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25 anos após a sua morte, o trompetista permanece como protótipo de um artista sem concessões.

Miles Davis morreu furioso, de mal com o mundo. Havia sido internado num hospital de Santa Monica (Califórnia), onde os médicos diagnosticaram uma pneumonia bronquial. Quiseram intubá-lo; raivoso, remexeu-se e nesse momento sofreu um enfarte que o deixou em coma. Em 28 de setembro de 1991, o respirador que o mantinha vivo foi desligado.

Tinha 65 anos e muitos planos: deixar as digressões, aprofundar os novos modos de produção, talvez concretizar a alardeada colaboração com Prince, pintar mais daqueles quadros tipo Basquiat que amigos e colecionadores arrancavam das suas mãos. Estava muito castigado, mas no planeta jazz era inimaginável um futuro sem Miles, sem o grande agitador.

Em muitas ocasiões, a morte de uma grande figura é o pretexto para uma pirotécnica efusão midiática que desemboca no silêncio do cemitério. Não foi assim com Miles Davis: a sua música continua dialogando com o presente. Robert Glasper, responsável pela inteligente trilha sonora de Miles Ahead, lançou um disco audacioso, Everything’s Beautiful, onde artistas como Laura Mvula, Erykah Badu e Stevie Wonder criam novas canções a partir de fragmentos instrumentais de Davis. Também o produtor Bill Laswell remixou gravações do Miles elétrico em Panthalassa.

Mestres ofuscados

Simplificando: Miles Davis ainda encarna o jazz. Da mesma maneira que, em outros tempos, essa representatividade recaiu sobre Louis Armstrong, Duke Ellington e, fugazmente, sobre John Coltrane. Com quase meio século de gravações, Miles ocupa o lugar central na saga do gênero. Ofuscou os seus competidores, que podiam ser mestres do calibre de Dizzy Gillespie ou admiradores como Chet Baker. Ok, vamos repetir se vocês fazem questão: era o Picasso do jazz.

Convém lembrar que estamos diante de um buscador insaciável, cujo temperamento artístico se manifestou numa evolução permanente: bebop, cool jazz, jazz orquestral, jazz modal, jazz-funk-rock, hip-hop. Ao seu lado se formaram centenas de músicos, hoje astros do jazz, que tentavam decifrar as suas crípticas instruções, descobrindo nesse processo que o método Davis de ensinar a nadar consistia em atirar o novato na piscina de uma casa de shows lotada ou um estúdio de gravação, preparado para captar improvisos pouco ou nada ensaiados. Precisam desenvolver poderes de telepatia para antecipar os desejos do líder.

Um líder que não estava nem aí para ninguém. Nos tempos do black power, ignorou os militantes que o recriminavam por contratar músicos brancos. Muito consciente de que o jazz era a grande contribuição negra à cultura americana, acreditava, porém, que a combinação com instrumentistas de diferentes origens — também trabalhou com brasileiros, indianos e europeus — provocava uma fricção criativa.

Alheio a questões teóricas, agia por instinto; propunha os seus próprios desafios. Assim explicou a Keith Jarrett por que se afastou dos standards: “Sabe por que já não toco mais baladas? Porque gosto muito de tocar baladas”. Também assumia que isso não vendia mais; com a expansão do rock e do soul, o público jazzístico encolhera, ao menos nos Estados Unidos. O contrabaixista inglês Dave Holland, a quem Miles contratou em 1968, fala de desmoralizantes shows para 30 ou 40 pessoas.

Foi dos primeiros jazzmen a entenderem que o estúdio de gravação era o grande instrumento. O produtor Teo Macero registava tudo o que saía das sessões de Davis, incluindo as conversas; depois, sozinho ou com Miles, esse Dr. Frankenstein moldava o reportório que saía nos discos. As fitas originais, perfeitamente catalogadas e conservadas, permitiam posteriormente o lançamento de deslumbrantes caixas como The Complete ‘Bitches Brew’ Sessions e The Complete Jack Johnson Sessions. Regularmente saem novidades de Miles, que às vezes podem desequilibrar qualquer orçamento: The Complete Miles Davis at Montreux faz o fã se perguntar se realmente precisa de 20 discos ao vivo com copiosas versões de Tutu, Human Nature, Jean Pierre ou Time After Time.

A resposta é, obviamente, um “sim” com ressalvas. Emociona comprovar como os temas vão mudando à medida que os músicos de apoio se renovam, ou como isso responde às circunstâncias. Comove detectar como Miles vai poupando as suas energias — se protege atrás da surdina, evita os agudos, raciona as suas frases. Além dos clichês sobre o lirismo e a melancolia da sua música, observamos o elemento trágico, o esforço para manter o seu próprio personagem.

O Miles Davis lendário é uma esplêndida construção pessoal. Fugia das suas origens burguesas, como filho de um próspero dentista. Era um homem educado que se expressava no jargão do gueto, viciado em Ferraris e armas de fogo. Sua pose de hipster máximo o obrigava a dissimular: nem sequer na sua rala autobiografia menciona a sua bissexualidade. Na sua epopeia, era o lutador solitário, disposto a derrotar os seus demônios: escapou da heroína (começo dos anos cinquenta) e da cocaína (final dos setenta, a etapa retratada em Miles Ahead). Um pugilista manhoso, que só perdeu por nocaute técnico.

Por Diego A. Manrique, in El Pais

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