudar as leis de imigração, estabelecendo critérios extremamente restritivos. Desta vez, o AfricaCheck desmentiu a informação dez dias depois. As estatísticas disponíveis estavam muito longe das 30.000 crianças abusadas e a origem da cifra era, na realidade, uma má interpretação das declarações de um especialista. A quantidade gera alarme e uma movimentação de recursos concretos que, no entanto, não respondem a uma situação real.

Recentemente, em abril de 2016, o Zimbabwe Today publicou uma manchete aterradora: “74% das meninas africanas entre 15 e 24 anos são soropositivas”. Uma investigação do AfricaCheck demonstrou que a afirmação era fruto de uma interpretação errônea das estatísticas. A percentagem real de africanas soropositivas com idade entre 15 e 24 anos é de 2,5%, muito longe do dado divulgado pelo jornal zimbabweano.

Esta é uma amostra dos trabalhos do AfricaCheck. A ONG dedica-se a comprovar dados e informações. Faz testes de verificação. O embrião da organização nasceu, precisamente com as informações sobre a vacina da pólio, mas a entidade só se materializou em 2012. Em 2002, o jornalista britânico Peter Cunliff-Jones estava na Nigéria e pensou numa estrutura desse tipo que desmentisse os rumores e ajudasse a cimentar as informações rigorosas nos meios de comunicação do continente. A organização que Cunliff-Jones imaginou que poderia ter minimizado o impacto dos rumores sobre a vacina da pólio tornou-se realidade com a ajuda da AFP Foundation, impulsionada por ele mesmo como director executivo e com organizações internacionais como apoio.

Nesses quatro anos, a equipa de jornalistas africanos do AfricaCheck foi conquistando espaço no panorama midiático do continente. Não só pelo prestígio que foi colhendo, como também pelo facto de que os próprios meios de comunicação consideram a ONG uma fonte confiável e divulgam as suas rectificações. A organização começou pela África do Sul, “porque a imprensa é mais livre e a informação está mais facilmente disponível que na Nigéria”, segundo Amin Van Wyk, a editora responsável pela iniciativa desde outubro de 2015. Posteriormente foi aberto um escritório no Senegal, a cargo do jornalista Assane Diagne. Outras sedes devem ser abertas num futuro próximo na Nigéria e no Quénia.

“Desde o Cairo até a Cidade do Cabo, do Senegal até o Sudão do Sul, em toda a extensão da África, as pessoas tomam decisões todos os dias, sejam grandes ou pequenas. Para isso têm de confiar na informação disponível, mas essa informação é, muitas vezes, parcial, enganosa ou simplesmente errônea”, essa é a razão de ser do AfricaCheck, segundo a sua editora. O apartheid e o genocídio no Ruanda são só dois dos exemplos de manipulação interessada e fatal da informação a que Van Wyk se refere, algo que, segundo ela mesma recorda, governos, empresas, sindicatos, ONGs e grupos de pressão fazem constantemente.

Na política, “as declarações enganosas sobre grupos minoritários causaram desde o genocídio de 1994, até os ataques xenófobos contra os imigrantes em muitos países africanos”, diz a editora. Na saúde, por outro lado, “as declarações falsas sobre as causas e tratamentos do HIV ou sobre as propriedades medicinais de alguns alimentos ou ervas provocaram contágios e mortes desnecessárias”, acrescenta, para justificar a necessidade da checagem dos factos.

Anim Van Wyk diz que o objectivo da organização não é colocar em evidência os profissionais, e sim “melhorar a exactidão do debate político, já que afecta as decisões das pessoas e influi nas leis e nas políticas dos governos.” Para a jornalista sul-africana, é fundamental que essas decisões sejam baseadas em informações correctas para evitar perdas económicas e, o que é pior, prejuízos para os cidadãos.

A lista de investigações desenvolvidas pelo AfricaCheck é ampla e diversa. A equipa já rectificou presidentes e todo tipo de autoridades, embaixadores e, sobretudo, meios de comunicação que ecoaram informações erradas ou que produziram conteúdo incorrecto. Em muitos casos, as suas correcções foram bem recebidas, ao menos formalmente, por parte da imprensa. Van Wyk recorda que o jornal sul-africano Daily Sun rectificou as referências às leis vigentes num artigo sobre a gravidez de uma menina de 12 anos. Da mesma forma, Assane Diagne, responsável pelo escritório senegalês da ONG, menciona a notícia difundida por vários jornais senegaleses sobre o número de asilados homossexuais do país na Bélgica, que também foi corrigida. Vários jornais ecoaram as modificações introduzidas pelo AfricaCheck, que demonstrava que o número inicial publicado (1.839) era muito superior ao confirmado pelas estatísticas (319).

Um dos âmbitos em que as actividades do AfricaCheck têm maior importância é justamente um dos sectores onde a informação é mais deficiente: o tratamento dado pelos jornais internacionais às realidades africanas. Diversos exemplos constam dos relatórios que a organização realizou para desmentir os artigos publicados nos principais jornais do norte do globo. “Com frequência, as informações dos jornais europeus sobre a África são pouco rigorosas e cheias de estereótipos. Por isso, muitas vezes fazemos a checagem desses dados”, diz Van Wyk. Um exemplo: a 25 de maio passado, Dia da África, o AfricaCheck publicou um artigo com uma compilação dos cinco tópicos mais destacados dos últimos meses em relação ao continente, firmado por sua pesquisadora sênior, Kate Wilkinson. Os cinco exemplos mostravam um absoluto desprezo pelas cifras e pelo rigor.

