Divulgados oficialmente ontem, os resultados das eleições municipais dão a entender que o partido do presidente Jacob Zuma está em declínio. A paisagem política, estável desde o apartheid, poderá estar em mudança.

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Julius Malema, líder do Combatentes pela Liberdade Económica

Os resultados das eleições municipais já são oficiais. O Congresso Nacional Africano (ANC na sigla original), partido do histórico Nelson Mandela e hoje liderado pelo polémico Jacob Zuma, obteve o pior resultado eleitoral de sempre desde o apartheid. “Temos de refletir e descobrir o que aconteceu”, resume Jackson Mthembu, deputado do ANC e ex-porta voz do partido.

Mesmo tendo sido a força política mais votada a nível nacional, com 53,9% contra 26,9% da Aliança Democrática (DA), a prestação do ANC equivale a uma profunda derrota. Nunca, desde as primeiras eleições em 1994, a percentagem de votos tinha sido tão baixa. Falando de presidenciais, a força liderada por Zuma jamais descera abaixo de 62% e, a nível autárquico, desde 2000 que não caía da barreira dos 60%. Nas últimas autárquicas, em 2011, conseguira 62%.

Pior ainda: o ANC perdeu a capital Pretória e também a emblemática zona metropolitana batizada Nelson Mandela Bay, que engloba a cidade de Port Elizabeth. Menos mau: manteve o controlo em Joanesburgo, por 45% contra 38,4%.

Malema, o fiel da balança

E de repente, na África do Sul, Julius Malema, líder do partido radical de esquerda Combatentes pela Liberdade Económica (EFF), emerge como uma figura chave na paisagem política.

Perante os resultados das eleições municipais, ontem divulgados oficialmente, o ANC e a Aliança Democrática, que pela primeira vez tem um líder negro, estão obrigados a negociar coligações nos principais centros urbanos. Malema pode ser o fiel da balança e o inimigo político mais cortejado.

Ainda assim, um casamento do EFF com o ANC ou com a DA terá sempre um lado contranatura. Malema, outrora protegido de Zuma, há três anos virou as costas ao partido do presidente e hoje é um dos seus principais críticos. Recentemente referiu que Jacob Zuma está, “sem vaselina”, a “molestar” o país.

Por outro lado, a Aliança Democrática situa-se no centro-direita e historicamente é uma força política conotada com os interesses da minoria branca da população. “Seria uma aliança estranha, desconfortável para os parceiros de cama, mas, às vezes, os opostos atraem-se”, escreve Tania Page, corresponde da Al Jazeera para a África do sul.

Apesar de alguns dirigentes do partido fecharem a porta a coligações com o ANC, o líder Malema prefere deixar todas as opções em aberto. “Se alguém vier ter connosco vamos conversar. Seria uma infantilidade não o fazer”, afirmou ao reagir aos resultados.

Ainda assim, é ao ANC e particularmente a Jacob Zuma que o líder do EFF aponta as principais farpas: “Estamos felizes pelo facto de sermos os primeiros a colocar o ANC, a mais arrogante de todas as organizações, numa posição de humildade. Por nossa causa, a liderança do ANC anda a correr às voltas como uma galinha sem cabeça”.

A possibilidade de uma coligação, falando dos principais centros urbanos, deverá colocar-se em Joanesburgo, Nelson Mandela Bay e Tshwane, área que engloba Pretória.

Apesar de ter vencido na capital, com 43,1% contra 41,5% do ANC, a Aliança Democrática precisará do apoio dos deputados municipais do EFF (11,6%) para chegar à maioria. O mesmo se passa em Nelson Mandela Bay. Só somando os 5% do EFF aos seus 46,7% será possível a DA governar com estabilidade.

Em Joanesburgo, onde o EFF obteve 11%, deverá ser o ANC a estender a mão a Malema.

Na Cidade do Cabo o problema não se coloca. Nas mãos da DA desde 2006 – é a zona onde se concentra a maioria da população branca -, a vitória para o partido de centro-direita volta a ser clara: 66,7% contra 24,5% do ANC.

Não é difícil descortinar as três principais razões para o descalabro do Congresso Nacional Africano: economia estagnada, desemprego em alta (27%) e sequência de escândalos de corrupção a envolver o presidente Zuma.

Junte-se a isto o facto de a Aliança Democrática, historicamente conotada com a minoria branca, ter eleito, no ano passado, o seu primeiro líder negro, Mmusi Maimane. “Se for racista e estiver a pensar votar em nós, por favor não o faça. Não somos o partido para si”. As palavras são dele. Segundo o líder, a ideia de que a DA é para os brancos foi completamente destruída.

“Eleição após eleição, o ANC confiou na glória passada e no seu lugar no coração dos sul-africanos. Desta vez não foi suficiente”, escreve o jornal Mail & Guardian em editorial.

Para William Gume, chefe do think tank Democracy Works Foundation, citado pela Reuters, “o ANC corre o risco de tornar-se um partido eminentemente rural”.

Visto como o mais importante ato eleitoral desde as primeiras eleições após o apartheid, os analistas não têm dúvidas em interpretar os resultados como um sério aviso a Zuma. “É óbvio que terá que haver uma mudança profunda. Se acho que ela vai acontecer? Não. Estou convencido de que a situação irá piorar”, lamenta Mavuso Msimang, um veterano do ANC e líder de um grupo anticorrupção, citado pelo Washington Post.

Ontem na apresentação dos resultados, o discurso de Zuma foi interrompido. Várias manifestantes levantaram cartazes com referência a mulheres que acusaram o presidente de as ter violado.

Fonte: dn.pt

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