Renamo_homens_armados

A Renamo, principal partido da oposição moçambicana, emitiu, esta semana, dois sinais bastante perigosos no nosso modesto ponto de vista. O primeiro foi o seu boicote a constituição da comissão Parlamentar de inquérito para investigar as famosas dívidas ocultas e o segundo foi o terror que espalhou na sede distrital de Mopeia na madrugada de Sábado para Domingo. Vamos por partes.

Durante muito tempo, a Renamo pressionou em todos os sentidos para que fosse constituída uma Comissão parlamentar de Inquérito para investigar as dividas contraídas para a constituição de três empresas públicas, nomeadamente a EMATUM, a ProIndicus e MAM.

Sendo que o partido de Afonso Dhlakama está representado no Parlamento, fazia ou faz todo o sentido que a sua bancada se bata pelo esclarecimento de qualquer assunto mal parado de interesse nacional. É legitimo que assim seja. Foi por causa dessa legitimidade, que a Assembleia da Republica, no seu todo, com toda a sua soberania, decidiu por bem em formar uma comissão de inquérito para averiguar os contornos de tais dívidas.

Quando este consenso tinha sido largamente alcançado, eis que a bancada da Renamo semeia uma confusão danada no Parlamento, que culminou com o seu boicote a constituição da tal comissão de inquérito, não integrando, por enquanto, a bancada da perdiz, a referida comissão.

Argumenta a Renamo que o método adoptado pela maioria não satisfaz a sua bancada. Argumenta que deviam ter sido integrados elementos da sociedade civil, o que é uma enormidade, sabido que as comissões parlamentares de inquérito são constituídas segundo a Lei, por Deputados e nada mais.

Derrotada na sua pretensão, a bancada da Renamo não optou por seguir o principio democrático segundo o qual a maioria é que vence, e, segue em frente. Optou por boicotar, desiludindo o seu eleitorado e confundindo a nós, enquanto opinião publica.

Não é novidade que a Renamo está em minoria na AR, sendo que a bancada da Frelimo constitui maioria. Não é novidade que seguindo o principio de proporcionalidade, desde a constituição das comissões de trabalho as de inquérito parlamentar, a Frelimo terá maiorias por lá. Surpreendeu-nos, pois, que a bancada da Renamo tenha optado por boicotar, por jogar estando fora, do que em participar na sua condição de bancada minoritária na busca da verdade.

Assim, jogando de fora, fica sem nenhuma legitimidade para o que quer que seja no debate sobre as dívidas ocultas, precisamente porque no lugar e no momento certos, ela demonstrou irresponsabilidade, irracionalidade e falta mesmo de sentido de Estado. Uma grande pena. No momento crucial, a bancada não teve estratégia, não teve visão e demonstrou falta de liderança. Em resumo, não se pode confiar numa bancada assim, que brinca com assuntos sérios do Estado.

O segundo sinal perigoso emitido pela Renamo foram os ataques protagonizados pela sua milícia a sede distrital de Mopeia, na Zambézia.

Dois centros de saúde, um posto policial, dois carros incendiados, duas vítimas mortais incluindo de um recluso, vandalismo puro e roubo de medicamentos e de bens de cidadãos indefesos são o saldo desta acção que não tem outro nome que não seja de banditismo armado, no sentido de que são bandidos que recorrem a armas para fingir que estão a fazer política.

É grave o sinal de incoerência que a liderança da Renamo emite com estes ataques de puro terrorismo. Se por um lado reclama governar seis províncias para ali impor politicas de boa governação, não faz sentido nenhum o ensaio dessa governação renamista, nas zonas que diz ter ganho eleições resultar em mortes de pessoas indefesas, no roubo de medicamentos e na destruição de escolas e hospitais.

Não faz sentido espalhar o terror junto de quem, supostamente, votou na Renamo e no seu líder. Há aqui algum equivoco a ser esclarecido pelo porta-voz da Renamo António Muchanga ou pelo chefe da equipa da Renamo na Comissão Mista Jose Manteigas.

Se para justificar os ataques militares, o comandante da tropa, Afonso Dhlakama tem dito que eles acontecem em legítima defesa porque o Governo está a cercar o seu complexo habitacional, já não compreendemos a motivação destes ataques em Mopeia e, no Domingo, no Niassa.

Que saibamos e confirmado por si próprio, Afonso Dhlakama vive algures na Gorongosa e todo o perímetro sensível da sua segurança para a famosa auto-defesa devia girar em volta da serra da Gorongosa. Não cola, portanto no seu argumento, o terror espalhado em Mopeia ou no Niassa ou mesmo em alguns distritos de Manica.

Sabemos que faz parte da génese da Renamo a violência com base nas armas. Sabemos que onde não ganha politicamente, a Renamo sempre fará recurso a força das armas. Mas deve saber a liderança da Renamo desde a sua bancada parlamentar ,a sua Comissão Política e seu líder que isso não se faz. Este não é o tempo de recorrer a violência gratuita em nome da política.

Os militantes da Renamo, os apoiantes da Renamo deviam reflectir nos danos que estas acções terroristas criam no seio da opulação indefesa e mudar de táctica. Basta. Tenham piedade do nosso povo.

(*) Editorial do jornal Magazine Independente (04/08/2016)

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