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Daniel da Costa/Foto Facebook

Foi em meados dos anos 70 que, pela primeira vez, tomei contacto com a palavra “bantu”. Estava eu a frequentar o ensino secundário e a professora de História, Rosamina Taibo, explicava então que nós, moçambicanos, somos descendentes dos “bantu”, povos originários da África Central que tinham migrado para o sul do continente à busca de melhores condições de vida: água abundante, terras férteis para a prática da agricultura e criação de gado.

Nos anos 70, voltei a cruzar-me com a questão ‘’bantu”. Já estava na Universidade Eduardo Mondlane e o professor não era de História. O Dr. Mateus Katupha lecionava uma cadeira de linguística aplicada, baptizada na altura como Linguística Bantu. Era seu assistente o Dr. Armindo Ngunga.

Por que estava eu a estudar a línguas bantu? Porque como futuros professores de línguas vivas em Moçambique, fosse português, francês ou inglês, não podíamos ignorar as interferências das línguas bantu, faladas pela maioria da população, no processo de aprendizagem das novas línguas pelos alunos.

Na realidade moçambicana, muitos alunos só tomam contacto com a língua oficial já na escola primária. A maioria das crianças moçambicanas raciocina, brinca, chora e sonha numa língua bantu antes de ser tirada da pastorícia e dar os primeiros passos na aprendizagem da língua portuguesa, muitas vezes já na entrada da adolescência, nos lugares onde a escola primária se implantou tarde. As línguas bantu interferem na expressão de outras línguas, através do seu léxico, da pronúncia e da sintaxe
Ao estudarmos a Linguística Bantu também nos apercebemos de que as elites políticas têm interesses fundamentados ao escolherem uma língua como oficial e outra para ser apenas de comunicação na família, na igreja, no cemitério, na roda do pombe.

Seja qual for o interesse que em Moçambique orientou essa escolha, o certo é que o acesso à instrução, ao trabalho, à informação, ao poder – só para dar alguns exemplos –, infelizmente, ainda não é para todos os moçambicanos, devido à língua.

Pelo simples facto de não dominarem a língua portuguesa, a nossa língua oficial, muitos são ainda os moçambicanos que se sentem social e economicamente excluídos. Predominantemente, os anúncios de emprego falam línguas europeias nem as nossas línguas moçambicanas são vistas como lugares privilegiados de ciência. As Casas do Povo não debatem os problemas do povo nas línguas do povo: nem a Assembleia da República nem as Assembleias Provinciais nem as Assembleias Municipais.

Pela forma como o Estado moçambicano tem estado a gerir a questão linguística, as famílias podem não sentir-se encorajadas a investir nas nossas línguas nacionais para desafiar o futuro com mais segurança e auto-estima. Esta é uma das razões pelas quais os falantes das línguas bantu são vistos ainda como cidadãos de segunda pelas elites urbanas e figuram nas estatísticas oficiais como analfabetos. Reparem, surgem na estatística como analfabetos, mesmo que saibam ler e escrever a língua materna do seu grupo étnico, mesmo que saibam ler e escrever numa língua bantu. É o caso de muitos moçambicanos que aprenderam as línguas transnacionais do outro lado da fronteira – no Malawi, na Zâmbia, no Zimbábwe ou África do Sul.

Com o advento da independência nacional, a Rádio Moçambique herdou a tradição das emissões em línguas nacionais não só do Rádio Clube de Moçambique, mas também da Rádio Pax, do Aeroclube da Beira e principalmente da Voz de Moçambique.
Abro aqui um parêntesis para dizer que a minha mãe, Luísa Xavier, integrava na Voz de Moçambique, na Beira, no início dos anos 70, o primeiro grupo de locutores da língua Ci-Nyúgwe. Do grupo faziam parte Isabel Gravata, Daniel Fermenga e Chico Ferrão, este último irmão do saudoso Padre Ferrão. Na frente do Ci-Sena, estava Cristina Marra e, que eu me lembre, na frente E-Chuabo, Helena Sunipa.

Hoje, ao usar as línguas nacionais moçambicanas nas suas emissões, a Rádio Moçambique está a prestar um serviço público de inegável valor cultural e de afirmação da nossa moçambicanidade. Ao mesmo tempo que reabre o debate sobre o verdadeiro sentido da moçambicanidade, a Rádio Moçambique sobe mais uma fasquia com a publicação deste glossário.

De que fasquia estamos aqui a falar?

Com a publicação deste glossário, a Rádio mostra que é uma instituição inquieta, um órgão de informação que não se acomoda. A Rádio Moçambique entendeu que as línguas moçambicanas não deviam entrar “descalças” no recinto dos jogos da comunicação para o desenvolvimento. A Rádio Moçambique decidiu assim dar o seu modesto contributo cívico, equipando as línguas que usa com este glossário.

Um glossário facilita ao profissional de comunicação a abordagem de assuntos políticos, económicos, sociais, científicos, culturais, etc. Restaura a dignidade das nossas línguas nacionais e padroniza a sua utilização pelos seus profissionais. A própria Rádio Moçambique consolida a sua liderança como modelo de língua para vários segmentos de falantes das línguas bantu.

Na verdade, este não é o primeiro glossário com que a Rádio Moçambique nos brinda. O primeiro, intitulado Glossário para a Educação Cívica, veio a lume em 1997. No mesmo ano, a Rádio Moçambique publicou o Glossário de Conceitos Político-Sociais. Este ano vem à estampa o Glossário de Conceitos Políticos, Sociais e Desportivos, abarcando 18 línguas e com 100 novas entradas.

Mas as línguas que competem com as nossas não têm apenas glossários. A Rádio Moçambique, felizmente, sabe disso. A Rádio Moçambique sabe que as outras línguas têm prontuários, gramáticas, dicionários, enciclopédias, livros técnicos, romances, etc. As línguas concorrentes têm um sistema de ensino com professores e alunos. Têm pesquisa e centros de investigação, um sistema de livrarias e bibliotecas. Têm jornais, revistas, televisões e prémios, etc.

Comparado com esta panóplia de ferramentas, grande parte das quais já disponíveis on-line, o passo que a Rádio Moçambique dá com este glossário é aparentemente pequeno. Mas reveste-se de um significado profundo. Dá uma indicação muito forte aos linguistas moçambicanos, aos nossos filólogos, aos académicos, aos políticos, de que é possível fazermos mais pelas nossas línguas. É possível fazermos mais, e mais depressa. As nossas línguas devem ter um forte suporte editorial, saber técnico-científico e pessoas sintonizadas com o futuro, de forma regular e sistemática. As nossas línguas nacionais devem ter à sua disposição mais ferramentas num mundo que assiste a mudanças cada vez mais rápidas.

Por um lado, com este glossário, os profissionais vão poder alargar o seu vocabulário para novas áreas do saber e estar alinhados com as necessidades de comunicação da modernidade. Por outro, com ferramentas como este glossário, os ouvintes sairão a ganhar. Terão acesso a informação mais relevante na sua própria língua e transformar-se-ão em cidadãos mais preparados para os desafios colocados pelo nosso estágio de desenvolvimento e mais aptos para a construção de uma sociedade democrática em Moçambique.

Está, pois, de parabéns a Rádio Moçambique com mais este serviço que presta à nossa cidadania. Muito obrigado.

Por Daniel da Costa – Intervenção por ocasião do lançamento do Glossário de Conceitos Políticos, Sociais e Desportivos, em Tete, a 3 de Agosto de 2016

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