“Ouviram falar de um país chamado África? É a capital mundial do estupro. Um lugar onde não se pode beber água da torneira, os habitantes são bêbados e cresce o número de gravidez entre os adolescentes. (Com o detalhe de que nada disso é certo).” Assim começava o texto de Wilkinson.

Em meados de fevereiro, o rapper Kanye West publicou um tuíte falando da abertura de escolas na África para ajudar “o país”. West tem 24 milhões de seguidores na rede social, dos quais 10.500 retransmitiram a mensagem e 22.000 deram um “like it”. Embora a confrontação seja desigual, o AfricaCheck não desistiu de refutar o estereótipo.

“you’d rather open up one school in Africa like you really helped the country…

— KANYE WEST (@kanyewest) 15 de fevereiro de 2016”

No final de fevereiro, a BBC se perguntou: por que vem aumentando o número de casos de gravidez na adolescência? O Africacheck demonstrou que o uso das estatísticas por parte do canal público britânico tinha sido desastroso. A notícia foi corrigida diante da evidência oferecida pela organização. A BBC mudou o título porque os dados utilizados não diziam respeito à África no seu conjunto, mas somente à África do Sul.

Em 2013, a revista Time publicou uma matéria dizendo que a África tinha um problema com o alcoolismo. A revista remetia-se a cifras do Quénia e da África do Sul para apoiar a generalização, mas nem sequer nesses países a informação era correcta, como demonstrou o AfricaCheck. “A declaração ‘A África tem um problema com o alcoolismo’ revela menos sobre os hábitos de consumo na África do que sobre a percepção que a Time tem do continente”, diz Wilkinson.

O portal britânico Mail Online publicou em setembro de 2015 um atractivo infográfico enumerando os lugares do mundo em que os turistas não deveriam beber água da torneira porque não é apta para o consumo humano. Todo o continente africano estava dentro dessa categoria. Os dados para elaborar o infográfico procediam, segundo descobriu o AfricaChecks, de uma fonte que fazia recomendações sem basear-se na análise da qualidade da água.

Os lugares-comuns são um inimigo não só do jornalismo, mas também do conhecimento das realidades. O AfricaCheck deixou isso claro no caso da fórmula “capital mundial do estupro”, que nos últimos anos tem sido utilizada sem a checagem suficiente para diferentes lugares do continente, como a África do Sul e algumas regiões da República Democrática do Congo. O último exemplo aparece no The Guardian, que em maio de 2015 utilizou o controvertido título, “capital mundial do estupro”, para se referir à região congolesa de Kivu do Sul. A organização conclui que, em cada lugar do mundo, os critérios são tão diferentes que é impossível estabelecer uma classificação e fazer comparações.

A essa lista Assane Diagne, do escritório da organização em Dakar, agrega as recentes correcções de informações da Radio France Internacional, sem dúvida uma autêntica referência no âmbito da África francófona. “Uma [das informações] dizia respeito ao Parti Démocratique de Côte d’Ivoire (PDCI), apresentado como o partido político mais antigo da África, o que é falso. Outra tratava do naufrágio ocorrido em abril de 2015 em águas líbias”, diz o jornalista senegalês. Neste último caso, a RFI dizia que era o naufrágio mais letal do século XXI. A informação ignorava os 1.863 mortos em 2002 no naufrágio do Le Joola, o navio que conectava as cidades senegalesas de Dakar e Zinguinchor, entre outros desastres.

Estes são apenas alguns dos exemplos que vão construindo a imagem da África nos meios de comunicação ocidentais, ou, ao contrário, são alguns dos estereótipos que deformam as informações que os jornais do norte publicam sobre a África.

O descuido na checagem dos dados parece uma constante na cobertura das realidades africanas, de acordo com os relatórios do AfricaCheck. E para fazer boas checagens, é fundamental consultar as fontes. Em muitos relatórios da organização, bastou a referência à origem da informação para encontrar a origem do erro. Depois desse primeiro passo, os dados do artigo questionado são comparados com outros informes, estudos e pesquisas. A opinião dos especialistas é o passo final da operação para chegar à conclusão sobre se o dado é ou não correcto. Esse é o procedimento utilizado por Van Wyk e Diagne.

“Uma ferramenta como o AfricaCheck está aí para restabelecer a verdade e desmontar alguns clichês sobre a África e os africanos. Os problemas que enfrentamos referem-se a dados estatísticos, mas também a qualquer declaração imprecisa capaz de levar a um erro”, conclui Diagne. Como diz Van Wyk, além dessa fidelidade das informações é preciso que os cidadãos e os governos tenham as ferramentas necessárias para tomar as medidas adequadas, pois “a informação parcial, enganosa ou errônea pode levar a decisões desacertadas.”

Por Carlos Bajo Eroo, in El Pais

Anúncios